Que dados estão disponíveis no Corpus?
O CORPUS assenta na Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), anteriormente designada Base de Dados dos Grupos de Diagnóstico Homogéneo (BD GDH). Trata-se de uma base organizada por episódios de cuidados ocorridos em hospitais do Serviço Nacional de Saúde, incluindo internamento, cirurgia de ambulatório e ambulatório médico. A série está disponível desde 2000 e permite observar, ao longo de mais de duas décadas, como os hospitais receberam, trataram, transferiram e deram alta aos doentes.
Cada registo corresponde a um episódio hospitalar, e não necessariamente a uma pessoa. Um mesmo utente pode surgir várias vezes, por internamentos diferentes, por tratamentos sucessivos ou por readmissões. A partir de 2010, a base inclui um identificador fictício do utente, que permite ligar episódios da mesma pessoa sem revelar a sua identidade. Esta variável torna possível estudar trajectórias de doença, reincidências, readmissões e padrões de utilização hospitalar, preservando a confidencialidade dos doentes.
A informação disponível pode ser organizada em vários grupos.
Tempo, instituição e percurso hospitalar
Cada episódio contém o ano de referência — apurado pela data de alta —, a identificação do hospital ou da unidade local de saúde onde ocorreu, a data de entrada e a data de saída, bem como o número total de dias de internamento. A base permite ainda conhecer a data de entrada na urgência, quando aplicável, e a data da primeira intervenção cirúrgica realizada durante a permanência hospitalar.
Existem igualmente variáveis relativas ao percurso do doente dentro e fora do hospital: o código do serviço por onde passou, as datas de entrada e saída desse serviço, o hospital de origem e o hospital de destino em caso de transferência, bem como o motivo da transferência. Deve, contudo, ter-se presente que os códigos de serviço não estão normalizados entre instituições, pelo que não permitem, por si só, comparar directamente serviços clínicos homónimos de hospitais diferentes.
Perfil demográfico e territorial
A base inclui o sexo e a idade do utente à entrada, bem como o distrito e o concelho de residência. Estas variáveis permitem analisar a utilização hospitalar por grupos etários, sexo e território, identificando diferenças entre populações residentes em distintas zonas do país.
A ligação entre o local de residência e o hospital onde ocorreu o episódio permite estudar fenómenos particularmente relevantes: deslocações para fora do concelho ou do distrito de residência, concentração de cuidados em determinados hospitais, dependência de centros de referência, transferências entre unidades e desigualdades geográficas no acesso aos cuidados hospitalares.
Forma de admissão, tipo de episódio e financiamento
A variável de tipo de admissão distingue, entre outras situações, episódios programados, urgentes, associados ao SIGIC, à medicina privada ou a programas específicos de acesso cirúrgico. Esta informação permite separar a actividade hospitalar previsível da actividade pressionada pela urgência e observar como essa relação varia entre hospitais, especialidades, períodos do ano ou grupos de doentes.
A base identifica também se o episódio corresponde a internamento ou ambulatório, se é válido para efeitos estatísticos ou de facturação e qual a entidade financeira responsável, incluindo a distinção entre utentes SNS e não SNS. Há ainda uma medida de «doente equivalente», utilizada no agrupamento hospitalar para traduzir o peso relativo da actividade produzida.
Diagnósticos, doenças e comorbilidades
O núcleo clínico da base é constituído pelo diagnóstico principal — isto é, a condição considerada responsável pela admissão hospitalar — e pelos diagnósticos adicionais, que permitem identificar doenças coexistentes, complicações ou comorbilidades relevantes durante o episódio.
Os diagnósticos são codificados de acordo com classificações clínicas internacionais. Até à transição ocorrida no final de 2016 predominam os códigos ICD-9-CM; nos registos mais recentes é utilizada a ICD-10-CM/PCS. O CORPUS integra as tabelas de correspondência e descrição destes códigos, permitindo transformar classificações técnicas em designações clínicas compreensíveis e construir agregações por doença, órgão, sistema ou grupo patológico.
Nos episódios antigos, a base contém ainda campos específicos para causas externas — como acidentes, intoxicações ou lesões — e para morfologias tumorais, úteis sobretudo na análise de episódios oncológicos e traumáticos. A mudança de classificação clínica exige cautela nas séries longas: comparações entre períodos anteriores e posteriores a 2016 devem assentar em grupos clinicamente harmonizados, e não numa simples soma mecânica de códigos diferentes.
Procedimentos, cirurgias e actividade clínica
Os dados incluem os procedimentos realizados durante cada episódio, desde intervenções cirúrgicas a técnicas de diagnóstico ou tratamento. A análise destes campos permite acompanhar a evolução da actividade cirúrgica, a utilização de determinadas tecnologias, a substituição de procedimentos de internamento por ambulatório ou as diferenças entre hospitais no recurso a certos tratamentos.
A data da primeira intervenção cirúrgica permite, por exemplo, estudar a distância temporal entre a admissão e a cirurgia, embora não substitua uma base específica sobre listas de espera nem contenha toda a cronologia assistencial do doente.
Desde 2017, a documentação técnica prevê também campos relativos à especialidade, subespecialidade e estrutura clínica de alta. A sua utilização deve ser feita com atenção à completude e à consistência dos registos em cada período.
Gravidade, risco e complexidade clínica
A base contém variáveis de agrupamento em Grupos de Diagnóstico Homogéneo e Grandes Categorias de Diagnóstico, bem como indicadores de severidade e de risco de mortalidade. Estes elementos permitem distinguir episódios clinicamente simples de episódios complexos e evitam comparações grosseiras entre hospitais que tratam populações muito diferentes.
Um hospital com maior proporção de doentes de risco elevado, com múltiplas comorbilidades ou submetidos a procedimentos complexos não pode ser avaliado pelos mesmos indicadores brutos de uma unidade que recebe sobretudo casos menos graves. A severidade, o risco de mortalidade, os diagnósticos adicionais, a idade, o sexo, o tipo de admissão e a duração do internamento são, por isso, fundamentais para análises ajustadas e comparações responsáveis.
Destino após a alta e mortalidade hospitalar
A variável de destino após a alta permite saber se o doente regressou ao domicílio, foi transferido para outra instituição, teve alta contra parecer médico, foi encaminhado para cuidados paliativos, cuidados continuados ou internamento de longa duração, ou faleceu durante o episódio hospitalar.
O código de falecimento permite analisar a mortalidade ocorrida no hospital, sempre articulada com a idade, os diagnósticos, a severidade, o risco de mortalidade, o tipo de admissão e a instituição. Não se trata, porém, de mortalidade após a alta, de mortalidade a 30 dias ou de sobrevivência a longo prazo: a base observa o desfecho registado no episódio hospitalar.
Que investigações podem ser feitas?
A combinação destas variáveis permite desenvolver investigações muito diversas, desde que a pergunta seja formulada de acordo com aquilo que os dados efectivamente medem.
É possível analisar a evolução hospitalar de doenças específicas, observando, por exemplo, quantos episódios foram registados por insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral, pneumonia, diabetes, cancro, doenças respiratórias, traumatismos ou perturbações de saúde mental, e como essa actividade se distribuiu por idade, sexo, concelho de residência, hospital e período temporal.
Podem estudar-se desigualdades territoriais no acesso aos cuidados: que concelhos recorrem mais frequentemente a hospitais fora da sua área, quais as regiões que apresentam maior dependência de unidades distantes, que hospitais recebem mais doentes de outros distritos e como funcionam as redes de referenciação e transferência dentro do SNS.
A base permite igualmente acompanhar a pressão assistencial e a transformação da actividade hospitalar: crescimento ou redução de internamentos, evolução da urgência face à actividade programada, alterações na cirurgia de ambulatório, duração média de internamento, frequência de transferências e variações sazonais ou excepcionais associadas a epidemias, ondas de calor, crises respiratórias ou alterações de política de saúde.
Com o identificador fictício disponível desde 2010, torna-se possível estudar episódios repetidos da mesma pessoa: readmissões hospitalares, trajectórias de doentes crónicos, sucessão de internamentos, utilização recorrente da urgência, concentração da actividade em grupos particularmente vulneráveis e transições entre hospitais.
Os dados permitem ainda investigações sobre segurança e resultados hospitalares, desde que sejam realizadas com ajustamento adequado. Podem comparar-se, por exemplo, a mortalidade hospitalar, a duração do internamento ou a probabilidade de transferência entre unidades para grupos clínicos comparáveis, estratificados por idade, sexo, diagnóstico, comorbilidades, tipo de admissão e severidade. Estes resultados não equivalem automaticamente a juízos sobre a qualidade de um hospital: são pontos de partida para investigação, escrutínio e análise contextualizada.
Na área oncológica, a informação sobre diagnósticos, procedimentos e, nos anos em que existe, morfologia tumoral permite estudar padrões de hospitalização, tratamentos realizados, distribuição territorial da actividade e evolução da procura de cuidados. Não permite, por si só, medir a incidência real de cancro na população nem calcular sobrevivência após a alta, para o que seriam necessárias outras fontes de dados.
Nos episódios de recém-nascidos, o peso à nascença permite análises específicas sobre prematuridade, baixo peso, cuidados neonatais e actividade hospitalar associada ao nascimento, sempre dentro dos limites de uma base administrativa hospitalar.
Limites que importa conhecer
O CORPUS permite observar a morbilidade hospitalar, não a totalidade da doença existente na população. Um episódio hospitalar não corresponde necessariamente a um novo caso de doença, nem a ausência de internamento significa ausência de patologia. Muitas situações são acompanhadas nos cuidados de saúde primários, no sector privado ou fora do hospital e, por isso, não surgem nesta base.
Os dados dizem respeito a episódios ocorridos em hospitais do SNS. Não constituem, isoladamente, um retrato completo de toda a actividade de saúde em Portugal. A interpretação exige também atenção às mudanças de classificação clínica, à qualidade do registo administrativo, à disponibilidade variável de alguns campos ao longo do tempo e à diferença entre indicadores brutos e indicadores ajustados ao risco.
A utilidade do CORPUS está precisamente em tornar estes dados pesquisáveis, comparáveis e escrutináveis. Não substitui o trabalho clínico, a investigação epidemiológica nem a análise causal rigorosa. Mas permite formular perguntas que até agora permaneciam escondidas em milhões de registos administrativos: quem recorre aos hospitais, porquê, onde, com que gravidade, durante quanto tempo, com que procedimentos e com que desfecho registado no momento da alta.
Fonte metodológica: dicionário técnico da Base de Dados de Morbilidade Hospitalar, DPS/ACSS, 2025.