Traumatismo Craniano: Evolução da Mortalidade Hospitalar em Portugal (2000–2024)
por Jose Maria Pereira
Ao longo de 25 anos, os internamentos por traumatismo craniano nos hospitais do SNS português caíram 72% — de 11 500 para 3 200 por ano —, reflexo da melhoria da segurança rodoviária. Porém, a taxa de mortalidade hospitalar quase triplicou, passando de 5,7% em 2000 para 15,1% em 2024, impulsionada pelo envelhecimento acentuado da população internada e pela crescente preponderância das quedas em idosos como mecanismo de lesão. No total do período, registaram-se 163 564 internamentos e 14 625 óbitos hospitalares.
Contexto.
O traumatismo craniano (TC) é uma das principais causas de morte e incapacidade nos países desenvolvidos. Em Portugal, a sua epidemiologia hospitalar sofreu uma transformação profunda nas últimas duas décadas e meia: o declínio dos acidentes de viação graves, associado a políticas sucessivas de segurança rodoviária, reduziu drasticamente o número de casos internados. Em simultâneo, o envelhecimento demográfico fez emergir um novo perfil de doente — o idoso com queda —, com prognóstico intrinsecamente mais reservado. Este relatório analisa a evolução da mortalidade hospitalar por TC nos hospitais do SNS entre 2000 e 2024, com base na Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH/ACSS).
1. Evolução dos Internamentos e da Mortalidade
A trajectória dos 25 anos é marcada por duas tendências opostas mas simultâneas. O volume de internamentos declinou de forma contínua e acentuada: de cerca de 11 500 casos em 2000 para pouco mais de 3 100 em 2024, uma redução de 72%. Esta queda é em larga medida atribuível à diminuição dos traumatismos graves por acidente de viação, cujos picos históricos dominavam o início da série.
Em sentido contrário, a taxa de mortalidade hospitalar subiu de 5,7% em 2000 para 15,1% em 2024. O pico mais abrupto ocorreu durante a pandemia de COVID-19 (2020–2021), quando a taxa saltou de ~10% para 13–13,5%, estabilizando depois em patamares elevados. O número absoluto de óbitos manteve-se relativamente estável ao longo de todo o período (entre 478 e 666 por ano), o que significa que se morre tanto — ou quase tanto — com uma fracção do volume de internamentos de há 25 anos.
Fonte: BDMH/ACSS. Internamentos (tipo_port_apr31='Int'), diagnóstico principal CCS 233. Barras: eixo esquerdo (internamentos); linha vermelha: eixo direito (mortalidade %).
2. O Envelhecimento como Motor da Mortalidade
A transformação mais significativa na epidemiologia hospitalar do TC é a inversão da pirâmide etária dos doentes internados. Em 2000, apenas 28% dos doentes tinham 65 ou mais anos e 10% tinham 80 ou mais. Em 2024, esses valores atingem 69% e 39%, respectivamente.
Esta mudança reflecte dois processos em simultâneo: a redução drástica dos traumatismos em adultos jovens (acidentes de viação) e o aumento absoluto das quedas em idosos, que se tornaram o mecanismo dominante de TC. As quedas produzem lesões com características distintas — frequentemente hematomas subdurais crónicos ou agudos sobre um cérebro já envelhecido, com menor reserva funcional —, o que eleva estruturalmente a mortalidade.
A idade média à entrada subiu de 42 anos em 2000 para 67 anos em 2024, e a demora média de internamento passou de 6 para cerca de 15 dias, ambos indicadores do aumento da complexidade clínica.
Linha laranja: % com ≥65 anos (eixo esquerdo). Linha roxa tracejada: % com ≥80 anos (mesma escala). Fonte: BDMH/ACSS.
3. Mortalidade por Grupo Etário: o Impacto Transversal
A análise por grupo etário e período quinquenal revela que o aumento da mortalidade não é um artefacto da composição etária — ocorre dentro de cada faixa etária ao longo do tempo, com especial intensidade após 2020.
Nos doentes com 80 ou mais anos, a mortalidade passou de 12,4% no período 2000–04 para 18,0% no período 2020–24. Nos 65–79 anos, de 9,1% para 12,6%. Mesmo nos grupos mais jovens se observa uma tendência crescente, embora mais moderada. O salto pós-2020 é transversal a todas as faixas e sugere um efeito combinado da pandemia de COVID-19 — quer directamente (co-infecção, menor capacidade de resposta dos serviços) quer pela selecção de casos mais graves que chegam a internar.
Fonte: BDMH/ACSS. Episódios de internamento, diagnóstico principal CCS 233, 2000–2024.
4. Perfil Clínico: Demora Média e Admissão de Urgência
Dois indicadores adicionais ilustram a transformação clínica dos doentes internados com TC.
A demora média de internamento aumentou de forma consistente: de 6,1 dias em 2000 para 14,6 dias em 2024. Este aumento reflecte a maior complexidade dos doentes idosos, que frequentemente requerem cuidados intensivos prolongados, gestão de anticoagulação (muito prevalente nos idosos com quedas), e planeamento de alta para cuidados continuados.
A proporção de admissões urgentes manteve-se acima dos 95–99% ao longo de toda a série, confirmando que o TC é quase exclusivamente uma patologia de urgência. A ligeira descida observada em 2017 (de ~99% para ~91%) é provavelmente um artefacto de codificação na transição para o ICD-10, sem significado clínico.
Linha verde: demora média em dias (eixo esquerdo). Linha azul tracejada: idade média à admissão em anos (eixo direito). Fonte: BDMH/ACSS.
5. Série Anual de Referência
A tabela seguinte consolida todos os indicadores anuais analisados neste relatório.
| Ano | Internamentos | Óbitos | Mortalidade (%) | Idade média | Demora média (dias) | ≥65 anos (%) | ≥80 anos (%) | Masculino (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2000 | 11 483 | 651 | 5,67 | 42,4 | 6,1 | 27,6 | 10,3 | 64,5 |
| 2001 | 10 723 | 609 | 5,68 | 44,8 | 6,6 | 31,7 | 11,2 | 66,2 |
| 2002 | 9804 | 616 | 6,28 | 44,9 | 6,6 | 32,4 | 12,3 | 64,1 |
| 2003 | 7952 | 595 | 7,48 | 47,2 | 8 | 35,8 | 14 | 64,6 |
| 2004 | 6930 | 561 | 8,1 | 48,2 | 8,2 | 36,9 | 14,8 | 64,1 |
| 2005 | 7475 | 529 | 7,08 | 50,6 | 8 | 40,6 | 16,7 | 62,7 |
| 2006 | 6871 | 512 | 7,45 | 52 | 8,4 | 42,1 | 17,2 | 61 |
| 2007 | 5955 | 524 | 8,8 | 55,6 | 10,4 | 47,5 | 20,5 | 62,8 |
| 2008 | 5862 | 541 | 9,23 | 56,6 | 10,1 | 49,5 | 23,4 | 62,2 |
| 2009 | 6016 | 594 | 9,87 | 58,6 | 10,9 | 53,5 | 25,4 | 62,5 |
| 2010 | 6174 | 611 | 9,9 | 59,2 | 10,6 | 54,5 | 26,5 | 61,2 |
| 2011 | 6202 | 590 | 9,51 | 59,9 | 10,6 | 55,9 | 27,7 | 59,9 |
| 2012 | 5986 | 557 | 9,31 | 62,2 | 10,7 | 58,9 | 30,5 | 59 |
| 2013 | 6351 | 591 | 9,31 | 63,7 | 9,9 | 61,5 | 32,6 | 58,6 |
| 2014 | 6275 | 557 | 8,88 | 64,6 | 10,5 | 63,1 | 34,1 | 58,6 |
| 2015 | 6813 | 666 | 9,78 | 66,2 | 10,4 | 66 | 36,4 | 57,4 |
| 2016 | 7027 | 649 | 9,24 | 67,3 | 10 | 67,5 | 39,5 | 57 |
| 2017 | 6500 | 644 | 9,91 | 68,3 | 11,6 | 69,5 | 40,4 | 58 |
| 2018 | 6371 | 644 | 10,11 | 68,7 | 12 | 70,2 | 40,7 | 56,6 |
| 2019 | 6058 | 602 | 9,94 | 69 | 11,9 | 70,4 | 41,7 | 57,9 |
| 2020 | 5015 | 615 | 12,26 | 68,5 | 12,8 | 69 | 39,8 | 59,2 |
| 2021 | 4771 | 643 | 13,48 | 68,7 | 12,9 | 69,5 | 42,2 | 60,1 |
| 2022 | 4196 | 565 | 13,47 | 68,5 | 14,5 | 69,1 | 39,6 | 61 |
| 2023 | 3589 | 481 | 13,4 | 67,8 | 14,2 | 68,7 | 38,2 | 60,9 |
| 2024 | 3165 | 478 | 15,1 | 67,4 | 14,6 | 68,9 | 39,3 | 60,6 |
Fonte: BDMH/ACSS. Episódios de internamento (tipo_port_apr31='Int'), diagnóstico principal CCS 233 (Intracranial injury).
6. Conclusões
1. Dupla trajectória, paradoxo aparente. A queda de 72% nos internamentos e a quase triplicação da taxa de mortalidade são duas faces do mesmo processo: menos casos chegam ao hospital — os ligeiros deixaram progressivamente de ser internados —, mas os que chegam são mais graves, mais velhos e com menor capacidade de recuperação.
2. A transição do acidente de viação para a queda do idoso. Em 2000, o TC era predominantemente uma patologia do jovem adulto vítima de sinistro rodoviário; em 2024, é maioritariamente um problema geriátrico. Esta mudança tem implicações directas para a organização dos serviços: os protocolos de neurocirurgia e de cuidados intensivos foram desenhados para o primeiro perfil, mas o segundo requer competências adicionais em geriatria, avaliação do risco cirúrgico no idoso e planeamento de cuidados continuados.
3. O impacto da COVID-19 como disruptor. O salto de ~10% para ~13% de mortalidade em 2020–2021 — e a subida posterior para 15% em 2024 — sugere que a pandemia agravou estruturalmente os resultados nesta patologia, quer por selecção de casos, quer por pressão sobre os serviços de neurocirurgia e cuidados intensivos.
4. O desafio demográfico é crescente. Com 39% dos internamentos a corresponderem a doentes com 80 ou mais anos e uma mortalidade de 18% nesse grupo no período 2020–24, o TC no idoso configura um dos maiores desafios de saúde pública para os próximos anos — potencialmente agravado pelo aumento da prescrição de anticoagulantes nessa população.
Metodologia
Fonte: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS, anos 2000 a 2024.
Universo: Episódios de internamento hospitalar no SNS (tipo_port_apr31 = 'Int'). Excluídos episódios de cirurgia ambulatória e ambulatório médico.
Definição de caso: Diagnóstico principal classificado na categoria CCS 233 — Intracranial injury (AHRQ Clinical Classifications Software). Esta categoria agrega os traumatismos e lesões intracranianas em ambas as versões do ICD utilizadas na BDMH: ICD-9-CM (episódios até 2016, e alguns de 2016 já em ICD-10) e ICD-10-CM/PCS (episódios a partir de 2017). O mapeamento CCS harmoniza ambas as eras e assegura a comparabilidade longitudinal.
Mortalidade hospitalar: Definida como destino de alta igual a 20 (óbito). Não inclui mortes após a saída do hospital.
Quebras de série: (a) 2007 — entrada de linhas ambulatórias no extracto BDMH, que afecta a contagem total mas não os internamentos filtrados aqui; (b) 2013 — alteração na definição de internamento (redução de ~1,3M para ~1,0M episódios no total do SNS); (c) 2020 — impacto da pandemia de COVID-19. Estas quebras são identificadas e contextualizadas na análise.
Demora média: Calculada apenas para episódios com dias_int ≥ 0 (excluídos ~72 000 registos sentinela com dias_int = −1, maioritariamente de 2009–2011).
Nomes de hospitais: Reflectem a estrutura organizacional de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente); as séries por hospital são internamente consistentes mas não reflectem os nomes históricos.
Período da análise: 2000–2024 (25 anos).