19 de julho de 2026

Traumatismo Craniano: Evolução da Mortalidade Hospitalar em Portugal (2000–2024)

por Jose Maria Pereira

Ao longo de 25 anos, os internamentos por traumatismo craniano nos hospitais do SNS português caíram 72% — de 11 500 para 3 200 por ano —, reflexo da melhoria da segurança rodoviária. Porém, a taxa de mortalidade hospitalar quase triplicou, passando de 5,7% em 2000 para 15,1% em 2024, impulsionada pelo envelhecimento acentuado da população internada e pela crescente preponderância das quedas em idosos como mecanismo de lesão. No total do período, registaram-se 163 564 internamentos e 14 625 óbitos hospitalares.

Contexto.

O traumatismo craniano (TC) é uma das principais causas de morte e incapacidade nos países desenvolvidos. Em Portugal, a sua epidemiologia hospitalar sofreu uma transformação profunda nas últimas duas décadas e meia: o declínio dos acidentes de viação graves, associado a políticas sucessivas de segurança rodoviária, reduziu drasticamente o número de casos internados. Em simultâneo, o envelhecimento demográfico fez emergir um novo perfil de doente — o idoso com queda —, com prognóstico intrinsecamente mais reservado. Este relatório analisa a evolução da mortalidade hospitalar por TC nos hospitais do SNS entre 2000 e 2024, com base na Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH/ACSS).

163 564
Total de internamentos (2000–2024)
Episódios de internamento com diagnóstico principal de lesão intracraniana (CCS 233)
14 625
Total de óbitos hospitalares (2000–2024)
Taxa de mortalidade global do período: 8,9%
5,7% → 15,1%
Variação da taxa de mortalidade
De 2000 para 2024 — quase triplicou, apesar da redução de 72% nos internamentos

1. Evolução dos Internamentos e da Mortalidade

A trajectória dos 25 anos é marcada por duas tendências opostas mas simultâneas. O volume de internamentos declinou de forma contínua e acentuada: de cerca de 11 500 casos em 2000 para pouco mais de 3 100 em 2024, uma redução de 72%. Esta queda é em larga medida atribuível à diminuição dos traumatismos graves por acidente de viação, cujos picos históricos dominavam o início da série.

Em sentido contrário, a taxa de mortalidade hospitalar subiu de 5,7% em 2000 para 15,1% em 2024. O pico mais abrupto ocorreu durante a pandemia de COVID-19 (2020–2021), quando a taxa saltou de ~10% para 13–13,5%, estabilizando depois em patamares elevados. O número absoluto de óbitos manteve-se relativamente estável ao longo de todo o período (entre 478 e 666 por ano), o que significa que se morre tanto — ou quase tanto — com uma fracção do volume de internamentos de há 25 anos.

Internamentos e Taxa de Mortalidade por Traumatismo Craniano (2000–2024)

Fonte: BDMH/ACSS. Internamentos (tipo_port_apr31='Int'), diagnóstico principal CCS 233. Barras: eixo esquerdo (internamentos); linha vermelha: eixo direito (mortalidade %).

2. O Envelhecimento como Motor da Mortalidade

A transformação mais significativa na epidemiologia hospitalar do TC é a inversão da pirâmide etária dos doentes internados. Em 2000, apenas 28% dos doentes tinham 65 ou mais anos e 10% tinham 80 ou mais. Em 2024, esses valores atingem 69% e 39%, respectivamente.

Esta mudança reflecte dois processos em simultâneo: a redução drástica dos traumatismos em adultos jovens (acidentes de viação) e o aumento absoluto das quedas em idosos, que se tornaram o mecanismo dominante de TC. As quedas produzem lesões com características distintas — frequentemente hematomas subdurais crónicos ou agudos sobre um cérebro já envelhecido, com menor reserva funcional —, o que eleva estruturalmente a mortalidade.

A idade média à entrada subiu de 42 anos em 2000 para 67 anos em 2024, e a demora média de internamento passou de 6 para cerca de 15 dias, ambos indicadores do aumento da complexidade clínica.

Composição Etária dos Internamentos por TC (% de doentes com ≥65 e ≥80 anos)

Linha laranja: % com ≥65 anos (eixo esquerdo). Linha roxa tracejada: % com ≥80 anos (mesma escala). Fonte: BDMH/ACSS.

3. Mortalidade por Grupo Etário: o Impacto Transversal

A análise por grupo etário e período quinquenal revela que o aumento da mortalidade não é um artefacto da composição etária — ocorre dentro de cada faixa etária ao longo do tempo, com especial intensidade após 2020.

Nos doentes com 80 ou mais anos, a mortalidade passou de 12,4% no período 2000–04 para 18,0% no período 2020–24. Nos 65–79 anos, de 9,1% para 12,6%. Mesmo nos grupos mais jovens se observa uma tendência crescente, embora mais moderada. O salto pós-2020 é transversal a todas as faixas e sugere um efeito combinado da pandemia de COVID-19 — quer directamente (co-infecção, menor capacidade de resposta dos serviços) quer pela selecção de casos mais graves que chegam a internar.

Taxa de Mortalidade Hospitalar por Grupo Etário e Período Quinquenal

Fonte: BDMH/ACSS. Episódios de internamento, diagnóstico principal CCS 233, 2000–2024.

4. Perfil Clínico: Demora Média e Admissão de Urgência

Dois indicadores adicionais ilustram a transformação clínica dos doentes internados com TC.

A demora média de internamento aumentou de forma consistente: de 6,1 dias em 2000 para 14,6 dias em 2024. Este aumento reflecte a maior complexidade dos doentes idosos, que frequentemente requerem cuidados intensivos prolongados, gestão de anticoagulação (muito prevalente nos idosos com quedas), e planeamento de alta para cuidados continuados.

A proporção de admissões urgentes manteve-se acima dos 95–99% ao longo de toda a série, confirmando que o TC é quase exclusivamente uma patologia de urgência. A ligeira descida observada em 2017 (de ~99% para ~91%) é provavelmente um artefacto de codificação na transição para o ICD-10, sem significado clínico.

Demora Média de Internamento e Idade Média (2000–2024)

Linha verde: demora média em dias (eixo esquerdo). Linha azul tracejada: idade média à admissão em anos (eixo direito). Fonte: BDMH/ACSS.

5. Série Anual de Referência

A tabela seguinte consolida todos os indicadores anuais analisados neste relatório.

Traumatismo Craniano — Indicadores Anuais de Internamento (2000–2024)
AnoInternamentosÓbitosMortalidade (%)Idade médiaDemora média (dias)≥65 anos (%)≥80 anos (%)Masculino (%)
200011 4836515,6742,46,127,610,364,5
200110 7236095,6844,86,631,711,266,2
200298046166,2844,96,632,412,364,1
200379525957,4847,2835,81464,6
200469305618,148,28,236,914,864,1
200574755297,0850,6840,616,762,7
200668715127,45528,442,117,261
200759555248,855,610,447,520,562,8
200858625419,2356,610,149,523,462,2
200960165949,8758,610,953,525,462,5
201061746119,959,210,654,526,561,2
201162025909,5159,910,655,927,759,9
201259865579,3162,210,758,930,559
201363515919,3163,79,961,532,658,6
201462755578,8864,610,563,134,158,6
201568136669,7866,210,46636,457,4
201670276499,2467,31067,539,557
201765006449,9168,311,669,540,458
2018637164410,1168,71270,240,756,6
201960586029,946911,970,441,757,9
2020501561512,2668,512,86939,859,2
2021477164313,4868,712,969,542,260,1
2022419656513,4768,514,569,139,661
2023358948113,467,814,268,738,260,9
2024316547815,167,414,668,939,360,6

Fonte: BDMH/ACSS. Episódios de internamento (tipo_port_apr31='Int'), diagnóstico principal CCS 233 (Intracranial injury).

6. Conclusões

1. Dupla trajectória, paradoxo aparente. A queda de 72% nos internamentos e a quase triplicação da taxa de mortalidade são duas faces do mesmo processo: menos casos chegam ao hospital — os ligeiros deixaram progressivamente de ser internados —, mas os que chegam são mais graves, mais velhos e com menor capacidade de recuperação.

2. A transição do acidente de viação para a queda do idoso. Em 2000, o TC era predominantemente uma patologia do jovem adulto vítima de sinistro rodoviário; em 2024, é maioritariamente um problema geriátrico. Esta mudança tem implicações directas para a organização dos serviços: os protocolos de neurocirurgia e de cuidados intensivos foram desenhados para o primeiro perfil, mas o segundo requer competências adicionais em geriatria, avaliação do risco cirúrgico no idoso e planeamento de cuidados continuados.

3. O impacto da COVID-19 como disruptor. O salto de ~10% para ~13% de mortalidade em 2020–2021 — e a subida posterior para 15% em 2024 — sugere que a pandemia agravou estruturalmente os resultados nesta patologia, quer por selecção de casos, quer por pressão sobre os serviços de neurocirurgia e cuidados intensivos.

4. O desafio demográfico é crescente. Com 39% dos internamentos a corresponderem a doentes com 80 ou mais anos e uma mortalidade de 18% nesse grupo no período 2020–24, o TC no idoso configura um dos maiores desafios de saúde pública para os próximos anos — potencialmente agravado pelo aumento da prescrição de anticoagulantes nessa população.

Metodologia

Fonte: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS, anos 2000 a 2024.

Universo: Episódios de internamento hospitalar no SNS (tipo_port_apr31 = 'Int'). Excluídos episódios de cirurgia ambulatória e ambulatório médico.

Definição de caso: Diagnóstico principal classificado na categoria CCS 233 — Intracranial injury (AHRQ Clinical Classifications Software). Esta categoria agrega os traumatismos e lesões intracranianas em ambas as versões do ICD utilizadas na BDMH: ICD-9-CM (episódios até 2016, e alguns de 2016 já em ICD-10) e ICD-10-CM/PCS (episódios a partir de 2017). O mapeamento CCS harmoniza ambas as eras e assegura a comparabilidade longitudinal.

Mortalidade hospitalar: Definida como destino de alta igual a 20 (óbito). Não inclui mortes após a saída do hospital.

Quebras de série: (a) 2007 — entrada de linhas ambulatórias no extracto BDMH, que afecta a contagem total mas não os internamentos filtrados aqui; (b) 2013 — alteração na definição de internamento (redução de ~1,3M para ~1,0M episódios no total do SNS); (c) 2020 — impacto da pandemia de COVID-19. Estas quebras são identificadas e contextualizadas na análise.

Demora média: Calculada apenas para episódios com dias_int ≥ 0 (excluídos ~72 000 registos sentinela com dias_int = −1, maioritariamente de 2009–2011).

Nomes de hospitais: Reflectem a estrutura organizacional de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente); as séries por hospital são internamente consistentes mas não reflectem os nomes históricos.

Período da análise: 2000–2024 (25 anos).

Reprodutibilidade: consultas SQL utilizadas (3)

Série anual completa de internamentos por traumatismo craniano com mortalidade e perfil clínico

WITH base AS (
    SELECT
        e.ano,
        COUNT(*) AS episodios,
        SUM(CASE WHEN e.dsp = 20 THEN 1 ELSE 0 END) AS obitos,
        AVG(e.idade::DOUBLE) AS idade_media,
        SUM(CASE WHEN e.dias_int >= 0 THEN e.dias_int ELSE NULL END)::DOUBLE /
            NULLIF(SUM(CASE WHEN e.dias_int >= 0 THEN 1 ELSE 0 END), 0) AS dias_medio,
        SUM(CASE WHEN e.adm_tip = 2 THEN 1 ELSE 0 END) AS urgentes,
        SUM(CASE WHEN e.idade >= 65 THEN 1 ELSE 0 END) AS n_65mais,
        SUM(CASE WHEN e.idade >= 80 THEN 1 ELSE 0 END) AS n_80mais,
        SUM(CASE WHEN e.sexo = 1 THEN 1 ELSE 0 END) AS n_masc
    FROM episodes e
    INNER JOIN ccs c ON c.icd_versao = e.icd_versao AND c.codigo = e.d1
    WHERE c.ccs_cat = 233
      AND e.tipo_port_apr31 = 'Int'
    GROUP BY e.ano
)
SELECT ano,
    episodios, obitos,
    ROUND(obitos * 100.0 / episodios, 2) AS mortalidade_pct,
    ROUND(idade_media, 1) AS idade_media,
    ROUND(dias_medio, 1) AS dias_medio,
    ROUND(urgentes * 100.0 / episodios, 1) AS pct_urgente,
    ROUND(n_65mais * 100.0 / episodios, 1) AS pct_65mais,
    ROUND(n_80mais * 100.0 / episodios, 1) AS pct_80mais,
    ROUND(n_masc * 100.0 / episodios, 1) AS pct_masculino
FROM base ORDER BY ano

Mortalidade por grupo etário e período quinquenal

SELECT
    CASE
        WHEN e.idade < 18 THEN '0-17'
        WHEN e.idade < 45 THEN '18-44'
        WHEN e.idade < 65 THEN '45-64'
        WHEN e.idade < 80 THEN '65-79'
        ELSE '80+'
    END AS grupo_etario,
    CASE
        WHEN e.ano BETWEEN 2000 AND 2004 THEN '2000-04'
        WHEN e.ano BETWEEN 2005 AND 2009 THEN '2005-09'
        WHEN e.ano BETWEEN 2010 AND 2014 THEN '2010-14'
        WHEN e.ano BETWEEN 2015 AND 2019 THEN '2015-19'
        WHEN e.ano BETWEEN 2020 AND 2024 THEN '2020-24'
    END AS periodo,
    COUNT(*) AS episodios,
    SUM(CASE WHEN e.dsp = 20 THEN 1 ELSE 0 END) AS obitos,
    ROUND(SUM(CASE WHEN e.dsp = 20 THEN 1 ELSE 0 END) * 100.0 / COUNT(*), 1) AS mortalidade_pct
FROM episodes e
INNER JOIN ccs c ON c.icd_versao = e.icd_versao AND c.codigo = e.d1
WHERE c.ccs_cat = 233
  AND e.tipo_port_apr31 = 'Int'
  AND e.idade BETWEEN 0 AND 110
GROUP BY grupo_etario, periodo
ORDER BY grupo_etario, periodo

Totais globais do período 2000-2024 para traumatismo craniano em internamento

SELECT
    COUNT(*) AS total_episodios,
    SUM(CASE WHEN dsp = 20 THEN 1 ELSE 0 END) AS total_obitos,
    ROUND(SUM(CASE WHEN dsp = 20 THEN 1 ELSE 0 END) * 100.0 / COUNT(*), 1) AS mortalidade_global
FROM episodes e
INNER JOIN ccs c ON c.icd_versao = e.icd_versao AND c.codigo = e.d1
WHERE c.ccs_cat = 233
  AND e.tipo_port_apr31 = 'Int'

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