Transição de Género no SNS: Diagnósticos, Cirurgias e Percurso Temporal (2007–2024)
por Pedro Almeida Vieira
Entre 2007 e 2024, o SNS registou 719 utentes únicos com diagnóstico de perturbação de identidade de género ou transexualismo, dos quais 253 foram submetidos a pelo menos uma intervenção cirúrgica de reatribuição de sexo. O número de novos casos cresceu quase dez vezes entre 2007–2016 e 2021–2024.
Contexto e alcance da análise
Este estudo analisa a totalidade dos episódios hospitalares do SNS com diagnóstico de identidade de género ou transexualismo registado, entre 2007 e 2024, com base na BDMH/ACSS.
Diagnósticos âncora: ICD-9: 30250–30253 (transexualismo), 30285 (adolescentes/adultos), 3026 (criança); ICD-10: F640 (transexualidade), F641 (travestismo bivalente), F642 (infância), F648, F649.
O período inicia em 2007 por ser o ano a partir do qual o ambulatório cirúrgico entra na base e os identificadores de utente ficam suficientemente fiáveis para análises longitudinais.
Nota metodológica crítica: o campo «sexo» na BDMH
O campo sexo regista o sexo/género legal no momento do episódio, não o sexo de nascimento. A Lei n.º 38/2018 (autodeterminação de género) permite a alteração do registo civil sem necessidade de cirurgia. Por isso, utentes com sexo masculino registado podem fazer histerectomia (já tinham alterado o registo civil), e utentes com sexo feminino podem fazer penectomia. Não é possível determinar o sexo de nascimento a partir da BDMH. A direcção da transição (M→F ou F→M) é inferida, quando aplicável, a partir do tipo de procedimento cirúrgico.
1. Evolução temporal: novos utentes e episódios anuais
Conta o ano de primeira entrada de cada utente. A queda em 2020 reflecte o impacto da pandemia COVID-19.
| Ano | Total episódios | Internamento | Ambulatório | Utentes activos | Novos total | Novos M | Novos F |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2007 | 21 | 20 | 1 | 16 | 16 | 7 | 9 |
| 2008 | 95 | 77 | 18 | 37 | 24 | 14 | 10 |
| 2009 | 7 | 7 | 0 | 7 | 7 | 5 | 2 |
| 2010 | 6 | 6 | 0 | 4 | 3 | 2 | 1 |
| 2011 | 15 | 14 | 1 | 12 | 10 | 6 | 4 |
| 2012 | 21 | 20 | 1 | 19 | 17 | 14 | 3 |
| 2013 | 42 | 37 | 5 | 27 | 18 | 6 | 12 |
| 2014 | 37 | 37 | 0 | 28 | 21 | 12 | 9 |
| 2015 | 36 | 35 | 1 | 29 | 22 | 11 | 11 |
| 2016 | 45 | 43 | 2 | 39 | 23 | 12 | 11 |
| 2017 | 75 | 74 | 1 | 63 | 51 | 30 | 21 |
| 2018 | 61 | 59 | 2 | 50 | 33 | 22 | 11 |
| 2019 | 94 | 92 | 2 | 67 | 42 | 23 | 19 |
| 2020 | 60 | 59 | 1 | 44 | 28 | 15 | 13 |
| 2021 | 110 | 108 | 2 | 100 | 73 | 30 | 43 |
| 2022 | 160 | 155 | 5 | 141 | 107 | 70 | 37 |
| 2023 | 205 | 194 | 11 | 163 | 135 | 67 | 68 |
| 2024 | 205 | 189 | 16 | 172 | 135 | 77 | 58 |
Quebra de série em 2013 (redefinição de internamento) e 2020 (COVID-19).
Três fases distintas
2007–2016 — fase estável: média de 14 novos utentes/ano.
2017–2020 — primeira aceleração: média de 39/ano. Em 2017 entram 51 novos — o dobro do ano anterior. Coincide com a discussão e aprovação da Lei n.º 38/2018.
2021–2024 — aceleração marcada: 130–135 novos/ano. Em 2021, pela primeira vez as raparigas representam a maioria dos novos casos femininos jovens (43 F vs. 30 M). O crescimento é especialmente expressivo nos menores.
2. Perfil dos utentes: idade e sexo
| Faixa etária | Total | Sexo M | Sexo F | Mín. | Máx. | Média | Mediana |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 12–14 | 32 | 4 | 28 | 12 | 14 | 13,6 | 14 |
| 15–17 | 56 | 13 | 43 | 15 | 17 | 16,1 | 16 |
| 18–24 | 230 | 150 | 80 | 18 | 24 | 21,3 | 21 |
| 25–34 | 226 | 148 | 78 | 25 | 34 | 28,5 | 28 |
| 35–44 | 88 | 44 | 44 | 35 | 44 | 39,1 | 39 |
| 45–54 | 47 | 17 | 30 | 45 | 54 | 48,4 | 49 |
| 55+ | 40 | 16 | 24 | 55 | 91 | 68 | 66,5 |
Faixa 0–11 suprimida (<5 casos). Nos menores, a proporção F:M é de 4:1. Nas faixas 45+ as mulheres são maioria, predominando diagnósticos F641/F649 sem percurso cirúrgico.
3. Módulo especial: menores de 18 anos
Anos sem novos menores omitidos. O crescimento de 2021 em diante é muito marcado, com predominância feminina.
| Faixa | Sexo M | Sexo F | Total | 1.º ano | Últ. ano |
|---|---|---|---|---|---|
| 12–14 | <5 | 28 | 32 | 2008 | 2024 |
| 15–17 | 13 | 43 | 56 | 2009 | 2024 |
Faixa 0–11 suprimida (<5 casos). Nenhum menor foi submetido a qualquer cirurgia de reatribuição de sexo no SNS.
Dados críticos sobre os menores:
- 88 menores (12,2% do total) — exclusivamente com episódios de diagnóstico e acompanhamento, nunca cirurgia.
- Crescimento muito acelerado: de 2–3/ano antes de 2020 para 13–24/ano em 2021–2023.
- Desequilíbrio de género marcante: ratio F:M de 4,2:1 (71 F vs. 17 M), consistente com o padrão observado noutros países europeus a partir de 2015–2016.
- 73 dos 131 utentes com tentativa de suicídio eram menores — ver secção 6.
4. Intervenções cirúrgicas: quem, quantas e que tipo
| Tipo de cirurgia | Utentes | Episódios | Sexo M reg. | Sexo F reg. | Idade mín. | Idade máx. | Média | Mediana |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Histerectomia | 140 | 140 | 125 | 16 | 18 | 60 | 27,9 | 27 |
| Penectomia | 39 | 39 | 4 | 32 | 20 | 69 | 36,3 | 35 |
| Mastectomia subcutânea | 39 | 39 | 37 | 12 | 18 | 47 | 27,6 | 25 |
| Faloplastia | 25 | 53 | 20 | 7 | 21 | 60 | 34,2 | 31 |
| Vaginoplastia | 17 | 25 | 4 | 16 | 20 | 50 | 32,5 | 30 |
| Implante mamário | 6 | 6 | 6 | 1 | 19 | 41 | 25,2 | 22,5 |
| Orquiectomia | 4 | 4 | 3 | 2 | 22 | 40 | 28,3 | 25,5 |
Apenas cirurgias com diagnóstico âncora confirmado no mesmo episódio. Sexo registado no momento do episódio, não o sexo de nascimento. A faloplastia tem 53 episódios para 25 utentes por ser realizada em múltiplos tempos cirúrgicos. Nenhum menor operado.
| N.º de intervenções | Utentes | % do total operado |
|---|---|---|
| 1 | 215 | 85 |
| 2 | 25 | 9,9 |
| 3 | 6 | 2,4 |
| 4 | 4 | 1,6 |
| 5 | 0 | 0 |
| 6 | 2 | 0,8 |
| 7 | 1 | 0,4 |
| 8 ou mais | 0 | 0 |
1 intervenção = 1 episódio com pelo menos um procedimento cirúrgico relevante. O utente com 7 internamentos é um caso de faloplastia faseada.
Notas clínicas sobre os procedimentos
Histerectomia (140 utentes, mediana 27 anos): o mais frequente, habitualmente primeiro passo da transição F→M. Não implica necessariamente outros procedimentos.
Penectomia (39 utentes, mediana 35 anos): a mais tardia de todas. 32 dos 39 utentes têm sexo feminino registado — reflexo da alteração prévia do registo civil.
Mastectomia subcutânea (39 utentes, mediana 25 anos): a mais precoce, frequentemente realizada sem outros procedimentos genitais («top surgery»).
Faloplastia (25 utentes, 53 episódios, mediana 31 anos): a operação mais complexa. Média de 2,1 internamentos por utente, incluindo uretroplastia, implante eréctil e revisões.
Vaginoplastia (17 utentes, 25 episódios, mediana 30 anos): também realizada em fases.
Orquiectomia (4 casos isolados): em ICD-10, frequentemente codificada dentro do mesmo episódio que a vaginoplastia ou penectomia.
5. Percurso temporal: do diagnóstico à última cirurgia
Direcção inferida e duração do percurso cirúrgico
| Direcção | Utentes com cirurgia | Só 1 intervenção | 2+ intervenções | Média interv. | Mediana anos percurso cir. | Média anos percurso | Máx. observado |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| F→M (inferido) | 180 | 155 | 25 | 1,3 | 1,4 | 3 | 11,8 |
| M→F (inferido) | 58 | 52 | 6 | 1,1 | 2,7 | 2,6 | 5,3 |
| Misto/indet. | 4 | 0 | 4 | 2,5 | 2,6 | 3,7 | 8,9 |
Percurso cirúrgico = tempo da 1.ª à última cirurgia. Calculado apenas para utentes com 2+ intervenções. Direcção inferida pelo tipo de procedimento, não pelo sexo registado.
Sequências típicas observadas
F→M — sequências mais frequentes:
Mastectomia subcutânea → Histerectomia(8 casos) — intervalo mediano de 1,4 anosMastectomia subcutânea → Faloplastia— intervalo de ~6 anos entre as duasHisterectomia → Faloplastia— 1 a 1,5 anos- Faloplastia em múltiplos tempos — caso extremo: 7 internamentos em 10 meses
M→F — sequências observadas:
Penectomia → Vaginoplastia— 0,1 a 4,1 anos de intervaloVaginoplastia → Vaginoplastia(revisão) — 1,2 a 4,6 anosOrquiectomia → Vaginoplastia— ~0,3 anos
Tempo entre primeiro diagnóstico no SNS e primeira cirurgia
| Direcção | N.º utentes | Mediana (anos) | Média (anos) | P25 (anos) | P75 (anos) | Máx. (anos) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| F→M | 52 | 1,3 | 2,1 | 0,3 | 2,5 | 9,5 |
| M→F | 18 | 0,8 | 1,6 | 0,3 | 1,1 | 7,8 |
Apenas utentes em que o primeiro diagnóstico no SNS é anterior à primeira cirurgia (exclui casos em que cirurgia e diagnóstico são simultâneos no mesmo episódio).
A hormonoterapia pré-cirúrgica — invisível na BDMH
⚠️ A hormonoterapia de afirmação de género (estrogénios M→F; testosterona F→M) é administrada maioritariamente em consulta externa ambulatória ou centros de saúde — não está sistematicamente captada na BDMH.
Apenas 53 utentes (7,4%) têm registo hospitalar de administração de hormona, e desses, apenas 1 fez a hormonoterapia registada antes da cirurgia. Os restantes apresentam registos pós-cirúrgicos de manutenção hormonal.
O processo real começa tipicamente 1–2 anos antes da primeira cirurgia, com avaliação psicológica/psiquiátrica (6–12 meses) seguida de hormonoterapia obrigatória (12–24 meses). O quadro abaixo resume o que os protocolos internacionais (WPATH Standards of Care) indicam, por contraste com o que a BDMH capta:
| Fase | Duração típica (WPATH) | Captado na BDMH? |
|---|---|---|
| Avaliação psicológica/psiquiátrica | 6–12 meses | Parcialmente (internamentos psiquiátricos) |
| Hormonoterapia pré-cirúrgica | 12–24 meses | Não (consulta externa/CSP) |
| Cirurgia 1.ª linha (mastectomia / histerectomia / penectomia) | Episódio único | Sim |
| Cirurgia genital complexa (faloplastia / vaginoplastia) | 2–5 anos, múltiplos tempos | Sim (múltiplos episódios) |
| Hormonoterapia de manutenção (vitalícia) | Indefinida | Raramente |
| Total do processo (avaliação → última cirurgia) | 3–7 anos | 1–3 anos (visíveis no SNS) |
O tempo visível na BDMH (mediana 1,3 anos F→M; 0,8 anos M→F entre 1.º diagnóstico e 1.ª cirurgia) é substancialmente inferior ao processo real, porque a fase pré-cirúrgica de avaliação e hormonoterapia decorre fora do hospital.
6. Hospitais: concentração cirúrgica e rede de acompanhamento
| Hospital | Histerect. | Penect. | Mastect. subcut. | Faloplastia | Vaginoplastia | Implante | Orquiect. | Total |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| ULS de Coimbra | 77 | 35 | 18 | 9 | 14 | 5 | 1 | 159 |
| ULS de São João (Porto) | 20 | 4 | 7 | 4 | 2 | 1 | 0 | 38 |
| ULS de Santa Maria (Lisboa) | 11 | 0 | 7 | 14 | 2 | 0 | 3 | 37 |
| ULS de Gaia / Espinho | 13 | 0 | 6 | 0 | 0 | 0 | 0 | 19 |
| ULS de Santo António (Porto) | 14 | 0 | 0 | 0 | 0 | 0 | 0 | 14 |
| ULS do Alto Minho | 3 | 0 | 0 | 0 | 0 | 0 | 0 | 3 |
| Outros | 2 | 0 | 1 | 1 | 1 | 1 | 0 | 6 |
Coimbra agrega dois registos na base (com e sem caracteres especiais no nome). Santa Maria destaca-se como 2.º centro para faloplastia (14 vs. 9 em Coimbra).
| Distrito | Utentes | % total |
|---|---|---|
| Lisboa | 204 | 28,4 |
| Porto | 165 | 22,9 |
| Setúbal | 75 | 10,4 |
| Aveiro | 48 | 6,7 |
| Coimbra | 40 | 5,6 |
| Braga | 35 | 4,9 |
| Faro | 26 | 3,6 |
| Leiria | 26 | 3,6 |
| Santarém | 21 | 2,9 |
| Viseu | 13 | 1,8 |
| Beja | 10 | 1,4 |
| Outros (incl. ilhas) | 56 | 7,8 |
Distrito de residência no primeiro episódio. O fluxo Lisboa/Setúbal → Coimbra para cirurgia é o mais expressivo do país.
Coimbra concentra 55,5% de todas as cirurgias e é o único hospital que realiza todos os tipos de procedimento. A ULS de Santa Maria é o segundo centro especializado para faloplastia. Para acompanhamento sem cirurgia, a rede é mais dispersa, com São José (94 utentes), Santa Maria (78) e São João (68) a terem papel relevante.
7. Síntese dos principais achados
- 719 utentes únicos com diagnóstico de identidade de género / transexualismo no SNS (2007–2024). 253 (35%) operados. 466+ apenas com diagnóstico e acompanhamento.
- Crescimento ~9× em duas décadas: de 14/ano (2007–2016) para 130/ano (2023–2024). Aceleração especialmente marcada nos menores após 2021.
- Nos menores, nenhum foi operado. Mas 73 dos 131 utentes com tentativa de suicídio são menores, quase todos raparigas.
- Faloplastia é a cirurgia mais complexa: 28% de complicações, múltiplos tempos cirúrgicos (mediana 2 internamentos). O percurso cirúrgico F→M com faloplastia pode durar até ~12 anos.
- A hormonoterapia pré-cirúrgica é invisível na BDMH. O processo real (avaliação + hormonoterapia + cirurgia) dura tipicamente 3–7 anos; no SNS são visíveis apenas os 1–3 anos do percurso cirúrgico.
- Coimbra é o centro de referência nacional inequívoco (55,5% das cirurgias, todos os tipos).
Metodologia
Fonte: BDMH/ACSS, episódios de internamento e cirurgia de ambulatório do SNS, 2007–2024.
Universo: Utentes com diagnóstico âncora em qualquer posição (d1–d10): ICD-9 30250, 30251, 30252, 30253, 30285, 3026; ICD-10 F640, F641, F642, F648, F649. Excluídos IDs sentinela e episódios sem n_ficticio_utente.
Cirurgias confirmadas: Apenas episódios em que o diagnóstico âncora consta no mesmo episódio que o procedimento. Procedimentos mapeados: vaginoplastia (ICD-9: 7061–7064; ICD-10: 0U9G%, 0UQG%, 0UUG%); orquiectomia (ICD-9: 6241–6242; ICD-10: 0VBC%, 0VB9%, 0VBB%); penectomia (ICD-9: 643; ICD-10: 0VTS%); mastectomia subcutânea (ICD-9: 8533–8536; ICD-10: 0HBT%, 0HBU%, 0HBV%); faloplastia (ICD-9: 6443–6444; ICD-10: 0VUS%); histerectomia (ICD-9: 6851, 6859, 6871, 6879; ICD-10: 0UT9%); implante mamário (ICD-9: 8532–8533; ICD-10: 0HHT%, 0HHU%, 0HHV%).
Tentativas de suicídio: Identificadas via CCS «Suicide and intentional self-inflicted injury» em qualquer posição diagnóstica, cruzando com a data da primeira cirurgia de cada utente.
Complicações: Readmissão com ICD-10 T81x, T83x, N99x, T88x ou ICD-9 996x, 997x, 998x nos 730 dias seguintes à cirurgia confirmada.
Percurso temporal: Calculado entre datas de episódios. A hormonoterapia pré-cirúrgica não é captada sistematicamente na BDMH (consulta externa/CSP fora do âmbito).
Sexo: Género legal no momento do episódio, não sexo de nascimento. Direcção da transição inferida pelo tipo de procedimento.
Quebras de série: 2013 (redefinição de internamento) e 2020 (COVID-19).
Nomenclatura hospitalar: Estrutura ULS de 2024–2025, aplicada retroactivamente.