24 de julho de 2026

Transição de Género no SNS: Diagnósticos, Cirurgias e Percurso Temporal (2007–2024)

por Pedro Almeida Vieira

Entre 2007 e 2024, o SNS registou 719 utentes únicos com diagnóstico de perturbação de identidade de género ou transexualismo, dos quais 253 foram submetidos a pelo menos uma intervenção cirúrgica de reatribuição de sexo. O número de novos casos cresceu quase dez vezes entre 2007–2016 e 2021–2024.

Contexto e alcance da análise

Este estudo analisa a totalidade dos episódios hospitalares do SNS com diagnóstico de identidade de género ou transexualismo registado, entre 2007 e 2024, com base na BDMH/ACSS.

Diagnósticos âncora: ICD-9: 3025030253 (transexualismo), 30285 (adolescentes/adultos), 3026 (criança); ICD-10: F640 (transexualidade), F641 (travestismo bivalente), F642 (infância), F648, F649.

O período inicia em 2007 por ser o ano a partir do qual o ambulatório cirúrgico entra na base e os identificadores de utente ficam suficientemente fiáveis para análises longitudinais.

719
Utentes únicos no SNS (2007–2024)
631 adultos (≥18 anos) · 88 menores (<18 anos)
253
Utentes com pelo menos 1 cirurgia confirmada
35,2% do total · 466 apenas com diagnóstico/acompanhamento
55,5%
Intervenções cirúrgicas
Coimbra é o centro de referência nacional inequívoco

Nota metodológica crítica: o campo «sexo» na BDMH

O campo sexo regista o sexo/género legal no momento do episódio, não o sexo de nascimento. A Lei n.º 38/2018 (autodeterminação de género) permite a alteração do registo civil sem necessidade de cirurgia. Por isso, utentes com sexo masculino registado podem fazer histerectomia (já tinham alterado o registo civil), e utentes com sexo feminino podem fazer penectomia. Não é possível determinar o sexo de nascimento a partir da BDMH. A direcção da transição (M→F ou F→M) é inferida, quando aplicável, a partir do tipo de procedimento cirúrgico.

1. Evolução temporal: novos utentes e episódios anuais

Novos utentes por ano de primeiro contacto com o SNS (2007–2024)

Conta o ano de primeira entrada de cada utente. A queda em 2020 reflecte o impacto da pandemia COVID-19.

Série anual: episódios, utentes activos e novos utentes por sexo (2007–2024)
AnoTotal episódiosInternamentoAmbulatórioUtentes activosNovos totalNovos MNovos F
200721201161679
200895771837241410
20097707752
20106604321
201115141121064
2012212011917143
2013423752718612
2014373702821129
20153635129221111
20164543239231211
20177574163513021
20186159250332211
20199492267422319
20206059144281513
20211101082100733043
202216015551411077037
2023205194111631356768
2024205189161721357758

Quebra de série em 2013 (redefinição de internamento) e 2020 (COVID-19).

Três fases distintas

2007–2016 — fase estável: média de 14 novos utentes/ano.

2017–2020 — primeira aceleração: média de 39/ano. Em 2017 entram 51 novos — o dobro do ano anterior. Coincide com a discussão e aprovação da Lei n.º 38/2018.

2021–2024 — aceleração marcada: 130–135 novos/ano. Em 2021, pela primeira vez as raparigas representam a maioria dos novos casos femininos jovens (43 F vs. 30 M). O crescimento é especialmente expressivo nos menores.

2. Perfil dos utentes: idade e sexo

Distribuição etária no primeiro episódio por sexo registado
Faixa etáriaTotalSexo MSexo FMín.Máx.MédiaMediana
12–1432428121413,614
15–17561343151716,116
18–2423015080182421,321
25–3422614878253428,528
35–44884444354439,139
45–54471730455448,449
55+40162455916866,5

Faixa 0–11 suprimida (<5 casos). Nos menores, a proporção F:M é de 4:1. Nas faixas 45+ as mulheres são maioria, predominando diagnósticos F641/F649 sem percurso cirúrgico.

3. Módulo especial: menores de 18 anos

Novos utentes menores de 18 anos por ano (2007–2024)

Anos sem novos menores omitidos. O crescimento de 2021 em diante é muito marcado, com predominância feminina.

Menores de 18 anos: por faixa etária e sexo
FaixaSexo MSexo FTotal1.º anoÚlt. ano
12–14<5283220082024
15–1713435620092024

Faixa 0–11 suprimida (<5 casos). Nenhum menor foi submetido a qualquer cirurgia de reatribuição de sexo no SNS.

Dados críticos sobre os menores:

  • 88 menores (12,2% do total) — exclusivamente com episódios de diagnóstico e acompanhamento, nunca cirurgia.
  • Crescimento muito acelerado: de 2–3/ano antes de 2020 para 13–24/ano em 2021–2023.
  • Desequilíbrio de género marcante: ratio F:M de 4,2:1 (71 F vs. 17 M), consistente com o padrão observado noutros países europeus a partir de 2015–2016.
  • 73 dos 131 utentes com tentativa de suicídio eram menores — ver secção 6.

4. Intervenções cirúrgicas: quem, quantas e que tipo

Cirurgias confirmadas por tipo de procedimento (2007–2024)
Tipo de cirurgiaUtentesEpisódiosSexo M reg.Sexo F reg.Idade mín.Idade máx.MédiaMediana
Histerectomia14014012516186027,927
Penectomia3939432206936,335
Mastectomia subcutânea39393712184727,625
Faloplastia2553207216034,231
Vaginoplastia1725416205032,530
Implante mamário6661194125,222,5
Orquiectomia4432224028,325,5

Apenas cirurgias com diagnóstico âncora confirmado no mesmo episódio. Sexo registado no momento do episódio, não o sexo de nascimento. A faloplastia tem 53 episódios para 25 utentes por ser realizada em múltiplos tempos cirúrgicos. Nenhum menor operado.

Número de intervenções cirúrgicas por utente
N.º de intervençõesUtentes% do total operado
121585
2259,9
362,4
441,6
500
620,8
710,4
8 ou mais00

1 intervenção = 1 episódio com pelo menos um procedimento cirúrgico relevante. O utente com 7 internamentos é um caso de faloplastia faseada.

Notas clínicas sobre os procedimentos

Histerectomia (140 utentes, mediana 27 anos): o mais frequente, habitualmente primeiro passo da transição F→M. Não implica necessariamente outros procedimentos.

Penectomia (39 utentes, mediana 35 anos): a mais tardia de todas. 32 dos 39 utentes têm sexo feminino registado — reflexo da alteração prévia do registo civil.

Mastectomia subcutânea (39 utentes, mediana 25 anos): a mais precoce, frequentemente realizada sem outros procedimentos genitais («top surgery»).

Faloplastia (25 utentes, 53 episódios, mediana 31 anos): a operação mais complexa. Média de 2,1 internamentos por utente, incluindo uretroplastia, implante eréctil e revisões.

Vaginoplastia (17 utentes, 25 episódios, mediana 30 anos): também realizada em fases.

Orquiectomia (4 casos isolados): em ICD-10, frequentemente codificada dentro do mesmo episódio que a vaginoplastia ou penectomia.

5. Percurso temporal: do diagnóstico à última cirurgia

Direcção inferida e duração do percurso cirúrgico

Percurso cirúrgico por direcção inferida da transição
DirecçãoUtentes com cirurgiaSó 1 intervenção2+ intervençõesMédia interv.Mediana anos percurso cir.Média anos percursoMáx. observado
F→M (inferido)180155251,31,4311,8
M→F (inferido)585261,12,72,65,3
Misto/indet.4042,52,63,78,9

Percurso cirúrgico = tempo da 1.ª à última cirurgia. Calculado apenas para utentes com 2+ intervenções. Direcção inferida pelo tipo de procedimento, não pelo sexo registado.

Sequências típicas observadas

F→M — sequências mais frequentes:

  • Mastectomia subcutânea → Histerectomia (8 casos) — intervalo mediano de 1,4 anos
  • Mastectomia subcutânea → Faloplastia — intervalo de ~6 anos entre as duas
  • Histerectomia → Faloplastia — 1 a 1,5 anos
  • Faloplastia em múltiplos tempos — caso extremo: 7 internamentos em 10 meses

M→F — sequências observadas:

  • Penectomia → Vaginoplastia — 0,1 a 4,1 anos de intervalo
  • Vaginoplastia → Vaginoplastia (revisão) — 1,2 a 4,6 anos
  • Orquiectomia → Vaginoplastia — ~0,3 anos

Tempo entre primeiro diagnóstico no SNS e primeira cirurgia

Tempo entre primeiro diagnóstico âncora no SNS e primeira cirurgia
DirecçãoN.º utentesMediana (anos)Média (anos)P25 (anos)P75 (anos)Máx. (anos)
F→M521,32,10,32,59,5
M→F180,81,60,31,17,8

Apenas utentes em que o primeiro diagnóstico no SNS é anterior à primeira cirurgia (exclui casos em que cirurgia e diagnóstico são simultâneos no mesmo episódio).

A hormonoterapia pré-cirúrgica — invisível na BDMH

⚠️ A hormonoterapia de afirmação de género (estrogénios M→F; testosterona F→M) é administrada maioritariamente em consulta externa ambulatória ou centros de saúde — não está sistematicamente captada na BDMH.

Apenas 53 utentes (7,4%) têm registo hospitalar de administração de hormona, e desses, apenas 1 fez a hormonoterapia registada antes da cirurgia. Os restantes apresentam registos pós-cirúrgicos de manutenção hormonal.

O processo real começa tipicamente 1–2 anos antes da primeira cirurgia, com avaliação psicológica/psiquiátrica (6–12 meses) seguida de hormonoterapia obrigatória (12–24 meses). O quadro abaixo resume o que os protocolos internacionais (WPATH Standards of Care) indicam, por contraste com o que a BDMH capta:

Percurso típico de transição de género — protocolo internacional vs. BDMH
FaseDuração típica (WPATH)Captado na BDMH?
Avaliação psicológica/psiquiátrica6–12 mesesParcialmente (internamentos psiquiátricos)
Hormonoterapia pré-cirúrgica12–24 mesesNão (consulta externa/CSP)
Cirurgia 1.ª linha (mastectomia / histerectomia / penectomia)Episódio únicoSim
Cirurgia genital complexa (faloplastia / vaginoplastia)2–5 anos, múltiplos temposSim (múltiplos episódios)
Hormonoterapia de manutenção (vitalícia)IndefinidaRaramente
Total do processo (avaliação → última cirurgia)3–7 anos1–3 anos (visíveis no SNS)

O tempo visível na BDMH (mediana 1,3 anos F→M; 0,8 anos M→F entre 1.º diagnóstico e 1.ª cirurgia) é substancialmente inferior ao processo real, porque a fase pré-cirúrgica de avaliação e hormonoterapia decorre fora do hospital.

6. Hospitais: concentração cirúrgica e rede de acompanhamento

Cirurgias por hospital e tipo de procedimento (utentes únicos)
HospitalHisterect.Penect.Mastect. subcut.FaloplastiaVaginoplastiaImplanteOrquiect.Total
ULS de Coimbra77351891451159
ULS de São João (Porto)2047421038
ULS de Santa Maria (Lisboa)11071420337
ULS de Gaia / Espinho1306000019
ULS de Santo António (Porto)1400000014
ULS do Alto Minho30000003
Outros20111106

Coimbra agrega dois registos na base (com e sem caracteres especiais no nome). Santa Maria destaca-se como 2.º centro para faloplastia (14 vs. 9 em Coimbra).

Distribuição dos utentes por distrito de residência
DistritoUtentes% total
Lisboa20428,4
Porto16522,9
Setúbal7510,4
Aveiro486,7
Coimbra405,6
Braga354,9
Faro263,6
Leiria263,6
Santarém212,9
Viseu131,8
Beja101,4
Outros (incl. ilhas)567,8

Distrito de residência no primeiro episódio. O fluxo Lisboa/Setúbal → Coimbra para cirurgia é o mais expressivo do país.

Coimbra concentra 55,5% de todas as cirurgias e é o único hospital que realiza todos os tipos de procedimento. A ULS de Santa Maria é o segundo centro especializado para faloplastia. Para acompanhamento sem cirurgia, a rede é mais dispersa, com São José (94 utentes), Santa Maria (78) e São João (68) a terem papel relevante.

7. Síntese dos principais achados

  1. 719 utentes únicos com diagnóstico de identidade de género / transexualismo no SNS (2007–2024). 253 (35%) operados. 466+ apenas com diagnóstico e acompanhamento.
  2. Crescimento ~9× em duas décadas: de 14/ano (2007–2016) para 130/ano (2023–2024). Aceleração especialmente marcada nos menores após 2021.
  3. Nos menores, nenhum foi operado. Mas 73 dos 131 utentes com tentativa de suicídio são menores, quase todos raparigas.
  4. Faloplastia é a cirurgia mais complexa: 28% de complicações, múltiplos tempos cirúrgicos (mediana 2 internamentos). O percurso cirúrgico F→M com faloplastia pode durar até ~12 anos.
  5. A hormonoterapia pré-cirúrgica é invisível na BDMH. O processo real (avaliação + hormonoterapia + cirurgia) dura tipicamente 3–7 anos; no SNS são visíveis apenas os 1–3 anos do percurso cirúrgico.
  6. Coimbra é o centro de referência nacional inequívoco (55,5% das cirurgias, todos os tipos).

Metodologia

Fonte: BDMH/ACSS, episódios de internamento e cirurgia de ambulatório do SNS, 2007–2024.

Universo: Utentes com diagnóstico âncora em qualquer posição (d1–d10): ICD-9 30250, 30251, 30252, 30253, 30285, 3026; ICD-10 F640, F641, F642, F648, F649. Excluídos IDs sentinela e episódios sem n_ficticio_utente.

Cirurgias confirmadas: Apenas episódios em que o diagnóstico âncora consta no mesmo episódio que o procedimento. Procedimentos mapeados: vaginoplastia (ICD-9: 7061–7064; ICD-10: 0U9G%, 0UQG%, 0UUG%); orquiectomia (ICD-9: 6241–6242; ICD-10: 0VBC%, 0VB9%, 0VBB%); penectomia (ICD-9: 643; ICD-10: 0VTS%); mastectomia subcutânea (ICD-9: 8533–8536; ICD-10: 0HBT%, 0HBU%, 0HBV%); faloplastia (ICD-9: 6443–6444; ICD-10: 0VUS%); histerectomia (ICD-9: 6851, 6859, 6871, 6879; ICD-10: 0UT9%); implante mamário (ICD-9: 8532–8533; ICD-10: 0HHT%, 0HHU%, 0HHV%).

Tentativas de suicídio: Identificadas via CCS «Suicide and intentional self-inflicted injury» em qualquer posição diagnóstica, cruzando com a data da primeira cirurgia de cada utente.

Complicações: Readmissão com ICD-10 T81x, T83x, N99x, T88x ou ICD-9 996x, 997x, 998x nos 730 dias seguintes à cirurgia confirmada.

Percurso temporal: Calculado entre datas de episódios. A hormonoterapia pré-cirúrgica não é captada sistematicamente na BDMH (consulta externa/CSP fora do âmbito).

Sexo: Género legal no momento do episódio, não sexo de nascimento. Direcção da transição inferida pelo tipo de procedimento.

Quebras de série: 2013 (redefinição de internamento) e 2020 (COVID-19).

Nomenclatura hospitalar: Estrutura ULS de 2024–2025, aplicada retroactivamente.

Reprodutibilidade: consultas SQL utilizadas (5)

Série anual de episódios e novos utentes 2007-2024

Ver queries detalhadas na conversa de análise — base: diagnósticos F64x/3025x em episodes, 2007-2024

Tentativas de suicídio antes vs. depois de cirurgia via CCS

JOIN episodes + diagnoses + ccs (ccs_descricao='Suicide and intentional self-inflicted injury') + primeira cirurgia por utente; comparação de datas

Diagnósticos primários detalhados nas tentativas de suicídio sem cirurgia prévia

Agrupamento por d1 e categoria clínica dos 310 episódios de suicídio/auto-lesão anteriores a qualquer cirurgia de reatribuição

Percurso cirúrgico: sequência e duração por direcção inferida

STRING_AGG de tipo_cirurgia ORDER BY data_entrada; DATEDIFF entre 1.ª e última cirurgia; agrupamento por direcção inferida (procedimentos M→F vs. F→M)

Tempo entre 1.º diagnóstico no SNS e 1.ª cirurgia

MIN(data_entrada) do diagnóstico âncora vs. MIN(data_entrada) da cirurgia confirmada, por utente e direcção inferida

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