Tétano nos hospitais do SNS — Internamentos 2000–2024
por Pedro Almeida Vieira
Entre 2000 e 2024, os hospitais do SNS registaram 188 internamentos com tétano como diagnóstico principal, com uma trajectória de erradicação progressiva: de 25–29 casos/ano no início da série para zero em 2020, 2022, 2023 e 2024. A doença afecta quase exclusivamente idosos — sobretudo mulheres com mais de 60 anos sem vacinação completa — e impõe internamentos extremamente prolongados em UCI, com ventilação mecânica e traqueostomia na maioria dos casos graves.
Contexto
O tétano é uma doença infecciosa aguda causada pela toxina do Clostridium tetani, bacilo ubíquo no solo, cuja porta de entrada habitual são feridas — frequentemente minor, por contacto com terra, ferramentas ou objectos perfurantes. A doença não confere imunidade natural; a protecção é exclusivamente vacinal. Em Portugal, a vacinação universal foi introduzida no Plano Nacional de Vacinação (PNV) em 1965, mas a cobertura das gerações mais velhas — em especial mulheres nascidas antes dessa data — permanece lacunar. O tétano é de declaração obrigatória e figura na lista de doenças de eliminação da OMS para a Região Europeia.
Evolução anual dos internamentos (2000–2024)
A série revela uma tendência inequívoca de eliminação progressiva. O período 2000–2008 concentra 74% de todos os internamentos (139 casos). A partir de 2009 a incidência hospitalar colapsa para valores residuais (1–7 casos/ano), com quatro anos consecutivos de zero casos entre 2020 e 2024. O pequeno ressalto de 2018 (5 casos) não inverteu a tendência.
A taxa de letalidade oscila amplamente nos anos com poucos casos — basta um óbito em cinco internamentos para produzir 20% —, mas é clinicamente plausível: o tétano generalizado é uma emergência médica grave com mortalidade conhecida de 10–30% mesmo em contexto de cuidados intensivos.
Fonte: BDMH/ACSS. Internamentos SNS, diagnóstico principal ICD-9: 037/7713; ICD-10: A33/A34/A35.
| Ano | Internamentos | Óbitos | Letalidade (%) | Demora média (dias) | Demora mediana (dias) | Admissões urgentes |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2000 | 25 | 4 | 16 | 37,2 | 39 | 25 |
| 2001 | 29 | 1 | 3,45 | 25,2 | 26 | 28 |
| 2002 | 17 | 1 | 5,88 | 43,5 | 38 | 16 |
| 2003 | 27 | 4 | 14,81 | 39,7 | 33 | 27 |
| 2004 | 12 | 1 | 8,33 | 55,6 | 53,5 | 11 |
| 2005 | 12 | 1 | 8,33 | 32,1 | 23,5 | 12 |
| 2006 | 10 | 0 | 0 | 52,1 | 66,5 | 10 |
| 2007 | 14 | 3 | 21,43 | 39,5 | 36 | 14 |
| 2008 | 8 | 0 | 0 | 47 | 44,5 | 8 |
| 2009 | 5 | 3 | 60 | 21,8 | 14 | 4 |
| 2010 | 7 | 2 | 28,57 | 62 | 58 | 7 |
| 2011 | 3 | 1 | 33,33 | 57,7 | 47 | 3 |
| 2012 | 4 | 1 | 25 | 53,8 | 50 | 4 |
| 2013 | 2 | 0 | 0 | 63 | 63 | 2 |
| 2014 | 2 | 0 | 0 | 42 | 42 | 2 |
| 2015 | 1 | 0 | 0 | 65 | 65 | 1 |
| 2016 | 1 | 0 | 0 | 13 | 13 | 1 |
| 2017 | 1 | 0 | 0 | 36 | 36 | 1 |
| 2018 | 5 | 0 | 0 | 66,8 | 79 | 5 |
| 2019 | 1 | 0 | 0 | 13 | 13 | 1 |
| 2020 | 0 | 0 | 0 | |||
| 2021 | 1 | 0 | 0 | 79 | 79 | 1 |
| 2022 | 0 | 0 | 0 | |||
| 2023 | 0 | 0 | 0 | |||
| 2024 | 0 | 0 | 0 |
Letalidade instável nos anos com n < 10 — interpretar com cautela.
Perfil dos doentes — sexo e grupo etário (série completa)
O tétano hospitalar em Portugal é, acima de tudo, uma doença de mulheres idosas não vacinadas. Das 187 pessoas internadas com diagnóstico não neonatal, 63% são do sexo feminino. Esta proporção inverte o que seria esperado numa doença associada a trabalho agrícola e exposição ao solo — classicamente mais prevalente em homens —, mas reflecte uma assimetria histórica na cobertura vacinal: a vacinação masculina foi impulsionada pelo serviço militar obrigatório a partir de meados do século XX, ao passo que muitas mulheres rurais nascidas antes de 1965 nunca completaram a série primária.
Os grupos etários mais velhos concentram a esmagadora maioria dos casos e a totalidade da mortalidade: 95% dos óbitos (21 em 22) ocorreram em doentes com 75 ou mais anos.
Barras agrupadas por sexo dentro de cada grupo etário. Um caso neonatal (feminino, < 1 ano) incluído.
Distribuição geográfica (série completa)
Os distritos do litoral Norte e Centro — Porto, Aveiro, Braga e Viseu — concentram 56% de todos os internamentos, reflectindo a maior dimensão populacional mas também a persistência de populações rurais idosas com lacunas vacinais históricas. Portalegre destaca-se pela elevadíssima letalidade proporcional: 3 óbitos nos únicos 3 casos registados.
| Distrito | Internamentos | Óbitos | Letalidade (%) |
|---|---|---|---|
| Porto | 42 | 4 | 9,5 |
| Aveiro | 31 | 3 | 9,7 |
| Lisboa | 24 | 3 | 12,5 |
| Braga | 20 | 2 | 10 |
| Viseu | 14 | 0 | 0 |
| Setúbal | 10 | 0 | 0 |
| Leiria | 9 | 4 | 44,4 |
| Coimbra | 8 | 1 | 12,5 |
| Castelo Branco | 7 | 1 | 14,3 |
| Viana do Castelo | 5 | 0 | 0 |
| Portalegre | 3 | 3 | 100 |
| Vila Real | 3 | 1 | 33,3 |
| Santarém | 3 | 0 | 0 |
| Évora | 2 | 0 | 0 |
| Faro | 2 | 0 | 0 |
| Bragança | 2 | 0 | 0 |
| Guarda | 1 | 0 | 0 |
| Beja | 1 | 0 | 0 |
Letalidade nos distritos com n < 5 é estatisticamente instável. Portalegre: 3 casos, 3 óbitos — número demasiado pequeno para conclusões.
Hospitais (série completa, ≥ 2 casos)
Os grandes centros hospitalares de referência — ULS de São João (Porto), ULS de Coimbra e ULS de São José (Lisboa) — concentram a maioria dos casos, o que reflecte a necessidade de cuidados intensivos especializados e a concentração de referenciação de casos graves.
| Hospital | Internamentos | Óbitos |
|---|---|---|
| ULS de São João | 31 | 1 |
| ULS de Coimbra | 26 | 4 |
| ULS de São José | 15 | 2 |
| ULS de Santo António | 13 | 2 |
| ULS da Região de Aveiro | 10 | 1 |
| ULS de Entre Douro e Vouga | 9 | 1 |
| ULS de Viseu Dão-Lafões | 9 | 0 |
| ULS de Matosinhos | 8 | 0 |
| ULS de Santa Maria | 6 | 0 |
| ULS do Alto Ave | 6 | 1 |
| ULS de Gaia / Espinho | 4 | 1 |
| ULS do Oeste | 3 | 1 |
| ULS do Arco Ribeirinho | 3 | 0 |
| ULS do Tâmega e Sousa | 3 | 0 |
| ULS de Lisboa Ocidental | 3 | 0 |
| ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro | 3 | 1 |
| ULS da Região de Leiria | 3 | 1 |
| ULS de Braga | 3 | 0 |
| ULS do Médio Tejo | 2 | 1 |
| ULS do Alto Minho | 2 | 0 |
| Hospital de Cascais Dr. José de Almeida | 2 | 0 |
| ULS do Alto Alentejo | 2 | 2 |
Nomes reflectem a estrutura organizacional de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente).
Detalhe caso a caso — 2014 a 2024
Nos últimos dez anos da série registaram-se 12 internamentos por tétano, sem qualquer óbito. Todos foram admissões urgentes. A demora média foi de 52 dias, com o internamento mais longo a atingir 146 dias. Em 7 dos 12 casos foi necessária ventilação mecânica prolongada (≥ 96 horas consecutivas) e em 6 foi realizada traqueostomia. A seguir descreve-se cada episódio com base nos diagnósticos e procedimentos codificados.
Caso 1 — 2014 · Mulher, 87 anos · Setúbal · 34 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Falência respiratória aguda → Perturbação renal → Septicémia estreptocócica → Ferimento do pé com complicações Procedimentos: Entubação endotraqueal, ventilação mecânica ≥ 96h, traqueostomia temporária, hemoculturas, antibiótico IV Alta: Para outra instituição | Severidade APR-DRG: 4 / Risco de mortalidade: 4
Caso 2 — 2014 · Mulher, 87 anos · Setúbal · 50 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Status de traqueostomia → Pneumonia por Pseudomonas → Polineuropatia Procedimentos: Entubação, ventilação, cateterizações arterial e venosa, hemoculturas Alta: Para cuidados continuados | Severidade APR-DRG: 3 / Risco de mortalidade: 3 (A traqueostomia como d2 indica episódio de seguimento de caso grave anterior)
Caso 3 — 2015 · Mulher, 80 anos · Lisboa · 65 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Infecção pós-traumática de ferimento → Movimentos involuntários anormais → Espasmo da laringe → Mioclonia Procedimentos: Traqueostomia, entubação endotraqueal, ventilação ≥ 96h, biopsia brônquica, cateterização arterial Alta: Para domicílio | Severidade APR-DRG: 3 / Risco de mortalidade: 3
Caso 4 — 2016 · Homem, 46 anos · Évora · 13 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Hipertensão → Perturbação do tabaco → Abuso de álcool → Falência respiratória aguda Procedimentos: Entubação, ventilação ≥ 96h, cateterizações, radiografia de tórax Alta: Para domicílio | Severidade APR-DRG: 3 / Risco de mortalidade: 4 (Único caso de homem de meia-idade neste período; o álcool como comorbilidade é clinicamente relevante)
Caso 5 — 2017 · Homem, 61 anos · Castelo Branco · 36 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Doença de refluxo gastroesofágico → Infecção urinária → Condição nosocomial → Infecção por enterococos Procedimentos: TC crânio, punção lombar diagnóstica, ressonância magnética cerebral, monitorização respiratória Alta: Para paliativos/cuidados continuados | Severidade APR-DRG: 2 / Risco de mortalidade: 1
Caso 6 — 2018 · Mulher, 69 anos · Bragança · 79 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Paragem cardíaca → Pneumonia → Infecção urinária → Encefalopatia hipóxico-isquémica moderada Procedimentos: Radiografia de tórax, entubação, monitorização intracraniana, ventilação < 24h, antibiótico IV Alta: Para domicílio | Severidade APR-DRG: 3 / Risco de mortalidade: 3 (Paragem cardíaca e encefalopatia hipóxico-isquémica: caso de extrema gravidade com recuperação notável)
Caso 7 — 2018 · Mulher, 83 anos · Porto · 146 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Cãibras e espasmos → Hipertensão → Perturbações respiratórias → Desidratação Procedimentos: Transfusão de imunoglobulina, entubação, ventilação ≥ 96h, traqueostomia aberta e percutânea Alta: Para paliativos/cuidados continuados | Severidade APR-DRG: 2 / Risco de mortalidade: 2 (Internamento mais longo da série 2014–2024 — quase cinco meses)
Caso 8 — 2018 · Mulher, 78 anos · Setúbal · 86 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Disreflexia autonómica → Hipotensão → Sintomas respiratórios → Fractura de Colles esquerda Procedimentos: Ventilação ≥ 96h, traqueostomia, nutrição enteral, antibiótico IV, algaliação Alta: Para outra instituição | Severidade APR-DRG: 4 / Risco de mortalidade: 3 (A fractura do rádio distal pode ter sido a porta de entrada do Clostridium tetani*)*
Caso 9 — 2018 · Mulher, 78 anos · Setúbal · 0 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Elevação de PCR → Ferida aberta do antebraço esquerdo → Exposição a factores externos → Celulite do membro superior direito Procedimentos: Entubação, ventilação < 24h, antibiótico IV, cateterização venosa central Alta: Para outra instituição (transferência imediata) | Severidade APR-DRG: 2 / Risco de mortalidade: 2 (Internamento de 0 dias — provavelmente transferência imediata para UCI de outro hospital)
Caso 10 — 2018 · Mulher, 49 anos · Vila Real · 23 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Perturbações cerebrais → Estridor → Insuficiência respiratória aguda → Paralisia do olhar conjugado Procedimentos: TC crânio, ressonância magnética de artérias intracranianas, punção lombar, entubação, ventilação 24–96h Alta: Para domicílio | Severidade APR-DRG: 3 / Risco de mortalidade: 4
Caso 11 — 2019 · Mulher, 78 anos · Santarém · 13 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Hipocalcemia → Deficiência de vitamina D → Hiperparatiroidismo → Pneumonia Procedimentos: Radiografia de tórax, TC cervical, antibiótico IV, vacina/toxóide tetânico IM Alta: Para domicílio | Severidade APR-DRG: 2 / Risco de mortalidade: 3 (Único caso em que a administração de toxóide é registada como procedimento; internamento menos grave da série recente)
Caso 12 — 2021 · Mulher, 79 anos · Aveiro · 79 dias de internamento
Diagnósticos: Tétano → Hipertensão → Obesidade → Laceração com corpo estranho na perna direita → Impacto contra objecto parado Procedimentos: Ventilação ≥ 96h, radiografia de tórax, antibiótico IV (veia central), traqueostomia percutânea, nutrição enteral Alta: Para outra instituição | Severidade APR-DRG: 3 / Risco de mortalidade: 3 (A laceração com corpo estranho na perna — em contexto de queda — é a porta de entrada identificada)
| Ano | Sexo | Idade | Distrito | Dias internamento | Ventilação ≥ 96h | Traqueostomia | Porta de entrada identificável | Destino de alta |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2014 | F | 87 | Setúbal | 34 | Sim | Sim | Ferimento do pé | Outra instituição |
| 2014 | F | 87 | Setúbal | 50 | Sim | Sim | Seguimento de caso anterior | Cuidados continuados |
| 2015 | F | 80 | Lisboa | 65 | Sim | Sim | Infecção pós-traumática | Domicílio |
| 2016 | M | 46 | Évora | 13 | Sim | Não | Não identificada | Domicílio |
| 2017 | M | 61 | Castelo Branco | 36 | Não | Não | Não identificada | Paliativos/continuados |
| 2018 | F | 69 | Bragança | 79 | Não | Sim | Não identificada | Domicílio |
| 2018 | F | 83 | Porto | 146 | Sim | Sim | Não identificada | Paliativos/continuados |
| 2018 | F | 78 | Setúbal | 86 | Sim | Sim | Fractura de Colles (provável) | Outra instituição |
| 2018 | F | 78 | Setúbal | 0 | Não | Não | Ferida aberta do antebraço | Outra instituição (transferência) |
| 2018 | F | 49 | Vila Real | 23 | Não | Não | Não identificada | Domicílio |
| 2019 | F | 78 | Santarém | 13 | Não | Não | Não identificada | Domicílio |
| 2021 | F | 79 | Aveiro | 79 | Sim | Sim | Laceração com corpo estranho na perna | Outra instituição |
Ventilação ≥ 96h e traqueostomia inferidas dos procedimentos codificados. Porta de entrada inferida dos diagnósticos secundários.
Metodologia
Fonte: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS — episódios de internamento do SNS, 2000–2024 (38,5 M episódios totais).
Filtros aplicados: tipo_port_apr31 = 'Int' (internamentos); diagnóstico principal (d1) igual a:
- ICD-9-CM:
037(tétano) e7713(tétano neonatal) - ICD-10-CM/PCS:
A33(tétano neonatal),A34(tétano obstétrico),A35(outros tétanos)
Transição de sistemas de codificação: ICD-9-CM utilizado até 2016 (inclusive para a maioria dos episódios); ICD-10-CM/PCS a partir de 2017. O campo icd_versao do BDMH identifica o sistema usado por episódio — o filtro respeita essa distinção.
Óbito intra-hospitalar: dsp = 20. Admissão urgente: adm_tip = 2. Demora média: exclui dias_int = -1 (sentinela, ~72k episódios na base total).
Detalhe 2014–2024: análise caso a caso com base em diagnósticos secundários (d2–d5), procedimentos (p1–p5), destino de alta (dsp) e severidade/mortalidade APR-DRG v31 (uso interno; não publicados ao nível do episódio). Comorbilidades via tabela comorbidades (Elixhauser-Quan 2005).
Nomes de hospitais: reflectem a estrutura organizacional de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente pela ACSS); não correspondem necessariamente às designações históricas.
Limitações: os dados referem-se a episódios de internamento no SNS — casos tratados exclusivamente no sector privado não estão incluídos. A identificação da «porta de entrada» é inferida dos diagnósticos secundários codificados e pode ser incompleta quando não há codificação explícita da ferida ou traumatismo.