25 de setembro de 2026

Sarcomas no SNS (2000–2024) — Relatório de Síntese e Nota Metodológica

por Paulo Tavares

Relatório de síntese produzido a partir de uma sessão analítica aprofundada sobre sarcomas no SNS português, 2000–2024, com base na BDMH/ACSS. Cobre dois grupos principais — neoplasias malignas primitivas dos ossos e cartilagens articulares (31 150 episódios) e sarcomas dos tecidos moles (65 200 episódios) — e documenta as decisões metodológicas tomadas, os limites da codificação ICD-CM, a análise de mortalidade intra-hospitalar recalculada exclusivamente em internamentos, e a posição da ULS de Coimbra em ambos os grupos.

Âmbito e Objectivo

Este relatório sintetiza os resultados de uma análise exploratória aprofundada da actividade hospitalar do SNS em tumores do aparelho locomotor e sarcomas dos tecidos moles, realizada sobre a Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH/ACSS), que cobre 38,5 milhões de episódios de 2000 a 2024.

Foram tratados dois grupos distintos:

  1. Neoplasias malignas primitivas dos ossos e cartilagens articulares (ICD-9: 170.x; ICD-10: C40.x, C41.x) — 31 150 episódios
  2. Sarcomas dos tecidos moles — definição operacional por códigos topográficos ICD-CM — 65 200 episódios

O relatório documenta também as decisões metodológicas tomadas ao longo da sessão, incluindo a evolução da definição de sarcomas dos tecidos moles, a exclusão de GIST, a separação do sarcoma de Kaposi, a construção de um indicador de mortalidade corrigido (exclusivamente em internamentos), e a padronização por idade e sexo.

Parte I — Neoplasias Malignas Primitivas dos Ossos e Cartilagens Articulares

Definição e âmbito

Os códigos ICD-9-CM 170.x e ICD-10-CM C40.x/C41.x correspondem exclusivamente a neoplasias malignas primitivas dos ossos e cartilagens articulares, incluindo osteossarcoma, sarcoma de Ewing, condrossarcoma e outros. As metástases ósseas (C79.5) pertencem a codificação distinta e não fazem parte desta selecção.

A BDMH não contém morfologia histológica (ICD-O), pelo que não é possível distinguir subtipos tumorais a partir destes dados.

31 150
Total de episódios — tumores ósseos primitivos (2000–2024)
Diagnóstico em qualquer posição d1–d10 · 5 557 doentes distintos identificados
3,21%
Mortalidade intra-hospitalar global — tumores ósseos
999 óbitos em 31 150 episódios (internamento + ambulatório)
26,1%
ULS de Coimbra — quota nacional (tumores ósseos)
8 127 episódios · 1.º lugar entre todas as instituições · 1 011 doentes distintos

Perfil epidemiológico

O grupo etário com maior número de episódios é o dos 10–19 anos (7 922 episódios), dado clinicamente consistente com a epidemiologia do osteossarcoma e do sarcoma de Ewing — tumores com pico na adolescência, durante o período de crescimento ósseo acelerado, e com predominância masculina. Os rapazes representam 58% dos episódios totais e têm idade mediana mais baixa (33 anos) do que as raparigas (38 anos).

A mortalidade intra-hospitalar é quase nula nos jovens (0,9% nos 10–19 anos) e escala progressivamente com a idade, atingindo 13–14% nos 80 anos ou mais. Sem informação histológica disponível na BDMH, não é possível determinar quais os subtipos tumorais que contribuem para a mortalidade mais elevada nos grupos de maior idade.

Tumores ósseos — mortalidade intra-hospitalar por grupo etário (sexos combinados)
Grupo etárioEpisódiosMortalidade (%)
00–0914760,2
10–1979220,9
20–2944211,7
30–3932151,6
40–4930252,2
50–5933493,9
60–6937075,1
70–7926688,2
80+136714

Valores aproximados; mortalidade = dsp=20 / episódios × 100.

Concentração da actividade e posição da ULS de Coimbra

A actividade em tumores ósseos está fortemente concentrada. Os cinco maiores centros — ULS de Coimbra, IPO Porto, IPO Lisboa, ULS Santo António e ULS São João — concentram mais de 74% de todos os episódios do SNS.

A ULS de Coimbra regista o maior volume entre todas as instituições, com 8 127 episódios (26,1% do total nacional) e 1 011 doentes distintos. O volume é 38% superior ao do IPO Porto (5 898 episódios), 97% superior ao do IPO Lisboa (4 131) e 3,6 vezes superior ao do quarto centro, a ULS Santo António (3 076 episódios).

A mortalidade intra-hospitalar da ULS de Coimbra neste grupo é de 1,4% — um dos valores mais baixos entre os grandes centros. Esta comparação é descritiva e não ajustada ao case-mix.

Tumores ósseos — principais centros (2000–2024)
HospitalEpisódiosDoentes distintos% do SNSÓbitosMortalidade (%)
ULS de Coimbra8127101126,1%1121,4
IPO Porto589881718,9%1121,9
IPO Lisboa413148413,3%741,8
ULS Santo António30764209,9%531,7
ULS Arco Ribeirinho18822156,0%271,4
ULS Santa Maria18484555,9%542,9
ULS São João17522585,6%221,3

Ordenado por episódios totais. Mortalidade calculada sobre todos os episódios (internamento + ambulatório). ⚠️ Diferenças de mortalidade entre centros reflectem predominantemente case-mix distinto.

Parte II — Sarcomas dos Tecidos Moles

Definição operacional e limites

A identificação de sarcomas dos tecidos moles na BDMH é limitada pela ausência de morfologia ICD-O. A selecção adoptada utiliza códigos topográficos de especificidade elevada, excluindo expressamente códigos que incluam predominantemente carcinomas.

ICD-9-CM incluídos: 171.x (tecidos conjuntivos e moles), 158.0 (retroperitoneu), 164.1 (coração), 187.6 (cordão espermático).

ICD-10-CM incluídos: C49.x excluindo todos os C49A.x (GIST), C47.x (nervos periféricos e SNA, incluindo MPNST), C48.0 (retroperitoneu), C38.0 (coração), C63.1x (cordão espermático — C63.10, C63.11, C63.12), C22.3 (angiossarcoma do fígado), C22.4 (outros sarcomas do fígado).

Expressamente excluídos: GIST (C49A.x em ICD-10; não separáveis em ICD-9), sarcoma de Kaposi, tumores ósseos (C40.x/C41.x), sarcomas mielóides e histiocíticos.

Sarcomas não identificáveis: sarcomas da mama (C50.x), a maioria dos sarcomas uterinos, sarcomas de próstata, rim, bexiga e outras localizações viscerais. Os 65 200 episódios representam um limite inferior da actividade real em sarcomas dos tecidos moles no SNS.

Nota sobre GIST em ICD-9: no período ICD-9-CM, eventuais GIST codificados em 171.5 ou outras subdivisões de 171.x não são excluíveis sem morfologia ICD-O. Esta limitação é estrutural e deve ser explicitada na interpretação dos resultados anteriores a 2017.

65 200
Total de episódios — sarcomas tecidos moles (2000–2024)
Estimativa conservadora · 47 830 internamentos + 17 370 episódios ambulatórios
5,22%
Mortalidade intra-hospitalar em internamentos — SNS
2 495 óbitos em 47 830 internamentos · ambulatório excluído do denominador
2,41%
ULS de Coimbra — mortalidade intra-hospitalar em internamentos
Menor valor entre os três centros de maior volume · mantém-se após padronização por idade/sexo

Por que a mortalidade em todos os episódios era enganosa

A análise inicial calculava a mortalidade sobre todos os episódios (internamento + ambulatório), produzindo um indicador de 3,8%. Este valor estava artificialmente diluído pelos 17 370 episódios ambulatórios, nos quais a mortalidade é de 0,01% (1 óbito). A decomposição por linha de produção revelou que:

  • Internamentos: 47 830 episódios, 2 495 óbitos, 5,22% de mortalidade
  • Ambulatório: 17 370 episódios, 1 óbito, 0,01% de mortalidade

Agravante: a proporção de episódios ambulatórios difere fortemente entre hospitais. A ULS de Coimbra tem 92,7% dos seus episódios em internamento (9 786 de 10 556), enquanto a ULS Santa Maria tem apenas 35,6% (842 de 2 368) e a ULS Santo António tem 26,5% (775 de 2 921). A comparação de mortalidade sobre todos os episódios não é metodologicamente válida entre estas instituições.

Sarcomas dos tecidos moles — episódios por doente e proporção de internamento
HospitalTotal episódiosDoentes distintosEpis./doenteInternamentos% epis. em internamento
IPO Porto19 07628636,714 75577,4%
IPO Lisboa15 32922516,8987064,4%
ULS de Coimbra10 55611219,4978692,7%
ULS Santo António29215175,677526,5%
IPO Coimbra27544346,3225982,0%
ULS Santa Maria23686603,684235,6%
ULS São João20854125,1151872,8%

A ULS de Coimbra tem 9,4 episódios/doente (vs. 6,7–6,8 nos IPO) e 92,7% dos episódios são internamentos. A ULS Santo António e ULS Santa Maria têm grande proporção de episódios ambulatórios. A comparação de mortalidade sobre todos os episódios não é metodologicamente comparável entre estas instituições.

Mortalidade intra-hospitalar em internamentos — análise aprofundada

O indicador principal desta análise é a mortalidade intra-hospitalar em internamentos:

Mortalidade (internamentos) = óbitos (dsp=20) / total de internamentos × 100

Calculado com a mesma metodologia em todos os hospitais. Este indicador não mede sobrevivência oncológica, mortalidade específica por sarcoma, mortalidade após a alta, nem outcome clínico global.

Sarcomas dos tecidos moles — mortalidade em internamentos, principais centros (2000–2024)
HospitalInternamentosÓbitosMortalidade bruta (%)Mortalidade padronizada idade/sexo (%)
SNS Total47 83024955,22—
IPO Porto14 7555073,443,73
IPO Lisboa98703523,574,27
ULS de Coimbra97862362,413,04
IPO Coimbra2259763,36—
ULS São João1518422,77—
ULS Arco Ribeirinho1078423,9—
ULS Santo António775607,74—
ULS Santa Maria8429010,69—
ULS do Algarve7648511,13—
ULS São José7077310,33—

Mortalidade padronizada calculada por padronização directa (população padrão = distribuição nacional de internamentos de sarcoma por grupo etário × sexo). Não ajusta estadio, histologia, comorbilidade ou gravidade clínica. ⚠️ Diferenças de mortalidade reflectem predominantemente case-mix distinto.

Análise de sensibilidade e indicador por doente

Análise de sensibilidade (diagnóstico principal d1): quando a análise se restringe a internamentos em que o sarcoma figura como diagnóstico principal (d1), a mortalidade sobe — porque estes episódios são tipicamente os de maior gravidade clínica. O padrão relativo mantém-se:

HospitalInternamentos (d1)Mortalidade (%)
SNS Total5 96014,31%
IPO Porto3 35610,88%
IPO Lisboa2 72210,10%
ULS de Coimbra1 7918,99%

Proporção de doentes distintos com óbito intra-hospitalar: cada doente conta uma única vez, independentemente do número de internamentos. Este indicador não é equivalente a sobrevivência oncológica nem a mortalidade específica por sarcoma:

HospitalDoentes com internamentoDoentes com óbitoProporção (%)
SNS Total5 1381 22123,76%
IPO Porto2 66150719,05%
IPO Lisboa2 13535216,49%
ULS de Coimbra1 08423621,77%
ULS Santo António4876012,32%
ULS São João3874210,85%

Nesta métrica, a ULS de Coimbra (21,77%) situa-se entre o IPO Porto e o SNS total, e o IPO Lisboa apresenta o valor mais baixo (16,49%). As diferenças podem reflectir, entre outros factores, diferenças no perfil de referenciação e de seguimento.

Posição da ULS de Coimbra — sarcomas dos tecidos moles

A ULS de Coimbra constitui o terceiro maior centro nacional em actividade de internamento em sarcomas dos tecidos moles e o maior centro não exclusivamente oncológico.

  • 10 556 episódios totais (16,2% do total nacional)
  • 9 786 internamentos (20,5% dos internamentos nacionais de sarcoma)
  • 1 084 doentes distintos com internamento
  • Volume de internamentos 3,6 vezes superior ao do quarto centro (ULS Santo António: 775 internamentos)

Entre os três centros de maior volume, a ULS de Coimbra apresenta a menor mortalidade intra-hospitalar em internamentos — 2,41% (bruta) e 3,04% (padronizada por idade e sexo), face a 3,44%/3,73% no IPO Porto e 3,57%/4,27% no IPO Lisboa. O resultado mantém-se nas três metodologias testadas (definição principal d1–d10, padronização por idade/sexo, análise de sensibilidade d1).

Esta comparação é observacional e não ajustada a estadio, histologia, comorbilidade ou gravidade clínica. Não permite inferir causalidade ou superioridade assistencial.

A actividade de Oncologia Médica integrada na abordagem multidisciplinar dos sarcomas dos tecidos moles na ULS de Coimbra encontra-se estruturada no âmbito da unidade especializada responsável por estes tumores, em articulação com cirurgia, imagiologia e anatomia patológica. (Informação institucional; não consta da BDMH/ACSS.)

Mortalidade intra-hospitalar em internamentos — sarcomas dos tecidos moles, principais centros (%)

Mortalidade = óbitos intra-hospitalares / internamentos × 100. Ambulatório excluído. ⚠️ Diferenças entre centros especializados e periféricos reflectem predominantemente case-mix distinto.

Parte III — Decisões Metodológicas e Lições da Sessão Analítica

Esta sessão analítica permitiu identificar e corrigir vários problemas metodológicos relevantes, com implicações para qualquer análise de mortalidade hospitalar em oncologia sobre a BDMH.

1. Separação de internamento e ambulatório é obrigatória

A mortalidade calculada sobre todos os episódios (internamento + ambulatório) produz um denominador artificialmente inflado, porque os episódios ambulatórios têm mortalidade próxima de zero e representam uma proporção muito diferente entre hospitais. A correcção aumentou a mortalidade nacional de 3,8% para 5,22% e alterou significativamente a comparação entre instituições.

2. A intensidade de seguimento distorce as comparações

A ULS de Coimbra tem 9,4 episódios/doente vs. 6,7 no IPO Porto. Hospitais com maior intensidade de seguimento ambulatório apresentam mais episódios/doente, o que dilui a mortalidade quando calculada sobre todos os episódios. A solução adoptada foi restringir o denominador a internamentos.

3. A padronização por idade e sexo é necessária mas insuficiente

A padronização directa por idade e sexo reduziu a vantagem da ULS de Coimbra mas não a eliminou (de 2,41% para 3,04%). A diferença que persiste pode reflectir diferenças de estadio, histologia, comorbilidade ou gravidade que a BDMH não permite ajustar. A comparação permanece observacional.

4. Ausência de ICD-O é a limitação estrutural central

A BDMH utiliza ICD-CM (topográfico) e não contém morfologia ICD-O. Isto implica:

  • Não é possível distinguir subtipos histológicos (osteossarcoma vs. condrossarcoma; lipossarcoma vs. leiomiossarcoma)
  • Sarcomas viscerais (mama, útero, próstata, rim, bexiga) não são identificáveis
  • GIST não podem ser excluídos selectivamente no período ICD-9-CM
  • Os totais obtidos são estimativas conservadoras da actividade real

Para análises por morfologia histológica, grau e estadio, os Registos Oncológicos Regionais (ROR), codificados em ICD-O-3, são a fonte adequada.

5. A ligação BDMH–ROR é possível mas não está feita de forma sistemática

O número de utente (pseudonimizado como n_ficticio_utente na BDMH) é a chave natural de ligação com os ROR. Uma ligação formal — em ambiente seguro, com autorização da CNPD e protocolo entre ACSS e registos oncológicos — permitiria filtrar episódios por código histológico ICD-O-3, analisar trajectórias de cuidados do diagnóstico ao óbito, e calcular indicadores de sobrevivência reais. Em Portugal, esta ligação existe em projectos pontuais de investigação mas não de forma sistemática e acessível.

6. Mortalidade intra-hospitalar ≠ sobrevivência oncológica

Em todo o relatório foi mantida a distinção rigorosa entre mortalidade intra-hospitalar (dsp=20, medida nesta análise) e sobrevivência global, mortalidade específica por sarcoma, letalidade oncológica ou mortalidade a 1 ou 5 anos. Estes indicadores não podem ser derivados da BDMH.

Parte IV — Análise Suplementar: Miométrio (C54.2)

O código C54.2 (neoplasia maligna do miométrio) foi tratado como módulo suplementar separado, de interesse para o estudo dos sarcomas uterinos, em particular o leiomiossarcoma uterino.

Não foi incluído na série principal de sarcomas dos tecidos moles porque:

  • C54.2 é um código topográfico; a histologia sarcomatosa não é confirmável pela BDMH
  • Em ICD-9, 182.0 agrupava todo o corpo do útero sem desagregação (miométrio + endométrio)
  • O volume registado é muito reduzido: 945 episódios entre 2017 e 2024, sugerindo subcodificação
  • Outros sarcomas uterinos podem estar em C54.1, C54.9, C55 — códigos que incluem predominantemente carcinomas

Total 2017–2024 (C54.2): 945 episódios · 265 doentes distintos · 25 óbitos · mortalidade bruta 2,6%.

A ULS de Coimbra regista 155 episódios com este código (16,4% do total), seguida de "Outros" (391, 41,4%), ULS Santa Maria (148, 15,7%) e IPO Lisboa (88, 9,3%). A distribuição é mais dispersa do que na série principal, o que reforça a hipótese de subcodificação selectiva.

C54.2 (Miométrio, ICD-10) — por hospital, 2017–2024
HospitalEpisódiosDoentes distintosÓbitosMortalidade (%)
Outros391134102,6
ULS de Coimbra15541106,5
ULS Santa Maria14827<51,4
IPO Lisboa8816<53,4
IPO Porto612000
ULS São João43600
ULS Santo António366<55,6
IPO Coimbra231400

Análise suplementar — não integrada na série principal. C54.2 é código topográfico; histologia sarcomatosa não confirmável pela BDMH. Volumes reduzidos tornam a mortalidade por hospital pouco robusta.

Conclusões Gerais

Tumores ósseos primitivos

As neoplasias malignas primitivas dos ossos e cartilagens articulares são uma patologia rara, com particular expressão nos adolescentes e adultos jovens (grupo 10–19 anos com maior número de episódios). A actividade está fortemente concentrada: a ULS de Coimbra regista o maior volume entre todas as instituições (8 127 episódios, 26,1% do total), com uma mortalidade intra-hospitalar de 1,4%.

Sarcomas dos tecidos moles

Os sarcomas dos tecidos moles são um grupo heterogéneo cujo verdadeiro volume no SNS é subestimado pelos códigos ICD-CM disponíveis. Os 65 200 episódios identificados representam um limite inferior. O perfil etário difere do dos tumores ósseos, com predomínio nas décadas dos 50–70 anos.

A actividade concentra-se no IPO Porto (14 755 internamentos, 30,8%), IPO Lisboa (9 870, 20,6%) e ULS de Coimbra (9 786, 20,5%). Entre os três maiores centros, a ULS de Coimbra apresenta a menor mortalidade intra-hospitalar em internamentos — 2,41% bruta e 3,04% após padronização por idade e sexo. O resultado mantém-se nas três metodologias testadas. A comparação permanece observacional.

Nota sobre BDMH e registos oncológicos

A BDMH é uma fonte valiosa para análise de volume, tendências, demografia e mortalidade intra-hospitalar, mas não substitui os Registos Oncológicos Regionais para análise histológica, estadiamento e sobrevivência. A ligação sistemática entre BDMH e ROR, tecnicamente possível através do número de utente pseudonimizado, permitiria superar as principais limitações de ambas as fontes quando usadas isoladamente.

Metodologia

Fonte: BDMH/ACSS — episódios de internamento e ambulatório no SNS, 2000–2024 (38,5 M episódios).

Grupo 1 — Tumores ósseos: ICD-9-CM 170.x; ICD-10-CM C40.x, C41.x. Diagnóstico em qualquer posição d1–d10. Exclui metástases ósseas (C79.5).

Grupo 2 — Sarcomas dos tecidos moles: ICD-9-CM 171.x, 158.0, 164.1, 187.6; ICD-10-CM C49.x (excl. C49A.x), C47.x, C48.0, C38.0, C63.1x, C22.3, C22.4. Diagnóstico em qualquer posição d1–d10. Excluídos: GIST, sarcoma de Kaposi, tumores ósseos, sarcomas hematológicos.

Mortalidade: calculada exclusivamente sobre internamentos (tipo_port_apr31 = 'Int'); numerador = dsp=20; ambulatório excluído do denominador. A mortalidade calculada sobre todos os episódios (versões anteriores) está disponível para referência histórica mas não deve ser usada para comparação entre hospitais.

Padronização: padronização directa por idade (9 grupos, 0–9 a 80+) e sexo, usando a distribuição nacional de internamentos de sarcoma como população padrão. Não ajusta estadio, histologia, comorbilidade ou gravidade.

Análise de sensibilidade: mortalidade em internamentos com sarcoma como diagnóstico principal (d1), apresentada como verificação de consistência.

Proporção de doentes com óbito: cada doente conta uma vez no denominador e uma vez no numerador. Não é equivalente a sobrevivência oncológica.

Rupturas de série: (1) 2000–2006: linkage parcial de utente; (2) 2007: entrada das linhas ambulatórias; (3) 2013: redefinição do internamento; (4) 2020: COVID-19.

Nomes de hospital: estrutura organizacional de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente pela ACSS).

O que este relatório NÃO mede: sobrevivência global, mortalidade oncológica específica, sobrevivência a 1 ou 5 anos, mortalidade após a alta, estadio, histologia ou grau tumoral.

Reprodutibilidade: consultas SQL utilizadas (4)

Decomposição internamento vs. ambulatório — sarcomas tecidos moles

SELECT tipo_port_apr31, COUNT(*) AS episodios, COUNT(DISTINCT n_ficticio_utente) AS doentes_distintos, SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END) AS obitos, ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),2) AS mort_pct FROM episodes WHERE n_ficticio_utente IS NOT NULL AND n_ficticio_utente NOT IN (SELECT n_ficticio_utente FROM sentinel_patient_ids) AND [filtro_sarcomas_moles] GROUP BY tipo_port_apr31

Mortalidade em internamentos por hospital — sarcomas tecidos moles

SELECT hosp_norm, COUNT(*) AS internamentos, COUNT(DISTINCT n_ficticio_utente) AS doentes_int, SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END) AS obitos, ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),2) AS mort_pct FROM [base_sarcomas_int] GROUP BY hosp_norm HAVING COUNT(*)>=30 ORDER BY internamentos DESC

Padronização directa por idade e sexo — 3 maiores centros

Padronização directa com população padrão = distribuição nacional de internamentos de sarcoma por grupo etário × sexo (9 grupos × 2 sexos)

Tumores ósseos — totais confirmados

SELECT COUNT(*) AS total_episodios, COUNT(DISTINCT n_ficticio_utente) AS doentes_distintos, SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END) AS obitos FROM episodes WHERE [filtro_170_C40_C41] AND n_ficticio_utente NOT IN sentinels

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