24 de agosto de 2026

Quedas da Cama em Contexto Hospitalar: Episódios e Mortalidade por ULS (2020–2024)

por Corpus

Entre 2020 e 2024 registaram-se 924 episódios de internamento nos hospitais do SNS com evidência de queda da cama ocorrida durante o internamento, dos quais 186 terminaram em óbito — uma taxa de mortalidade intra-hospitalar de 20,1%. O relatório analisa o universo, os critérios de identificação, o perfil dos doentes e os indicadores por Unidade Local de Saúde.

Quedas da Cama em Contexto Hospitalar — SNS 2020–2024

As quedas em doentes internados são um evento adverso grave e evitável, reconhecido como indicador de segurança do doente pela OMS e pela DGS. Este relatório quantifica os episódios de internamento nos hospitais do SNS em que há evidência de queda da cama ocorrida durante o internamento — por oposição a quedas ocorridas antes da admissão (em casa ou na via pública). A análise cobre o período 2020–2024, único período em que o registo sistemático com ICD-10 permite esta identificação.

Nota importante sobre cobertura histórica: O código ICD-9 equivalente (E8844 — «Queda da cama») praticamente não foi utilizado na codificação hospitalar portuguesa até 2016. Com a adopção do ICD-10-CM em 2017, o código W06 passou a ser registado de forma sistemática. Qualquer análise anterior a 2017 seria metodologicamente inviável.

Critérios de Identificação — Como se Confirmou que a Queda foi Intra-hospitalar

A identificação rigorosa implicou três filtros sucessivos aplicados ao universo de internamentos com código W06 (Fall from bed / Queda da cama) em posição secundária (d2–d10):

1. Excluídos: admitidos pela própria queda ocorrida fora do hospital Episódios em que o diagnóstico principal (d1) é uma lesão traumática (códigos S ou T) e não existe o código Y9223x (local=hospital). Estes doentes caíram antes de serem admitidos e o W06 documenta o mecanismo de lesão que motivou a admissão.

2. Excluídos: local de ocorrência confirmado como residência privada Episódios com código Y920x (residência privada) em qualquer posição de diagnóstico.

3. Incluídos com dois níveis de certeza:

  • Confirmado (428 episódios, 46%): código Y9223x presente — «Hospital como local de ocorrência» com subcódigos como «Quarto de doente em hospital» (Y92230), «Casa de banho de doente em hospital» (Y92231) ou «Corredor de hospital» (Y92232).
  • Provável intra-hospitalar (496 episódios, 54%): sem código Y92, mas diagnóstico principal é doença médica (não traumatismo) — padrão de doente internado por outra causa a quem sobrevém uma queda. A demora média neste grupo (17 dias) reforça esta interpretação.

Universo final: 924 episódios de internamento (2020–2024).

924
Episódios de queda da cama hospitalar (2020–2024)
Internamentos SNS com W06 em d2–d10; excluídos admitidos pela queda e local=residência privada
186
Óbitos durante o internamento
Taxa de mortalidade intra-hospitalar de 20,1% — 1 em cada 5 doentes
20,7 dias
Demora média de internamento
Mediana muito superior à média geral de internamentos SNS (~7 dias); idade média 78,7 anos

Evolução Anual

O número de episódios manteve-se entre 144 e 214 por ano no período 2020–2024, com a taxa de mortalidade a oscilar entre 18% e 21%. A descida de 2024 pode reflectir subcodificação ou ainda dados incompletos para esse ano. A demora média aumentou de 19 para 26 dias em 2023, sugerindo doentes progressivamente mais complexos ou internamentos mais prolongados após a queda.

Série anual — Quedas da cama hospitalares (2020–2024)
AnoEpisódiosÓbitosMortalidade (%)Demora média (dias)Idade médiaHomensMulheres
20201903518,419,177,386104
20211813720,418,380,29388
2022214452119,679,5103111
20231954020,525,577,795100
20241442920,120,878,77470
Total92418620,120,778,7451473

Internamentos SNS; critério de queda intra-hospitalar conforme descrito. 2024 pode ter subcodificação.

Episódios e óbitos por queda da cama hospitalar — 2020 a 2024

Barras azuis = episódios totais; linha vermelha = óbitos. Fonte: BDMH/ACSS 2020–2024.

Perfil dos Doentes

Os doentes afectados são maioritariamente idosos (78% têm 65 ou mais anos; idade média 78,7 anos) e com distribuição equilibrada entre sexos (49% homens, 51% mulheres). A mortalidade é paradoxalmente mais elevada nos grupos 18–64 anos (21,1%) e 65–74 anos (25,9%) do que nos 75–84 anos (15,7%), o que sugere que os mais jovens com queda hospitalar têm comorbilidades particularmente graves (doentes oncológicos, sepsis, etc.). O grupo 85+ anos tem mortalidade de 21,9%.

Os diagnósticos principais nos óbitos revelam o perfil de doente internado por doença aguda grave — pneumonia, insuficiência cardíaca, AVC, sépsis, COVID-19 (U071) — a quem a queda da cama acrescenta um evento adverso no decurso de um internamento já de alto risco.

Perfil etário — Episódios e mortalidade por faixa etária (2020–2024)
Faixa etáriaEpisódiosÓbitosMortalidade (%)
< 18 anos<50
18–64 anos952021,1
65–74 anos1584125,9
75–84 anos3445415,7
85+ anos3247121,9

Células com n < 5 suprimidas. Mortalidade mais elevada nos 65-74 anos; grupo 75-84 tem melhor prognóstico relativo, possivelmente por menor complexidade de comorbilidades.

Principais diagnósticos de admissão nos óbitos por queda hospitalar (2020–2024)
CódigoDiagnóstico principalÓbitos
U071COVID-1918
J189Pneumonia, organismo não especificado12
I110Doença cardíaca hipertensiva com insuficiência cardíaca6
J690Pneumonite por aspiração de alimento/vómito5
I130Doença cardíaca e renal crónica hipertensiva com IC5
N390Infecção do tracto urinário4
A419Sépsis, organismo não especificado3
Z515Admissão para cuidados paliativos3
N179Insuficiência aguda do rim3
I509Insuficiência cardíaca3
I5033Insuficiência cardíaca congestiva crónica agudizada3
I5023Insuficiência cardíaca sistólica crónica agudizada3
I63511Enfarte cerebral — artéria cerebral média direita3

Diagnóstico principal = causa que motivou o internamento, não a queda em si. COVID-19 domina 2020-2021; padrão 2022-2024 é de patologia cardiovascular, infecciosa e respiratória.

Resultados por Unidade Local de Saúde

A tabela seguinte apresenta, para cada ULS, o total de episódios no período 2020–2024, o número de episódios com local de ocorrência confirmado como hospital (código Y9223x), os óbitos, a taxa de mortalidade, a demora média e a idade média dos doentes.

Notas de interpretação:

  • Hospitais com n muito baixo (< 10) têm taxas de mortalidade estatisticamente instáveis — interpretar com cautela.
  • A variação de mortalidade entre hospitais reflecte em parte diferenças no case-mix (hospitais terciários têm doentes mais graves) e em parte diferenças na completude do registo do código W06 (hospitais que codificam mais sistematicamente aparecem com mais episódios).
  • A proporção de episódios com Y9223x confirmado varia muito entre unidades, o que é um indicador da qualidade de codificação da causa externa e do local de ocorrência.
Quedas da cama hospitalares por ULS — total 2020–2024
Hospital / ULSEpisódiosConfirmados Y9223x% confirmadosÓbitosMortalidade (%)Demora média (dias)Idade média
ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro511325,5917,617,479,9
ULS do Tâmega e Sousa44<5920,514,578,3
ULS do Oeste391743,6512,818,475,8
ULS de Coimbra38<51128,924,283,8
ULS de Braga38821,1923,716,776,8
ULS de Lisboa Ocidental361130,6822,226,879,1
ULS de São João351028,6<514,318,775,9
ULS da Lezíria351954,3822,922,675,5
ULS de Amadora / Sintra31722,6<512,919,280,2
ULS de Viseu Dão-Lafões29620,7620,712,281,7
ULS do Algarve2993193117,184,1
ULS do Médio Tejo28<5<510,718,380,4
ULS de Santa Maria281553,6621,416,973,4
ULS de Gaia / Espinho28<572515,780,7
ULS de Matosinhos27<5<518,513,478,9
ULS de Almada / Seixal25832<5123276,6
ULS de Santo António2572862428,277,5
ULS da Região de Leiria25<5<5821,684,4
ULS de São José251248<51639,679,5
ULS do Médio Ave24<562533,677,9
ULS de Loures / Odivelas22940,9627,320,179,5
ULS da Guarda21733,3<51918,281,3
ULS do Alto Alentejo211361,9733,315,379,2
Hospital de Cascais Dr. José de Almeida21733,3<514,310,778,5
ULS da Região de Aveiro19<515,318,978,9
ULS do Alto Ave18738,9<511,122,676,9
ULS do Alto Minho18738,9<511,129,775
ULS do Arco Ribeirinho17952,9<517,623,678
ULS de Entre Douro e Vouga1616,3<518,828,282,1
ULS da Arrábida15960<526,719,779,3
ULS da Cova da Beira15<5<52022,281,1
ULS do Estuário do Tejo13<517,725,481,1
ULS da Póvoa de Varzim / Vila do Conde1218,3<516,715,479,6
IPO Lisboa12650<533,319,460,5
ULS do Baixo Alentejo10660<53018,474,7
ULS do Alentejo Central7114,3<528,618,377,9
ULS do Litoral Alentejano7<5<528,624,970,9
ULS do Baixo Mondego<50<523,284

Células com n < 5 suprimidas. «% confirmados» = proporção com código Y9223x (hospital como local de ocorrência). Hospitais com percentagem elevada têm melhor completude de codificação. Taxas em hospitais com < 10 episódios são estatisticamente instáveis.

Episódios de queda da cama hospitalar por ULS (total 2020–2024, top 20)

Cor = taxa de mortalidade (escala de vermelhos). Volume reflecte tanto a incidência real como a completude do registo do código W06. Fonte: BDMH/ACSS 2020–2024.

Limitações e Notas de Interpretação

1. Subnotificação provável. A BDMH regista apenas o que é codificado. A queda da cama é um evento adverso sensível — hospitais com melhor cultura de notificação e codificação aparecerão com mais episódios, não necessariamente com mais quedas reais. O volume por ULS deve ser interpretado como indicador de registo, não necessariamente de incidência.

2. Causalidade da morte. A presença de W06 num episódio com óbito não implica que a queda foi a causa directa da morte. O doente pode ter falecido pela doença de base, com a queda a ser um evento intercorrente. Nos grupos com diagnóstico principal de pneumonia, sépsis ou COVID-19, a queda é muito provavelmente um complicador, não a causa primária. Não existe, na BDMH, um campo que permita estabelecer cadeia causal directa entre a queda e o óbito.

3. Cobertura temporal. Só disponível com fiabilidade a partir de 2017 (ICD-10). O período 2020–2024 é o mais robusto e comparável. O ano 2024 pode ter dados ainda incompletos.

4. Locais Y923x e ERPI. Os 170 episódios com Y921x (lar/residência institucional) foram excluídos do universo principal por não serem quedas no hospital prestador — o doente caiu no lar e foi transferido. São apresentados na metodologia mas não nas tabelas principais.

5. Completude do Y9223x. Apenas 46% dos episódios têm o código Y9223x explícito. A maioria dos hospitais não regista sistematicamente o local de ocorrência da causa externa — o que explica a baixa proporção de episódios «confirmados» em várias ULS.

Metodologia

Fonte: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS, episódios 2020–2024.

Código de causa externa: W06 (Fall from bed / Queda da cama), ICD-10-CM/PCS, em posição de diagnóstico d2 a d10.

Linha de produção: Internamentos apenas (tipo_port_apr31 = 'Int'). Ambulatório excluído (10 episódios, sem óbitos).

Critério de queda intra-hospitalar — inclusão:

  • Grupo A (confirmado): código Y9223x em qualquer posição de diagnóstico (Y92230 quarto, Y92231 casa de banho, Y92232 corredor, Y92238 outro local, Y92239 local não especificado em hospital).
  • Grupo D (provável): sem código Y92, diagnóstico principal (d1) é doença médica, não traumatismo (não começa por S, T0x ou T1x).

Critério de exclusão:

  • Código Y920x (residência privada) em qualquer posição → queda em casa.
  • Diagnóstico principal = traumatismo (S, T0x, T1x) sem Y9223x → admitido pela queda ocorrida antes da admissão.

Mortalidade: Óbito intra-hospitalar (destino de alta = 20).

Supressão de células: n < 5 apresentado como «<5».

Nomes de hospitais: Estrutura organizacional 2025 (ULS após fusões retroactivas). Caracteres com dupla codificação foram normalizados.

Período: 2020–2024 (5 anos; 924 episódios no universo final).

Reprodutibilidade: consultas SQL utilizadas (3)

Universo final: internamentos com queda da cama hospitalar 2020-2024, totais globais

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Série anual: episódios, óbitos, mortalidade, demora média, perfil etário e de sexo

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Por ULS: episódios, confirmados Y9223x, óbitos, mortalidade, demora média, idade média

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