Partos nos Hospitais do SNS: Evolução 2000–2024
Entre 2000 e 2024, os hospitais do SNS registaram uma queda acentuada no número total de partos — de cerca de 90 500 para 60 600 — refletindo a descida da natalidade em Portugal. A taxa de cesariana subiu de 25,9% em 2000 até um pico de 33,2% em 2008, desceu depois de forma sustentada até 27,2% em 2015 — em linha com as metas nacionais —, mas voltou a crescer a partir de 2018, atingindo 32,2% em 2024. A idade média da mãe no momento do parto aumentou continuamente, passando de 27,5 anos em 2000 para 31,0 anos em 2024.
Partos nos Hospitais do SNS: Evolução 2000–2024
Este estudo analisa a totalidade dos episódios de internamento de parto registados nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) entre 2000 e 2024, com base na Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH/ACSS). São examinadas a evolução do volume total de partos, a taxa de cesariana, o recurso a parto instrumental (ventosa e fórceps), a demora média de internamento e a idade média das mães.
Volume Total de Partos
O número de partos nos hospitais do SNS caiu de forma quase ininterrupta ao longo do período em análise, passando de 90 505 em 2000 para 60 589 em 2024, uma redução de 33%. Esta tendência reflete a queda da natalidade em Portugal, com um agravamento particularmente acentuado a partir de 2009 (crise económica). Nos anos de pandemia (2020–2021), registou-se uma quebra adicional, com o mínimo de 58 480 partos em 2021. Em 2022 e 2023 observou-se uma ligeira recuperação, interrompida novamente em 2024.
Fonte: BDMH/ACSS 2000–2024. Apenas internamentos SNS com diagnóstico de outcome do parto (V27.x ICD-9 / Z37.x ICD-10).
Taxa de Cesariana
A taxa de cesariana percorreu um ciclo notável ao longo dos 25 anos. Partiu de 25,9% em 2000 e subiu continuamente até atingir o pico de 33,2% em 2008, período em que Portugal se destacava negativamente no contexto europeu. A partir de 2009 — e especialmente após a introdução de metas contratualizadas com os hospitais pelo Ministério da Saúde — a taxa foi descendo, chegando a 27,2% em 2015. Contudo, a partir de 2018, a cesariana voltou a crescer, atingindo 32,2% em 2024, valor que ultrapassa o limite de 32,0% recomendado pela OMS (30%) e coloca Portugal novamente numa trajetória preocupante.
Linha laranja tracejada: limiar de referência de 30% (OMS). Cesariana ICD-9: proc. 74.x; ICD-10: 10D00Z0/Z1/Z2.
Composição dos Partos por Tipo
A análise da composição dos partos revela transformações estruturais importantes. O parto por ventosa expandiu-se substancialmente — de cerca de 5 200 casos em 2000 para um pico de ~9 900 em 2018 — antes de estabilizar em torno dos 9 400 em 2024. O fórceps, pelo contrário, entrou em queda acentuada: de mais de 5 000 casos em 2000 para apenas ~1 400 em 2024, refletindo uma mudança geracional nas competências obstétricas. O parto vaginal espontâneo (sem instrumentação nem cesariana) manteve-se a via mais frequente, mas foi-se reduzindo à medida que a cesariana ganhou peso.
Vaginal espontâneo = total − cesariana − ventosa − fórceps. Alguns episódios podem acumular mais de um tipo de procedimento.
Idade da Mãe e Demora Média de Internamento
A idade média da mãe no momento do parto aumentou de forma constante, passando de 27,5 anos em 2000 para 31,0 anos em 2024. Este envelhecimento da maternidade é um fenómeno comum nos países do sul da Europa e está associado a maior escolaridade, participação feminina no mercado de trabalho e dificuldades económicas na aquisição de habitação, entre outros fatores. O aumento da idade materna está também correlacionado com maior prevalência de condições de risco que podem influenciar a via de parto.
No que respeita à demora média de internamento, os partos por cesariana são consistentemente mais longos (4 a 5 dias) do que os partos vaginais (3 dias). Ambas as vias mostram uma ligeira tendência de redução ao longo do tempo, com uma queda mais evidente após 2020.
Calculada sobre os episódios do sexo feminino (sexo=2). Fonte: BDMH/ACSS.
Episódios com dias_int < 0 excluídos (sentinelas). Fonte: BDMH/ACSS.
Hospitais com Maior Volume de Partos (2020–2024)
Os hospitais com maior volume de partos no SNS são predominantemente grandes ULS de áreas metropolitanas e centros regionais. A ULS de Coimbra lidera com média de ~4 257 partos/ano, seguida da ULS do Algarve (~3 539) e da ULS de São José (~3 298). As taxas de cesariana variam substancialmente entre unidades, indo de 26,4% (ULS do Tâmega e Sousa) até 35,7% (ULS do Alto Ave), o que sugere que fatores organizacionais e de prática clínica local desempenham um papel relevante, para além do perfil de risco das utentes.
| Hospital | Total partos (5 anos) | Média anual | % Cesarianas |
|---|---|---|---|
| ULS de Coimbra, E.P.E. | 21 284 | 4257 | 26,6 |
| ULS do Algarve, E.P.E. | 17 697 | 3539 | 30,9 |
| ULS de São José, E.P.E. | 16 492 | 3298 | 31,3 |
| ULS de Braga, E.P.E. | 13 928 | 2786 | 30,7 |
| ULS de Santo António, E.P.E. | 13 600 | 2720 | 27,8 |
| ULS de Amadora / Sintra, E.P.E. | 12 775 | 2555 | 35,1 |
| ULS de Almada / Seixal, E.P.E. | 11 679 | 2336 | 31,6 |
| ULS de Loures / Odivelas, E.P.E. | 11 423 | 2285 | 26,9 |
| ULS do Tâmega e Sousa, E.P.E. | 10 340 | 2068 | 26,4 |
| Hospital de Cascais Dr. José de Almeida | 10 320 | 2064 | 26,9 |
| ULS de Lisboa Ocidental, E.P.E. | 10 000 | 2000 | 32,4 |
| ULS de São João, E.P.E. | 9729 | 1946 | 30,2 |
| ULS do Alto Ave, E.P.E. | 9408 | 1882 | 35,7 |
| ULS da Região de Leiria, E.P.E. | 8920 | 1784 | 29,5 |
| ULS de Gaia / Espinho, E.P.E. | 8819 | 1764 | 31,8 |
| ULS de Viseu Dão-Lafões, E.P.E. | 8699 | 1740 | 29,6 |
| ULS de Santa Maria, E.P.E. | 8674 | 1735 | 26,8 |
| ULS do Estuário do Tejo, E.P.E. | 8282 | 1656 | 31,3 |
| ULS da Região de Aveiro, E.P.E. | 7984 | 1597 | 28,1 |
| ULS do Arco Ribeirinho, E.P.E. | 7214 | 1443 | 30,5 |
Nomes dos hospitais refletem a estrutura orgânica de 2025 (fusões ULS aplicadas retroativamente).
| Ano | Total partos | Cesarianas | % Cesarianas | Ventosa | Fórceps | Idade média mãe | Dias médios cesariana | Dias médios vaginal |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2000 | 90 505 | 23 476 | 25,9 | 5171 | 5042 | 27,5 | 5,3 | 3,2 |
| 2001 | 84 451 | 23 382 | 27,7 | 5437 | 3964 | 27,7 | 5,2 | 3,2 |
| 2002 | 84 334 | 23 456 | 27,8 | 6476 | 3572 | 27,8 | 5 | 3,1 |
| 2003 | 81 221 | 23 722 | 29,2 | 6678 | 2626 | 28,1 | 4,8 | 3 |
| 2004 | 78 689 | 23 558 | 29,9 | 7412 | 2124 | 28,3 | 4,7 | 3 |
| 2005 | 78 292 | 24 439 | 31,2 | 7373 | 1941 | 28,4 | 4,6 | 3 |
| 2006 | 83 407 | 26 746 | 32,1 | 8224 | 2091 | 29 | 4,6 | 3 |
| 2007 | 81 013 | 26 267 | 32,4 | 7900 | 1915 | 29,2 | 4,5 | 3 |
| 2008 | 81 661 | 27 103 | 33,2 | 8249 | 1993 | 29,3 | 4,5 | 3 |
| 2009 | 75 730 | 24 725 | 32,6 | 7868 | 1843 | 29,2 | 4,5 | 3,1 |
| 2010 | 80 392 | 25 494 | 31,7 | 9149 | 2080 | 29,6 | 4,5 | 3,1 |
| 2011 | 76 952 | 23 834 | 31 | 9822 | 2108 | 29,9 | 4,4 | 3,1 |
| 2012 | 71 550 | 22 060 | 30,8 | 9681 | 2119 | 30 | 4,4 | 3,1 |
| 2013 | 65 237 | 19 745 | 30,3 | 8818 | 1868 | 30,2 | 4,6 | 3,2 |
| 2014 | 64 231 | 17 802 | 27,7 | 8982 | 1875 | 30,5 | 4,6 | 3,2 |
| 2015 | 66 473 | 18 072 | 27,2 | 9611 | 1874 | 30,7 | 4,6 | 3,2 |
| 2016 | 67 818 | 18 531 | 27,3 | 9752 | 1901 | 30,9 | 4,5 | 3,1 |
| 2017 | 66 090 | 18 188 | 27,5 | 9568 | 2192 | 30,9 | 4,6 | 3,1 |
| 2018 | 66 718 | 18 787 | 28,2 | 9905 | 1829 | 31 | 4,6 | 3,2 |
| 2019 | 66 092 | 19 343 | 29,3 | 9671 | 1874 | 31,1 | 4,5 | 3,2 |
| 2020 | 63 178 | 18 664 | 29,5 | 9804 | 1588 | 31,1 | 4,1 | 3 |
| 2021 | 58 480 | 17 569 | 30 | 8994 | 1330 | 31,2 | 4,1 | 3 |
| 2022 | 61 511 | 19 115 | 31,1 | 9285 | 1275 | 31,1 | 4 | 3 |
| 2023 | 63 675 | 20 175 | 31,7 | 9592 | 1398 | 31 | 4,1 | 3,1 |
| 2024 | 60 589 | 19 529 | 32,2 | 9380 | 1356 | 31 | 4,1 | 3,1 |
Fonte: BDMH/ACSS. Apenas internamentos SNS financiados (sns=1, tipo_port_apr31='Int').
Metodologia
Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS — episódios de internamento 2000–2024.
Definição de episódio de parto: episódio de internamento SNS (sns = 1, tipo_port_apr31 = 'Int') com diagnóstico de outcome do parto em qualquer posição de diagnóstico (d1–d10): código V27.x (ICD-9-CM, anos 2000–2016) ou Z37.x (ICD-10-CM/PCS, a partir de 2016; o campo icd_versao por episódio determina o sistema aplicado).
Definição de cesariana: presença de procedimento obstétrico de cesariana em qualquer posição (p1–p10): códigos 74.x (ICD-9) ou 10D00Z0 (alta), 10D00Z1 (baixa) ou 10D00Z2 (extraperitoneal) (ICD-10).
Parto instrumental por ventosa: proc. 727.x (ICD-9) ou 10D07Z6 (ICD-10). Fórceps: proc. 720.x–723.x (ICD-9) ou 10D07Z3/Z4/Z5 (ICD-10).
Exclusões: episódios com dias_int < 0 (sentinelas) excluídos do cálculo de demora média. A idade média da mãe foi calculada apenas sobre episódios do sexo feminino (sexo = 2).
Notas sobre a série temporal: não foram aplicados filtros de quebra de série em 2007 (entrada de linhas ambulatórias) nem em 2013 (alteração da definição de internamento), pois ambas as quebras têm impacto mínimo na definição utilizada (partos com outcome de parto documentado = internamentos genuínos). O impacto da pandemia COVID-19 é visível em 2020–2021. Os nomes dos hospitais refletem a estrutura orgânica de 2025 (fusões ULS aplicadas retroativamente pela ACSS).