Onda de Calor de 2003 — Impacto nos Internamentos e Mortalidade Hospitalar em Portugal
por Pedro Vieira
A onda de calor de 29 de Julho a 14 de Agosto de 2003 — a de maior duração registada em Portugal desde 1941, segundo o IPMA — deixou uma marca inequívoca nos dados hospitalares do SNS: as mortes hospitalares aumentaram 35% face aos 17 dias precedentes, com quase 700 óbitos em excesso relativamente ao mesmo período de 2002. O impacto concentrou-se nos idosos com 75 ou mais anos e nas patologias directamente associadas ao calor extremo, como perturbações electrolíticas, insuficiência renal aguda e pneumonia.
Contexto
A onda de calor de 2003 foi classificada pelo IPMA como a de maior duração registada em Portugal desde 1941, com 17 dias de temperaturas extremas (29 de Julho a 14 de Agosto) em vastas áreas do interior Norte, Centro e Sul do país. Para avaliar o seu impacto nos cuidados hospitalares do SNS, comparámos os episódios de internamento e as mortes intra-hospitalares ocorridos durante a onda com os 17 dias imediatamente anteriores (12–28 de Julho de 2003) e, para controlo da sazonalidade normal, com o mesmo período calendário de 2002.
1. Visão Geral dos Dois Períodos de 17 Dias
O número total de internamentos subiu apenas 1,7% durante a onda de calor (41 582 → 42 305 episódios), o que à primeira vista parece modesto. O sinal verdadeiramente alarmante está na mortalidade: +614 mortes hospitalares (+35%) num intervalo de apenas 17 dias. Isto indica que não foi o afluxo de novos doentes a caracterizar a crise, mas sim a gravidade acrescida dos que já estavam internados ou que acorreram ao hospital em estados de descompensação avançada.
| Período | Internamentos | Mortes hospitalares | Taxa de mortalidade (%) |
|---|---|---|---|
| Pré-onda (12–28 Jul 2003) | 41 582 | 1744 | 4,19 |
| Onda de calor (29 Jul–14 Ago 2003) | 42 305 | 2358 | 5,57 |
| Variação absoluta | 723 | 614 | |
| Variação relativa (%) | 1,7 | 35,2 |
Episódios de internamento SNS (tipo_port_apr31 = 'Int'). Mortalidade intra-hospitalar: dsp = 20.
2. Excesso face à Sazonalidade Normal (comparação com 2002)
Para distinguir o efeito da onda de calor da variação sazonal habitual de Verão, comparámos o período 29 Jul–14 Ago de 2003 com o mesmo intervalo de 2002. O total dos 34 dias (12 Jul–14 Ago) em ambos os anos mostra um excesso de 679 mortes hospitalares em 2003 face a 2002, correspondendo a +19,8% acima do esperado.
| Ano | Internamentos | Mortes hospitalares | Taxa de mortalidade (%) |
|---|---|---|---|
| 2002 | 79 764 | 3423 | 4,29 |
| 2003 | 83 887 | 4102 | 4,89 |
| Excesso 2003 vs 2002 | 4123 | 679 |
Mesmo intervalo calendário (12 Jul–14 Ago) em anos consecutivos. Fonte: BDMH/ACSS.
3. Impacto por Faixa Etária
A análise por grupo etário revela um padrão inequívoco: quanto mais idoso, maior o excesso de mortalidade. Os grupos com 65 anos ou mais foram os mais gravemente afectados, com a faixa dos 85+ a registar uma taxa de mortalidade intra-hospitalar de 23%, contra 19% no período anterior. As crianças com menos de 1 ano também apresentam um sinal preocupante, embora com números absolutos menores.
Internamentos SNS 2003. Episódios com idade 0–110 anos. Mortalidade intra-hospitalar (dsp=20).
| Faixa etária | Intern. pré-onda | Mortes pré-onda | Taxa pré (%) | Intern. onda calor | Mortes onda calor | Taxa onda (%) | Var. mortes (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| < 1 ano | 5054 | 9 | 0,18 | 5286 | 22 | 0,42 | 144,4 |
| 1–14 anos | 2646 | 6 | 0,23 | 2773 | 3 | 0,11 | -50 |
| 15–44 anos | 12 400 | 114 | 0,92 | 12 509 | 123 | 0,98 | 7,9 |
| 45–64 anos | 8218 | 295 | 3,59 | 7830 | 334 | 4,27 | 13,2 |
| 65–74 anos | 6100 | 390 | 6,39 | 5862 | 516 | 8,8 | 32,3 |
| 75–84 anos | 5337 | 583 | 10,92 | 5673 | 813 | 14,33 | 39,5 |
| 85+ anos | 1827 | 347 | 18,99 | 2370 | 546 | 23,04 | 57,4 |
A faixa 1–14 anos é a única com redução, com números absolutos muito pequenos.
4. Causas com Maior Excesso de Internamentos
A análise por causa (classificação CCS/AHRQ, harmonizada para ICD-9) identifica as patologias com crescimento mais anómalo durante a onda de calor face ao período anterior. As perturbações de fluidos e electrólitos e a insuficiência renal aguda destacam-se como os indicadores mais directos do impacto fisiológico do calor extremo.
Causas com ≥ 20 episódios em ambos os períodos. Classificação CCS/AHRQ. BDMH 2003.
| Causa (CCS) | Intern. pré-onda | Intern. onda calor | Var. intern. (%) | Mortes pré-onda | Mortes onda calor | Var. mortes (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Perturbações fluidos/electrólitos | 160 | 399 | 149,4 | 13 | 50 | 284,6 |
| Insuficiência renal aguda | 75 | 171 | 128 | 10 | 23 | 130 |
| Febre de origem desconhecida | 298 | 494 | 65,8 | 27 | 68 | 151,9 |
| Septicemia | 88 | 137 | 55,7 | 29 | 67 | 131 |
| Bronquite aguda | 139 | 208 | 49,6 | 12 | 28 | 133,3 |
| Outras doenças respiratórias inf. | 458 | 655 | 43 | 66 | 151 | 128,8 |
| Pneumonia | 966 | 1350 | 39,8 | 196 | 359 | 83,2 |
| Infecções urinárias | 503 | 685 | 36,2 | 21 | 46 | 119 |
| Gastroenterite não infecciosa | 241 | 330 | 36,9 | <5 | 14 |
Causas com ≥ 20 episódios em ambos os períodos. Mortalidade intra-hospitalar (dsp=20).
5. Comparação com o Mesmo Período de 2002 (excesso anómalo)
Para confirmar que os aumentos acima não são mero reflexo da sazonalidade estival, a tabela seguinte compara a onda de calor de 2003 com o mesmo intervalo calendário de 2002. As causas directamente ligadas ao calor extremo destacam-se com clareza: as perturbações de fluidos/electrólitos aumentaram +185% e a insuficiência renal aguda +97% face a 2002, valores muito acima de qualquer variação sazonal normal.
| Causa (CCS) | Internamentos 2002 | Internamentos 2003 | Var. intern. (%) | Mortes 2002 | Mortes 2003 | Var. mortes (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Perturbações fluidos/electrólitos | 140 | 399 | 185 | 18 | 50 | 177,8 |
| Insuficiência renal aguda | 87 | 171 | 96,6 | 14 | 23 | 64,3 |
| Bronquite aguda | 110 | 208 | 89,1 | 10 | 28 | 180 |
| Septicemia | 85 | 137 | 61,2 | 36 | 67 | 86,1 |
| Queimaduras | 79 | 127 | 60,8 | <5 | 6 | |
| Pneumonia | 855 | 1350 | 57,9 | 161 | 359 | 123 |
| Outras doenças respiratórias inf. | 417 | 655 | 57,1 | 60 | 151 | 151,7 |
| Febre de origem desconhecida | 342 | 494 | 44,4 | 29 | 68 | 134,5 |
Período: 29 Jul – 14 Ago em ambos os anos. Fonte: BDMH/ACSS.
6. Golpe de Calor e Patologia Directa — Códigos ICD-9
A BDMH regista episódios codificados explicitamente com patologia pelo calor (família ICD-9 992.x) e distúrbios hidroelectrolíticos associados (276.x). O golpe de calor directo (992.0) aparece sub-notificado — apenas 17 episódios durante a onda —, o que é consistente com a prática clínica internacional: o calor extremo mata sobretudo como amplificador de patologias preexistentes, sendo codificado o diagnóstico principal da descompensação e não o agente ambiental.
O indicador mais revelador é a deplecção de volume (desidratação, código 276.5): triplicou durante a onda de calor (99 → 313 episódios, +216%), com as mortes a quintuplicar (9 → 48).
| Código ICD-9 | Descrição | Episódios pré-onda | Episódios onda calor | Mortes pré-onda | Mortes onda calor |
|---|---|---|---|---|---|
| 992.0 | Golpe de calor e insolação | 0 | 17 | 0 | <5 |
| 276.5 | Deplecção de volume (desidratação) | 99 | 313 | 9 | 48 |
| 276.0 | Hiperosmolaridade / hipernatremia | 7 | 14 | <5 | 0 |
| 276.8 | Hipocalemia | 9 | 19 | 0 | 0 |
| 276.1 | Hiposmolaridade / hiponatremia | 34 | 27 | <5 | <5 |
Episódios de internamento SNS 2003. ICD-9-CM. O golpe de calor directo está sub-notificado como diagnóstico principal.
7. Causas de Internamento que Tipicamente Aumentam numa Onda de Calor
Com base na evidência científica e confirmadas pelos dados acima, as causas de internamento que aumentam sistematicamente durante ondas de calor agrupam-se em três níveis de causalidade:
Directamente causadas pelo calor:
- Golpe de calor e insolação (hipertermia ≥ 40 °C com disfunção do sistema nervoso central)
- Exaustão pelo calor (desidratação com temperatura corporal normal)
- Deplecção de volume / desidratação (especialmente em idosos, crianças e doentes polimedicados)
- Perturbações electrolíticas (hipernatremia, hipocalemia)
Agravadas ou precipitadas pelo calor (causas indirectas):
- Insuficiência renal aguda (rabdomiólise + desidratação + vasoconstrição renal)
- Pneumonia e doenças respiratórias inferiores (ar quente e seco + imunodepressão por hipertermia; idosos acamados aspiram)
- Insuficiência cardíaca descompensada (vasodilatação periférica + taquicardia + aumento do consumo de oxigénio)
- Acidente vascular cerebral isquémico (hemoconcentração + hipercoagulabilidade)
- Diabetes descompensada (desidratação eleva a glicemia; cetoacidose)
- Infecções urinárias (desidratação concentra a urina, facilitando a multiplicação bacteriana)
- Septicemia (progressão de infecções respiratórias e urinárias mal controladas)
- Gastroenterite (contaminação alimentar facilitada pelas altas temperaturas)
Com sinal nos dados mas de interpretação mais cautelosa:
- Queimaduras (incêndios florestais associados a vagas de calor; actividade ao ar livre)
- Perturbações psiquiátricas (alguns psicofármacos — antipsicóticos, anticolinérgicos — perturbam a termorregulação)
- Febre de etiologia indeterminada (muitos golpes de calor entram com este diagnóstico, por sub-codificação)
Síntese
A onda de calor de 2003 deixou uma marca inequívoca e quantificável nos dados hospitalares do SNS português. O sinal não reside principalmente no volume de internamentos (+1,7%), mas na mortalidade hospitalar, que aumentou 35% nos 17 dias da onda face aos 17 dias anteriores, e em quase 20% face ao mesmo período de 2002. As causas mais sobrerepresentadas — perturbações electrolíticas (+149%), insuficiência renal aguda (+128%), pneumonia (+40%) e febre de origem desconhecida (+66%) — são todas fisiopatologicamente compatíveis com o calor extremo prolongado. Os grupos mais vulneráveis foram os idosos com 75 ou mais anos, com taxas de mortalidade intra-hospitalar que atingiram os 14–23% durante a onda, e os recém-nascidos, cujo risco de morte hospitalar mais do que duplicou.
Metodologia
Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS — episódios de internamento de hospitais do SNS, ano 2003 (comparação com 2002 para análise de excesso sazonal).
Linha de produção: Apenas internamentos (tipo_port_apr31 = 'Int'). Excluídos episódios de cirurgia ambulatória e ambulatório médico.
Períodos analisados:
- Pré-onda: 12 a 28 de Julho de 2003 (17 dias)
- Onda de calor: 29 de Julho a 14 de Agosto de 2003 (17 dias, conforme delimitação IPMA)
- Controlo sazonal: mesmo intervalo (12 Jul–14 Ago) em 2002
Mortalidade: Definida como alta com dsp = 20 (falecido). Mortalidade intra-hospitalar, não mortalidade a 30 dias.
Classificação de causas: Sistema CCS/AHRQ (Clinical Classifications Software), que harmoniza códigos ICD-9-CM e ICD-10-CM numa taxonomia única de ~283 categorias. Todos os episódios de 2003 utilizam ICD-9-CM (icd_versao = '9'). A causa principal é o diagnóstico principal do episódio (campo d1).
Códigos directos de patologia pelo calor: família ICD-9 992.x (efeitos do calor e da luz) e 276.x (perturbações de fluidos e electrólitos), analisados separadamente.
Supressão de células: células com n < 5 apresentadas como '<5'.
Nota sobre sub-notificação: O golpe de calor directo (992.0) aparece sub-notificado como diagnóstico principal, fenómeno consistente com a literatura internacional — o calor actua frequentemente como precipitante de patologias preexistentes, sendo codificada a descompensação clínica e não o agente ambiental.