Neoplasia Maligna dos Ossos e Cartilagens Articulares no SNS (2000–2024)
por Paulo Tavares
Análise dos episódios de internamento e ambulatório com diagnóstico de neoplasia maligna dos ossos e cartilagens articulares (ICD-9: 170.x; ICD-10: C40.x e C41.x) nos hospitais do SNS português entre 2000 e 2024, cobrindo 31 150 episódios e cerca de 999 óbitos intra-hospitalares. O relatório examina a distribuição anual de doentes distintos por hospital, o perfil demográfico por idade e sexo, e a mortalidade intra-hospitalar, evidenciando a forte concentração em centros de referência e a diferença marcante de mortalidade entre hospitais especializados e periféricos.
Neoplasia Maligna dos Ossos e Cartilagens Articulares no SNS (2000–2024)
Este relatório analisa os episódios hospitalares com diagnóstico de neoplasia maligna dos ossos e cartilagens articulares registados nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde português ao longo de 25 anos. O grupo compreende os sarcomas ósseos primários (como o osteossarcoma e o sarcoma de Ewing) e as neoplasias ósseas de outras localizações, incluindo casos com componente metastático. Os códigos utilizados são: ICD-9-CM: 170.x; ICD-10-CM: C40.x (membros) e C41.x (outras localizações e não especificadas).
Distribuição Anual — Doentes Distintos a Nível Nacional
A série arranca em 2000 com apenas 40 doentes identificados, reflexo da cobertura ainda muito parcial do sistema de linkage de utentes nos primeiros anos (até 26% de episódios sem identificação em 2000). Em 2007 verifica-se um salto estrutural — com a entrada das linhas ambulatórias no extracto — que não deve ser interpretado como aumento real da incidência. A partir de 2007 a série estabiliza numa trajectória crescente, de cerca de 300 doentes distintos para um patamar de 400–450/ano na segunda metade da série, com pico em 2019 (446 doentes). O ano de 2020 regista uma quebra atribuível ao impacto da pandemia de COVID-19 sobre a actividade hospitalar electiva.
Fonte: BDMH/ACSS 2000–2024. ⚠️ Série com rupturas: 2000–2006 subavaliado (linkage parcial); 2007 salto estrutural (entrada ambulatórios); 2020 impacto COVID-19.
Perfil Demográfico — Idade e Sexo
Os homens representam a maioria dos episódios (17 924 vs. 13 226 nas mulheres, ou seja, cerca de 58% do total) e são admitidos em média dois anos mais cedo (mediana de 33 anos nos homens vs. 38 anos nas mulheres). Este padrão reflecte a maior incidência masculina dos sarcomas ósseos primários, nomeadamente o osteossarcoma e o sarcoma de Ewing.
O grupo etário com maior volume de episódios é o dos 10–19 anos, com 7 922 episódios no total (4 653 masculinos e 3 269 femininos) — o que é clinicamente consistente com o pico de incidência dos sarcomas ósseos na adolescência, período de crescimento ósseo acelerado.
Fonte: BDMH/ACSS. Inclui todos os episódios com diagnóstico 170.x/C40.x/C41.x em qualquer posição.
Mortalidade Intra-Hospitalar por Idade e Sexo
A mortalidade intra-hospitalar apresenta um gradiente etário muito marcado: é quase nula nos grupos mais jovens (0,2–0,9% até aos 19 anos) e escala de forma acelerada a partir dos 50 anos, atingindo 14,4% nas mulheres com 80 ou mais anos e 13,7% nos homens da mesma faixa. Esta inflexão aos 50 anos marca clinicamente a transição entre neoplasias ósseas primárias (jovens, com maior potencial de tratamento curativo) e neoplasias metastáticas (idosos, com prognóstico muito mais reservado — metástases de cancros da mama, próstata e pulmão).
Nos grupos acima dos 60 anos, os homens apresentam mortalidade sistematicamente superior às mulheres: 5,6% vs. 4,5% (60–69 anos), 9,4% vs. 6,8% (70–79 anos). Esta diferença é provavelmente explicada pela maior carga de metástases ósseas de carcinoma da próstata nos homens idosos.
Fonte: BDMH/ACSS 2000–2024. Mortalidade intra-hospitalar = alta com destino 'falecido' (dsp=20).
Mortalidade Intra-Hospitalar por Ano e Sexo (2007–2024)
Considerando apenas o período com série estável (a partir de 2007), a taxa de mortalidade intra-hospitalar oscila entre 1,5% e 5,1% para ambos os sexos, sem tendência de redução clara ao longo do tempo. O ano de 2015 destaca-se pelo valor mais elevado em ambos os sexos (5,1% feminino; 4,6% masculino), sem explicação estrutural evidente nos dados disponíveis. Os homens tendem a ter mortalidade ligeiramente superior, embora a diferença não seja sistemática em todos os anos.
Fonte: BDMH/ACSS. Série restrita a 2007–2024 por cobertura parcial anterior. 2020: impacto COVID-19.
Mortalidade Intra-Hospitalar por Hospital
O dado mais saliente de toda a análise é a diferença abissal de mortalidade entre centros de referência e hospitais periféricos. Os grandes centros oncológicos e universitários apresentam taxas entre 1,3% e 2,9%, enquanto alguns hospitais de menor dimensão registam valores que vão de 10% a mais de 36%.
Nota interpretativa essencial: esta diferença reflecte fundamentalmente um efeito de selecção de case-mix, e não necessariamente diferenças de qualidade de cuidados. Os centros de referência tratam maioritariamente doentes em tratamento activo (quimioterapia, cirurgia de sarcomas), enquanto os hospitais periféricos recebem sobretudo doentes com doença avançada ou metastática que não foram referenciados, ou que se apresentaram em fase terminal. A mortalidade elevada na periferia é, em larga medida, o resultado desta composição diferente de doentes.
Fonte: BDMH/ACSS. Apenas hospitais com ≥ 30 episódios no período. Ordenado da maior para a menor taxa. A diferença reflecte principalmente case-mix distinto, não qualidade de cuidados.
| Hospital | Episódios | Óbitos | Mortalidade (%) |
|---|---|---|---|
| ULS Cova da Beira | 76 | 28 | 36,8 |
| ULS Estuário do Tejo | 55 | 20 | 36,4 |
| ULS Região de Aveiro | 58 | 19 | 32,8 |
| ULS Baixo Alentejo | 91 | 28 | 30,8 |
| ULS do Algarve | 366 | 47 | 12,8 |
| ULS da Lezíria | 129 | 14 | 10,9 |
| ULS São José | 461 | 34 | 7,4 |
| ULS Santa Maria | 1848 | 54 | 2,9 |
| ULS de Braga | 646 | 16 | 2,5 |
| IPO Porto | 5898 | 112 | 1,9 |
| IPO Lisboa | 4131 | 74 | 1,8 |
| ULS Santo António | 3076 | 53 | 1,7 |
| ULS de Coimbra | 8127 | 112 | 1,4 |
| ULS Arco Ribeirinho | 1882 | 27 | 1,4 |
| ULS São João | 1752 | 22 | 1,3 |
Ordenado da maior para a menor taxa de mortalidade. Hospitais com < 5 óbitos: valor suprimido.
Evolução da Mortalidade nos Principais Centros (por período)
Analisando três períodos distintos nos hospitais com maior volume, destaca-se a trajectória da ULS Santa Maria, que reduziu a sua taxa de mortalidade de 7,7% (pré-2007) para 5,9% (2007–2016) e depois para 1,8% em 2017–2024, alinhando-se com os demais grandes centros. Em sentido contrário, a ULS do Algarve regista um agravamento marcado entre períodos (9,5% → 23,4%), embora o volume de episódios seja reduzido e o case-mix provavelmente distinto. O IPO Porto apresenta uma subida moderada da mortalidade no período mais recente (1,9% → 2,6%), enquanto a ULS Santo António melhora (2,1% → 1,5%).
| Hospital | Pré-2007 (%) | 2007–2016 (%) | 2017–2024 (%) |
|---|---|---|---|
| ULS de Coimbra | 3,9 | 1,2 | 1,7 |
| IPO Porto | 2,1 | 1,9 | 2,6 |
| IPO Lisboa | 0 | 1,9 | 2 |
| ULS Santo António | 1,8 | 2,1 | 1,5 |
| ULS São João | 0 | 0,8 | 1,5 |
| ULS Santa Maria | 7,7 | 5,9 | 1,8 |
| ULS do Algarve | 12,3 | 9,5 | 23,4 |
| ULS de Braga | 11,1 | 0,9 | 3,4 |
Pré-2007: cobertura parcial, volumes reduzidos — interpretar com cautela.
Metodologia
Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS — episódios de internamento e ambulatório no SNS português, 2000–2024 (38,5 milhões de episódios).
Selecção de episódios: Todos os episódios com diagnóstico de neoplasia maligna dos ossos e cartilagens articulares em qualquer posição diagnóstica (d1 a d10). Códigos utilizados: ICD-9-CM 170.x (2000–2016); ICD-10-CM C40.x e C41.x (2017–2024; alguns episódios de 2016 já em ICD-10). Episódios com identificador de utente sentinela ou nulo excluídos.
Doentes distintos: Contagem de n_ficticio_utente distintos por ano e hospital. O linkage de utentes é fraco antes de 2006 (até 26% sem identificação em 2000), pelo que os volumes de 2000–2005 estão subavaliados.
Rupturas de série: (1) 2007 — entrada das linhas ambulatórias no extracto, com salto estrutural de volume; (2) 2013 — alteração da definição de internamento; (3) 2020 — impacto da pandemia COVID-19. As comparações de volume entre períodos anteriores e posteriores a estas datas devem ser feitas com cautela.
Mortalidade intra-hospitalar: Definida como episódios com destino de alta dsp = 20 (falecido). Não inclui mortes ocorridas após a alta.
Nomes de hospital: Reflectem a estrutura organizacional de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente pela ACSS); os nomes históricos das instituições podem diferir.
Supressão de células: Células com n < 5 não são apresentadas. Hospitais com menos de 30 episódios no período total excluídos da análise por hospital.