Miocardite e Pericardite no SNS (2019–2024): Tendências de Internamento e Reinternamentos Cardíacos em Jovens do Sexo Masculino
por Pedro Almeida Vieira
Entre 2019 e 2024, os internamentos por miocardite no SNS cresceram 30% no total, mas 66% no grupo dos 18–30 anos — com o pico em 2022, coincidindo com o período de vacinação em massa com vacinas de mRNA. A pericardite, pelo contrário, não exibiu qualquer sinal de crescimento neste grupo etário no mesmo período. A análise de coortes de jovens do sexo masculino com primeiro internamento por miocardite entre 2017 e 2022 revela que a taxa de reinternamento cardíaco nos anos seguintes foi consistentemente mais elevada na coorte de 2021 (11,8% em 3 anos) do que em qualquer coorte anterior ao período pandémico.
Contexto
A miocardite e a pericardite são inflamações do músculo cardíaco e do pericárdio, respectivamente, com etiologias diversas — infecciosas (sobretudo virais), auto-imunes e, mais recentemente, associadas a vacinas de mRNA contra a COVID-19. A partir de meados de 2021, vários sistemas de farmacovigilância internacionais identificaram um sinal de miocardite/pericardite em jovens do sexo masculino após vacinação com BNT162b2 (Pfizer/BioNTech) e mRNA-1273 (Moderna). Este relatório analisa os internamentos por estas duas patologias nos hospitais do SNS português entre 2019 e 2024, com foco no grupo etário dos 18 aos 30 anos, e estuda prospectivamente os reinternamentos cardíacos em coortes de jovens homens com primeiro internamento por miocardite entre 2017 e 2022.
Internamentos anuais: Miocardite vs. Pericardite (2019–2024)
Fonte: BDMH/ACSS. Internamentos SNS (tipo_port_apr31='Int'). Diagnóstico principal: ICD-9 422x/4290; ICD-10 I40x/I41/I514.
Fonte: BDMH/ACSS. Internamentos SNS. Diagnóstico principal: ICD-9 420x/4231/4232; ICD-10 I30x/I310/I311/I32.
Contraste entre as duas patologias
O crescimento da miocardite no grupo 18–30 anos entre 2019 e 2022 (+66%) não tem paralelo na pericardite. Nesta última, o volume no grupo 18–30 anos em 2022 (135 casos) ficou mesmo abaixo do nível pré-pandémico de 2019 (140 casos), evidenciando que a recuperação observada no total da pericardite não é impulsionada pelo grupo etário jovem. A diferença de padrões entre as duas patologias é consistente com a literatura internacional, que identifica a miocardite — e não a pericardite — como o principal sinal associado às vacinas de mRNA em jovens do sexo masculino.
Evolução mensal da miocardite em homens com menos de 30 anos (2019–2024)
Apenas homens com menos de 30 anos. O aumento a partir de Julho de 2021 é visível e sustentado até 2022. Em 2023-2024 os valores permanecem acima do nível pré-pandémico.
Análise de coortes: reinternamentos cardíacos em jovens homens com miocardite
Identificaram-se todos os doentes do sexo masculino com menos de 30 anos cujo primeiro internamento por miocardite (diagnóstico principal) ocorreu entre 2017 e 2022, e seguiu-se prospectivamente cada coorte para contabilizar reinternamentos posteriores com diagnóstico principal incluído no sistema «Diseases of the circulatory system» (CCS/AHRQ). As coortes são mutuamente exclusivas: cada doente é contado apenas no ano do seu primeiro episódio. A ligação longitudinal é feita por identificador de utente pseudonimizado (n_ficticio_utente), fiável a partir de 2017 (<1% de episódios sem identificação).
| Coorte | Janela seguimento | Doentes | Com reint. cardíaco | % com reint. | Média reint. (quem teve) | Mediana | Máx. |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2017 | 3 anos (2018–2020) | 112 | 5 | 4,5% | 1,00 | 1 | 1 |
| 2018 | 3 anos (2019–2021) | 111 | 10 | 9,0% | 1,40 | 1 | 3 |
| 2019 | 3 anos (2020–2022) | 121 | 10 | 8,3% | 1,50 | 1 | 3 |
| 2020 | 3 anos (2021–2023) | 83 | 6 | 7,2% | 1,33 | 1 | 2 |
| 2021 | 3 anos (2022–2024) | 153 | 18 | 11,8% | 1,67 | 1 | 12 |
| 2022 ⚠ | 2 anos (2023–2024) | 221 | 20 | 9,0% | 1,55 | 1 | 5 |
| 2017 † | 7 anos (2018–2024) | 112 | 8 | 7,1% | 1,00 | 1 | 1 |
⚠ Coorte 2022: janela de apenas 2 anos (seguimento incompleto — os reinternamentos estão subestimados face às coortes anteriores). † Linha adicional com seguimento máximo disponível para a coorte 2017.
A coorte de 2022 tem apenas 2 anos de seguimento (barra a transparência reduzida) — subestimação expectável. A coorte de 2021 regista a taxa mais elevada de todo o período com seguimento completo de 3 anos.
Distribuição do número de reinternamentos por doente
Em todas as coortes, a mediana é 1: a maioria dos doentes que regressa ao hospital fá-lo apenas uma vez. A média ligeiramente superior a 1 reflecte um pequeno número de casos com doença recorrente. O caso mais extremo é um doente da coorte de 2021 com 12 reinternamentos entre 2022 e 2024, todos com códigos de miocardite, cardiomiopatia ou pericardite — padrão clínico compatível com doença cardíaca inflamatória crónica recorrente, provavelmente com episódios de transferência entre serviços registados como internamentos distintos.
| N.º reinternamentos | 2017 | 2018 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 ⚠ |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 0 (sem reinternamento) | 107 | 101 | 111 | 77 | 135 | 201 |
| 1 | 5 | 7 | 7 | <5 | 16 | 15 |
| 2 | 2 | 1 | 2 | 1 | 2 | |
| 3–5 | 1 | 2 | 3 | |||
| 6+ | 1 |
Células nulas = zero casos. ⚠ Coorte 2022: apenas 2 anos de seguimento.
Efeito do alargamento do seguimento (coorte 2017)
A coorte de 2017 seguida por apenas 3 anos tinha uma taxa de reinternamento cardíaco de 4,5% (5 doentes em 112). Com o seguimento alargado até 2024 (7 anos), essa taxa sobe para 7,1% (8 doentes) — acrescentando apenas 3 doentes em mais 4 anos de observação. Isto indica que a maioria dos reinternamentos ocorre nos primeiros 3 anos após o episódio índice, o que confere robustez à comparação entre coortes com janelas de 3 anos.
Ressalvas e limitações
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Causalidade: os dados são estritamente observacionais. O aumento de miocardite em jovens do sexo masculino a partir de meados de 2021 é temporalmente coincidente com a vacinação em massa com vacinas de mRNA, mas não estabelece por si só causalidade. Uma maior sensibilização clínica e diagnóstica para esta patologia neste período poderá contribuir para o sinal observado.
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Diagnóstico principal: a análise restringe-se a episódios em que miocardite ou pericardite figuram como diagnóstico principal (campo d1). Casos em que estas patologias surgem como diagnóstico secundário não são captados, pelo que os números representam um limite inferior da incidência hospitalar.
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Grupo etário: o grupo «18–30 anos» inclui ambos os sexos nos totais gerais de internamento; a análise de coortes de reinternamento restringe-se a doentes do sexo masculino, conforme solicitado.
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Coorte 2020: o número reduzido de doentes (83 vs. ~110–120 nos anos adjacentes) reflecte o impacto da pandemia de COVID-19 nos internamentos por causas não-COVID durante 2020.
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Coorte 2022 (seguimento parcial): com apenas 2 anos de seguimento disponíveis na base de dados, a taxa de reinternamento desta coorte (9,0%) está certamente subestimada face às coortes com 3 anos de janela. Não deve ser comparada directamente com as coortes 2017–2021 sem esta ressalva.
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Ligação longitudinal: a ligação por n_ficticio_utente é fiável a partir de 2017 (<1% de episódios sem identificação). Reinternamentos ocorridos fora do SNS (sector privado) não são captados.
Metodologia
Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS, episódios de internamento SNS 2017–2024 (38,5 milhões de episódios totais na base).
Filtros aplicados:
- Tipo de produção: internamento (
tipo_port_apr31 = 'Int') - Anos: 2019–2024 para análise de tendências; 2017–2024 para análise de coortes
- Diagnóstico principal (campo
d1):- Miocardite: ICD-9
422x,4290; ICD-10I40x,I41,I514 - Pericardite: ICD-9
420x,4231,4232; ICD-10I30x,I310,I311,I32
- Miocardite: ICD-9
- Coortes de reinternamento: sexo masculino (
sexo = 1), idade < 30 anos à data de entrada, identificador de utente válido e não-sentinela
Definição de reinternamento cardíaco: episódio de internamento posterior à data de alta do episódio índice, com diagnóstico principal classificado no sistema CCS «Diseases of the circulatory system» (AHRQ Clinical Classifications Software, harmonizado para ICD-9 e ICD-10).
Coortes: cada doente é atribuído ao ano do seu primeiro internamento por miocardite no período 2017–2022; as coortes são mutuamente exclusivas. A janela de seguimento é de 3 anos civis para as coortes 2017–2021 e de 2 anos civis para a coorte 2022.
Quebras de série: o período 2020 deve ser interpretado com cautela devido ao impacto da pandemia de COVID-19 nos volumes de internamento. Não existem quebras de definição de internamento neste período (a quebra de 2013 não afecta os anos aqui analisados).
Codificação ICD: ICD-10-CM/PCS a partir de 2017 (com 5,6% de episódios de 2016 já em ICD-10); o campo icd_versao identifica o sistema por episódio.