Lúpus Eritematoso Sistémico nos Hospitais Portugueses: Análise 2000–2024
Entre 2000 e 2024, os hospitais do SNS registaram 44 093 episódios associados a Lúpus Eritematoso Sistémico (LES), envolvendo 12 841 doentes identificáveis. A doença afeta predominantemente mulheres (82,5% dos episódios) em idade fértil e activa, com uma tendência de crescimento sustentado no volume de internamentos — de ~1 100 em 2000 para ~1 950 em 2024. A mortalidade intra-hospitalar mantém-se nos 3–4%, com a demora média de internamento a reduzir de 9,5 para 7,5 dias, reflexo da melhoria terapêutica e da crescente ambulatorização dos cuidados.
Lúpus Eritematoso Sistémico nos Hospitais Portugueses
O Lúpus Eritematoso Sistémico (LES) é uma doença autoimune crónica multissistémica que provoca inflamação generalizada e danos em múltiplos órgãos — rins, pulmões, coração, sistema nervoso e pele. Afeta desproporcionalmente mulheres em idade fértil e constitui uma causa relevante de internamento hospitalar recorrente. Esta análise cobre 25 anos de episódios hospitalares no SNS português (2000–2024), combinando as versões ICD-9-CM (até 2016) e ICD-10-CM/PCS (a partir de 2017).
Evolução Anual dos Episódios
O volume total de episódios cresceu de forma quase contínua, passando de 1 078 em 2000 para 2 480 em 2024 — um aumento de +130% em 25 anos. Importa distinguir dois fenómenos: (1) o crescimento real dos internamentos, de ~1 100 para ~1 950/ano; (2) a entrada progressiva de episódios ambulatórios a partir de 2007 (quebra de série), que passou de valores residuais para 539 em 2024. A queda visível em 2020 é consistente com o impacto da pandemia COVID-19 na atividade hospitalar programada.
Quebras de série: 2007 (entrada de linhas ambulatórias); 2013 (redefinição de internamento); 2020 (COVID-19). Fonte: BDMH/ACSS.
Doentes Únicos Identificados por Ano
O número de doentes únicos com episódios hospitalares de LES por ano cresceu de forma expressiva: de ~150 em 2000 para 1 586 em 2024. Os valores dos primeiros anos (2000–2005) são subestimados devido à menor cobertura do identificador de utente (até 26% de episódios sem ligação em 2000). A partir de 2017, a cobertura supera 99%, tornando os dados mais robustos.
Valores 2000–2005 subestimados (menor cobertura do identificador de utente). Sentinelas excluídos. Fonte: BDMH/ACSS.
Perfil Demográfico: Sexo e Idade
O LES é inequivocamente uma doença predominantemente feminina: 82,5% de todos os episódios hospitalares ocorreram em mulheres. A faixa etária dos 45–59 anos concentra o maior número de episódios, seguida pelos 30–44 anos, o que corresponde ao perfil clínico típico desta patologia — início na vida reprodutiva e pico de morbi-mortalidade na meia-idade.
Todos os episódios (internamento + ambulatório); diagnóstico LES em qualquer posição. Fonte: BDMH/ACSS.
Mortalidade Intra-Hospitalar
A taxa de mortalidade intra-hospitalar nos internamentos com LES situou-se em 3,61% na globalidade do período. Verificou-se um pico em 2020 (5,15%), coincidente com a pandemia COVID-19, que agravou o prognóstico dos doentes imunossuprimidos. Nos últimos anos, a mortalidade regressou a valores próximos da média histórica (3,35% em 2024).
A mortalidade cresce acentuadamente com a idade: de ~0,7% nas crianças para 12,2% nos doentes com 75 ou mais anos. Nos homens mais velhos (≥75 anos), a taxa de 10,8% é ligeiramente inferior à das mulheres da mesma faixa (12,2%), o que pode refletir uma menor sobrevivência inicial dos homens — chegando ao internamento mais tarde em trajetórias mais graves.
Apenas internamentos (tipo_port_apr31='Int'); diagnóstico LES em qualquer posição 1–10. Pico em 2020 coincide com a pandemia COVID-19. Fonte: BDMH/ACSS.
| Faixa etária | Sexo | Internamentos | Óbitos | Taxa (%) |
|---|---|---|---|---|
| 0-17 | Masculino | 239 | 2 | 0,84 |
| 0-17 | Feminino | 1234 | 8 | 0,65 |
| 18-29 | Masculino | 467 | 7 | 1,5 |
| 18-29 | Feminino | 4299 | 41 | 0,95 |
| 30-44 | Masculino | 1290 | 21 | 1,63 |
| 30-44 | Feminino | 8603 | 109 | 1,27 |
| 45-59 | Masculino | 2234 | 54 | 2,42 |
| 45-59 | Feminino | 8417 | 252 | 2,99 |
| 60-74 | Masculino | 1733 | 95 | 5,48 |
| 60-74 | Feminino | 6248 | 350 | 5,6 |
| 75+ | Masculino | 797 | 86 | 10,79 |
| 75+ | Feminino | 3018 | 369 | 12,23 |
Internamentos com LES em qualquer posição de diagnóstico, todo o período 2000-2024.
Demora Média e Tipo de Admissão
A demora média de internamento por LES diminuiu significativamente: de 9,5 dias (média 2000–2004) para 7,5 dias (média 2020–2024), e atingiu um mínimo de 6,8 dias em 2024. Esta evolução reflete melhorias terapêuticas, maior especialização dos centros de referência e uma gestão mais eficiente dos episódios agudos.
Quanto ao tipo de admissão, a maioria dos internamentos continua a ser por via urgente (51–60% do total até 2019), o que sublinha a natureza imprevisível dos surtos de LES. A partir de 2022-2023, pela primeira vez, os internamentos programados superam os urgentes, o que pode indicar maior proatividade no acompanhamento e controlo da doença.
Internamentos com LES em qualquer posição de diagnóstico. Fonte: BDMH/ACSS.
Subtipos Clínicos de LES (ICD-10, desde 2017)
A partir de 2017, a codificação ICD-10 permite desagregar o LES pelos órgãos envolvidos quando este é diagnóstico principal. O achado mais relevante é a predominância do envolvimento glomerular (nefrite lúpica) — 36% de todos os episódios com LES como diagnóstico principal em ICD-10 — o que confirma que a nefrite lúpica é a complicação mais grave e frequente que motiva internamento hospitalar. O LES não especificado (M32.9 + M32.10) representa cerca de 34% dos casos, o que pode refletir tanto doença com apresentação multissistémica não dominada por um único órgão como limitações de codificação.
Apenas episódios com LES como diagnóstico PRINCIPAL (d1), período 2017–2024, ICD-10. Fonte: BDMH/ACSS.
Comorbilidades Associadas
Nos internamentos com LES (2017–2024, ICD-10), as comorbilidades mais frequentemente codificadas revelam o perfil de risco cardiovascular, renal e metabólico típico desta população:
- Hipertensão arterial (I10) — presente em 2 242 episódios — é a comorbilidade mais prevalente, reflexo tanto da doença renal crónica associada ao LES como dos efeitos da corticoterapia prolongada.
- Uso prolongado de corticosteróides (Z79.52) em 1 650 episódios confirma que a terapêutica de base ainda é maioritariamente esteroide.
- Síndrome antifosfolipídico (D68.61) em 880 episódios — complicação trombótica grave frequentemente associada ao LES.
- Doença renal crónica em múltiplos estádios (I12.0, N18.6, Z99.2) evidencia o impacto nefrológico a longo prazo.
- Depressão major (F32.9) em 485 episódios sublinha o peso da morbilidade mental nesta população.
| Código ICD-10 | Diagnóstico | Frequência |
|---|---|---|
| I10 | Hipertensão essencial (primária) | 2242 |
| Z79.52 | Uso prolongado de esteróides sistémicos | 1650 |
| E78.5 | Hiperlipidemia, sem outra especificação | 1284 |
| D68.61 | Síndrome antifosfolipídico | 880 |
| Z79.01 | Uso prolongado de anticoagulantes | 802 |
| I12.0 | Doença renal crónica hipertensiva com estádio 5 / terminal | 680 |
| I25.10 | Doença aterosclerótica do coração de artéria nativa | 626 |
| E66.9 | Obesidade, sem outra especificação | 553 |
| M35.00 | Síndrome seca (Sjögren) | 545 |
| Z79.82 | Uso prolongado de aspirina | 534 |
| E03.9 | Hipotiroidismo, sem outra especificação | 518 |
| Z79.899 | Outra terapia farmacológica de longa duração | 514 |
| D64.9 | Anemia, sem outra especificação | 491 |
| F32.9 | Perturbação depressiva major, episódio único | 485 |
| E11.9 | Diabetes mellitus tipo 2 sem complicações | 476 |
| Z37.0 | Parto de criança única nascida viva | 447 |
| Z99.2 | Dependência de diálise renal | 427 |
| N18.6 | Doença renal crónica terminal | 344 |
| F17.200 | Dependência de nicotina, sem complicações | 332 |
| N18.9 | Doença renal crónica, sem outra especificação | 316 |
Frequência = n.º de vezes que o código aparece em diagnósticos secundários (d2-d10) nos internamentos com LES como d1-d5. Período 2017-2024, ICD-10.
Distribuição Geográfica
Lisboa e Porto concentram, naturalmente, o maior volume absoluto de episódios — reflexo da população residente e da presença dos principais centros de referência para doenças autoimunes. Um valor atípico é o distrito de Vila Real (3 659 episódios), que ocupa o 4.º lugar nacional em volume. Este resultado deve-se ao facto de a Unidade Local de Saúde de Trás-os-Montes e Alto Douro (com sede em Vila Real) ser o hospital com maior volume total de episódios de LES no país (4 275), possivelmente por critérios de codificação locais ou por servir uma área de influência alargada.
| Distrito | Episódios | Internamentos | Óbitos |
|---|---|---|---|
| Lisboa | 10 509 | 9394 | 340 |
| Porto | 6604 | 5837 | 197 |
| Setúbal | 3807 | 3412 | 169 |
| Vila Real | 3659 | 2566 | 15 |
| Aveiro | 2596 | 2313 | 67 |
| Viseu | 2437 | 1793 | 44 |
| Braga | 2364 | 2069 | 44 |
| Santarém | 2045 | 1896 | 102 |
| Coimbra | 1956 | 1844 | 70 |
| Leiria | 1858 | 1673 | 79 |
| Faro | 1525 | 1418 | 89 |
| Castelo Branco | 1101 | 978 | 28 |
| Guarda | 676 | 642 | 32 |
| Viana do Castelo | 616 | 574 | 13 |
| Évora | 587 | 502 | 19 |
| Portalegre | 525 | 497 | 36 |
| Bragança | 499 | 473 | 24 |
| Beja | 480 | 453 | 17 |
Distrito de residência do utente. Total de episódios inclui internamento e ambulatório. Excluídos: distrito não identificado e ilhas (volumes reduzidos).
Hospitais com Maior Volume de Episódios
Os maiores hospitais universitários e centros de referência concentram a maioria dos internamentos complexos. Destaca-se a ULS de Santa Maria (Lisboa) e a ULS de Coimbra com os maiores volumes de internamentos e óbitos, o que é consistente com a função de referência terciária que estes centros desempenham para os casos mais graves de LES.
| Hospital | Total episódios | Internamentos | Óbitos |
|---|---|---|---|
| ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro | 4275 | 3187 | 19 |
| ULS de Santa Maria | 3848 | 3465 | 108 |
| ULS de Coimbra | 3683 | 3539 | 107 |
| ULS de São João | 2820 | 2660 | 73 |
| ULS de Santo António | 2611 | 2322 | 68 |
| ULS de São José | 2542 | 2318 | 65 |
| ULS de Lisboa Ocidental | 1852 | 1743 | 71 |
| ULS de Amadora / Sintra | 1411 | 1263 | 46 |
| ULS de Almada / Seixal | 1291 | 1061 | 40 |
| ULS do Algarve | 1177 | 1097 | 78 |
| ULS de Gaia / Espinho | 900 | 688 | 27 |
| ULS de Braga | 757 | 602 | 15 |
| ULS de Viseu Dão-Lafões | 682 | 587 | 37 |
| ULS da Arrábida | 673 | 644 | 35 |
| ULS do Alto Ave | 666 | 621 | 10 |
Nomes dos hospitais refletem a estrutura organizacional de 2025 (ULS após fusões). Óbitos = dsp=20 em internamentos. Fonte: BDMH/ACSS.
Destino de Alta (2017–2024)
A grande maioria dos doentes internados com LES (93,2%) tem alta para o domicílio, o que reflete a natureza crónica da doença com episódios agudos tratáveis. Os óbitos representam 2,55% das altas neste período mais recente (2017–2024), valor ligeiramente inferior à média global do período 2000–2024 (3,61%), o que poderá refletir alguma melhoria terapêutica. Cerca de 2,4% são transferidos para outra instituição com internamento (hospitais de reabilitação ou unidades de cuidados continuados).
Síntese e Conclusões
O que os dados mostram:
-
Volume crescente e sustentado: Os episódios hospitalares de LES quase duplicaram em 25 anos (+130%), com crescimento simultâneo dos internamentos e, a partir de 2007, do ambulatório hospitalar.
-
Doença predominantemente feminina: 82,5% dos episódios ocorrem em mulheres, com pico nas faixas 30–44 e 45–59 anos — o perfil epidemiológico clássico do LES.
-
Mortalidade estável mas com pico pandémico: A taxa de mortalidade intra-hospitalar situa-se em torno de 3–4% ao longo de todo o período, com um pico em 2020 (5,2%) associado à COVID-19. A mortalidade aumenta exponencialmente com a idade, atingindo >12% nos idosos (≥75 anos).
-
Nefrite lúpica como principal motivo de internamento grave: 36% dos episódios com LES como diagnóstico principal (ICD-10) têm envolvimento glomerular, confirmando que o rim é o órgão mais frequentemente comprometido nos internamentos.
-
Redução da demora média: De 9,5 para 7,5 dias entre 2000–2004 e 2020–2024, com mínimo histórico de 6,8 dias em 2024, reflectindo maior eficiência clínica.
-
Inversão da predominância das admissões urgentes: Pela primeira vez em 2023–2024, os internamentos programados superam os urgentes — sinal potencial de melhor controlo e acompanhamento ambulatório da doença.
-
Perfil de comorbilidade complexo: Hipertensão, uso crónico de corticosteróides, síndrome antifosfolipídico e doença renal crónica dominam o padrão de comorbilidade, refletindo tanto a fisiopatologia da doença como os efeitos da imunossupressão prolongada.
Metodologia
Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS — episódios de internamento e ambulatório hospitalar nos hospitais do SNS português, 2000–2024 (38,5 milhões de episódios no total).
Definição de caso: Episódio com diagnóstico de Lúpus Eritematoso Sistémico em qualquer das posições de diagnóstico (d1 a d10), salvo indicação contrária. Códigos utilizados:
- ICD-9-CM (episódios até 2016): código
7100(Lúpus Eritematoso Sistémico); - ICD-10-CM (episódios a partir de 2017, e ~5,6% dos episódios de 2016): prefixo
M32*(toda a família M32 do LES).
Tratamento das eras ICD: A análise utiliza ambas as versões, com o campo icd_versao por episódio a determinar qual a codificação aplicável. Séries longas (2000–2024) combinam os dois sistemas; análises de subtipo restringem-se à era ICD-10 (a partir de 2017).
Linhas de produção: Foram incluídos internamentos (tipo_port_apr31 = 'Int') e ambulatório hospitalar (tipo_port_apr31 = 'Amb'). As análises de mortalidade e demora média restringem-se a internamentos. Episódios com dias_int = -1 (sentinela, ~72 000 registos) foram excluídos dos cálculos de demora média.
Quebras de série assinaladas:
- 2007: entrada de linhas ambulatórias no extrato (salto no volume total);
- 2013: alteração da definição de internamento (redução de ~1,31M para ~1,01M internamentos no SNS);
- 2020: impacto da pandemia COVID-19 na atividade programada.
Doentes únicos: Contagem de n_ficticio_utente distintos, com exclusão de identificadores sentinela (sentinel_patient_ids). A ligação de utente é mais fraca antes de 2006 (até 26% de episódios sem identificador em 2000; <1% após 2017).
Mortalidade: Definida como dsp = 20 (falecido durante o internamento).
Nomes dos hospitais: Refletem a estrutura organizacional de 2025 (após fusões em ULS), aplicada retroativamente a toda a série histórica.