11 de outubro de 2026

Internamentos por Efeito Adverso de Vacinas Víricas (T50B95A) no SNS Português, 2016–2024

por Pedro Almeida Vieira

Entre 2016 e 2024, registaram-se 206 internamentos no SNS português com o código T50B95A («efeito adverso de outras vacinas víricas») em qualquer posição de diagnóstico, dos quais 130 — mais de 63% do total — ocorreram em 2021, ano de massificação da vacinação contra a COVID-19. A análise da BDMH/ACSS revela um perfil clínico heterogéneo mas com padrões reconhecíveis: predomínio cardíaco (miocardite e pericardite) nos adolescentes do sexo masculino, manifestações hematológicas e trombóticas nos adultos mais velhos, e complicações neurológicas graves em casos isolados. Registaram-se 5 óbitos intra-hospitalares no período, nenhum em menores de 18 anos.

Contexto e enquadramento

A vacinação contra a COVID-19 em Portugal arrancou em Dezembro de 2020 e atingiu a sua fase de massificação entre Fevereiro e Setembro de 2021, com a administração de vacinas de ARNm (Pfizer/BioNTech e Moderna) e de vector viral (AstraZeneca e Janssen) a sucessivas coortes etárias. A partir de Setembro de 2021, a vacinação estendeu-se aos adolescentes com 12 ou mais anos.

Este relatório analisa todos os internamentos do SNS português que registaram, em qualquer posição de diagnóstico (D1 a D10), o código ICD-10-CM T50B95A — «Efeito adverso de outras vacinas víricas, admissão inicial» — entre 2016 e 2024. Este código é o instrumento disponível na BDMH para identificar episódios em que o clínico ou o codificador estabeleceu uma relação causal entre uma vacina vírica e o quadro clínico que motivou a hospitalização.

Nota metodológica prévia: O código T50B95A não é exclusivo das vacinas COVID-19 — engloba todas as vacinas víricas (gripe, sarampo, varicela, etc.). Contudo, o salto de volume verificado em 2021 (×20 face à média dos cinco anos anteriores) indica que a grande maioria dos casos desse ano é atribuível às vacinas COVID-19. Nos anos de 2023 e 2024, a mistura com outras vacinas do calendário (incluindo as pediátricas) é mais provável.

206
Total de internamentos (2016–2024)
Todos os internamentos SNS com T50B95A em qualquer posição de diagnóstico
130
Internamentos em 2021 (pico)
63,1% do total da série; ×20 face à média 2016–2020 (5,0/ano)
5
Óbitos intra-hospitalares
Taxa de mortalidade intra-hospitalar de 2,4% sobre os 206 internamentos
Internamentos com T50B95A por ano (2016–2024)

Fonte: BDMH/ACSS. Apenas internamentos (tipo_port_apr31='Int'). Barras a vermelho indicam anos com pelo menos um óbito intra-hospitalar.

Evolução anual e totais

A série temporal revela um padrão inequívoco: linha de base de 2 a 7 casos por ano entre 2016 e 2020, seguida de um pico abrupto de 130 casos em 2021 e decréscimo progressivo nos anos subsequentes (28 em 2022, 15 em 2023, 8 em 2024). O pico de 2021 representa um aumento de 20 vezes face à média dos cinco anos anteriores e é temporalmente coincidente com a campanha de vacinação COVID-19 em massa.

A demora média de internamento variou entre 5,3 dias (2019) e 18,7 dias (2022). O valor elevado de 2022 é parcialmente explicado por casos de Síndrome de Guillain-Barré, que exigem internamentos prolongados para reabilitação.

Série anual completa — internamentos, óbitos e demora média
AnoInternamentosÓbitosTaxa mortalidade (%)Demora média (dias)
2016200,030,5
2017600,06,3
20187114,317,3
2019400,05,3
2020600,05,8
202113032,39,9
20222800,018,7
20231500,09,3
20248112,57,6
Total20652,4

Taxa de mortalidade calculada sobre o total de internamentos de cada ano. Demora média exclui dias_int = -1 (sentinel).

Diagnósticos principais — matriz por ano (2021–2024)

O diagnóstico principal (D1) reflecte a causa clínica que motivou a hospitalização; o código T50B95A surge em posição secundária como causa externa. A tabela seguinte apresenta os diagnósticos com 2 ou mais ocorrências no período 2021–2024, organizados por grupo clínico.

Diagnósticos principais mais frequentes nos internamentos com T50B95A (2021–2024)
Grupo clínicoDiagnóstico principal (ICD-10)2021202220232024Total
CardíacoMiocardite aguda NE (I409)62008
CardíacoOutra miocardite aguda (I408)42006
CardíacoPericardite aguda — outras formas (I308)50005
CardíacoPericardite aguda idiopática (I300)30003
CardíacoPericardite aguda NE (I309)30104
CardíacoMiocardite NE (I514)20002
HematológicoTrombocitopenia secundária (D6959)70018
HematológicoPúrpura trombocitopénica imune (D693)52007
HematológicoTrombocitopenia NE (D696)11002
NeurológicoSíndrome de Guillain-Barré (G610)53008
NeurológicoADEM pós-imunização (G0402)31105
NeurológicoHemiplegia esq. não dominante (G8194)11002
Vascular/trombóticoEmbolia pulmonar (I2699)31004
Vascular/trombóticoTrombose da veia porta (I81)20002
Alérgico/cutâneoReacção anafilática (T886XXA)20013
Alérgico/cutâneoErupção cutânea por fármacos (L270)30003
Músculo-esqueléticoRabdomiólise (M6282)21115
GastrointestinalGastroenterite e colite tóxicas (K521)20002
HepáticoHepatite tóxica (K716)10102
InespecíficoFebre NE (R509)41207
InespecíficoVómitos NE (R1110)10102
InespecíficoComplicações pós-imunização (T881XXA)21003

Incluem-se diagnósticos com ≥ 2 ocorrências no período 2021–2024. Diagnósticos com n < 2 foram omitidos da tabela mas integram os totais anuais.

Grupos clínicos dos internamentos T50B95A em 2021 (N=130)

Classificação por grupo clínico baseada no diagnóstico principal (D1). Ano de 2021.

Distribuição por sexo e grupos etários (2021–2024)

A análise por sexo e faixa etária revela padrões clinicamente relevantes:

  • Adolescentes masculinos (12–17 anos): 11 rapazes vs. 7 raparigas — predomínio masculino consistente com a literatura internacional sobre miocardite pós-mRNA em adolescentes.
  • Adultos jovens (18–29 anos): 7 homens vs. 4 mulheres.
  • 30–49 anos: inversão — 14 homens vs. 17 mulheres.
  • 50–64 anos: 13 homens vs. 20 mulheres.
  • 65–80 anos: 18 homens vs. 26 mulheres — reflexo da maior proporção de mulheres nesta faixa etária na população e de maior procura de cuidados.
  • > 80 anos: 16 homens vs. 18 mulheres.

A idade média dos doentes com quadro cardíaco em 2021 foi de 30,8 anos (a mais jovem de todos os grupos clínicos), confirmando a associação entre miocardite/pericardite pós-vacinal e população jovem. O grupo hematológico/trombótico apresentou idade média de 66,4 anos e o grupo vascular/tromboembólico de 78,7 anos.

Internamentos por faixa etária e sexo — T50B95A (2021–2024)

Fonte: BDMH/ACSS 2021–2024. Internamentos com T50B95A em qualquer posição de diagnóstico.

Adolescentes (12–17 anos): detalhe mensal em 2021

Dos 17 internamentos de adolescentes registados em 2021, 12 concentram-se em Setembro — ou seja, 71% do total desta faixa etária num único mês. Este pico é exactamente coincidente com o arranque da vacinação COVID-19 nos adolescentes dos 12 aos 17 anos em Portugal, que decorreu precisamente em Setembro de 2021 com a vacina Pfizer/BioNTech (BNT162b2).

A distribuição mensal é a seguinte:

  • Junho: 1 caso (rapariga de 16 anos, vómitos pós-vacinais, 5 dias)
  • Agosto: 2 casos (miocardite num rapaz de 13 anos; síndrome autoinflamatório numa rapariga de 16 anos)
  • Setembro: 12 casos — pico em plena campanha de vacinação de adolescentes
  • Outubro: 2 casos (pericardite e convulsões, ambos rapazes)

Em Setembro, o perfil clínico é dominado por patologia cardíaca inflamatória: 5 dos 12 casos têm diagnóstico de miocardite (I409, I408, B3322) ou pericardite (I308, I300). Todos são adolescentes entre os 12 e os 17 anos, com predomínio masculino (7M vs. 5F). A demora média foi de 4,5 dias e todos tiveram alta para domicílio, sem óbitos.

Adolescentes 12–17 anos com T50B95A em 2021 — internamentos por mês e sexo

Apenas meses com internamentos registados. O pico de Setembro coincide com o início da vacinação COVID-19 (Pfizer/BioNTech) nos adolescentes 12–17 anos em Portugal.

Adolescentes 12–17 anos — detalhe por mês e diagnóstico principal (2021)
MêsDiagnóstico principal (ICD-10)nMasculinoFemininoIdade média
JunhoVómitos NE (R1110)10116
AgostoMiocardite aguda NE (I409)11013
AgostoSíndrome autoinflamatório (M3581)10116
SetembroMiocardite aguda NE (I409)32115
SetembroPericardite aguda — outras formas (I308)21114,5
SetembroMiocardite viral (B3322)11012
SetembroPericardite aguda idiopática (I300)11016
SetembroADEM pós-imunização (G0402)10114
SetembroHemiplegia esq. não dominante (G8194)11015
SetembroNeoplasia maligna do cérebro (C710)11017
SetembroGastroenterite/colite não-infecciosa (K529)10114
SetembroCefaleia (R519)10116
OutubroPericardite aguda — outras formas (I308)11015
OutubroConvulsões NE (R569)11016

ADEM = Encefalomielite Aguda Disseminada. Nenhum óbito nesta faixa etária. Todos com alta para domicílio, excepto dois transferidos para outra instituição.

Os 5 óbitos intra-hospitalares

Registaram-se 5 mortes intra-hospitalares ao longo de toda a série (2016–2024), correspondendo a uma taxa global de 2,4%. Três ocorreram em 2021, um em 2018 e um em 2024. Nenhum dos óbitos ocorreu em menores de 18 anos.


Óbito 1 — 2018 · Masculino, 82 anos · Amadora · ULS Amadora/Sintra

Diagnóstico principal: Púrpura trombocitopénica imune (D693) Comorbilidades: Diabetes tipo II, diverticulose com hemorragia, anemia pós-hemorrágica, efeito adverso de anticoagulantes Demora: 92 dias (entrada em Novembro de 2017, alta em Fevereiro de 2018) Quadro clínico: Doente muito idoso com PTI pós-vacinal complicada por hemorragia digestiva grave (melena) em contexto de diverticulose e anticoagulação. Internamento muito prolongado com complicação infecciosa associada a procedimentos invasivos.


Óbito 2 — 2021 · Feminino, 79 anos · Ponte de Lima · ULS Alto Minho

Diagnóstico principal: Endocardite (válvula não especificada) (I38) Comorbilidades: Embolia e trombose da aorta abdominal, embolia arterial séptica, insuficiência cardíaca, doença renal crónica, demência Demora: 7 dias (Fevereiro–Março 2021 — primeiras semanas da vacinação COVID-19) Quadro clínico: Doente idosa com multimorbilidade cardiovascular e renal grave. Endocardite bacteriana complicada por embolia séptica e trombose aórtica — quadro séptico-embólico fulminante.


Óbito 3 — 2021 · Feminino, 100 anos · Porto · ULS Santo António

Diagnóstico principal: Insuficiência renal aguda (N179) Comorbilidades: Hipercaliemia, acidose, hiponatremia, bradicardia, gastroenterite tóxica, diabetes tipo II com DRC, insuficiência cardíaca Demora: 1 dia (Abril 2021) Quadro clínico: Centenária com múltiplas comorbilidades. Falência multiorgânica rápida com distúrbios electrolíticos graves. O código T50B95A associado a gastroenterite tóxica (K521) sugere reacção gastrointestinal pós-vacinal no contexto de fragilidade extrema.


Óbito 4 — 2021 · Masculino, 37 anos · Seixal · ULS Almada/Seixal ⚠️

Diagnóstico principal: Enfarte do baço (D735) Comorbilidades: Hemoperitoneu, choque hipovolémico, anemia aguda pós-hemorrágica, trombocitopenia, trombose da veia porta Demora: 0 dias (admissão e morte a 3 de Agosto de 2021) Procedimentos: Esplenectomia aberta de emergência; transfusão maciça (glóbulos vermelhos, plasma fresco, plaquetas, fibrinogénio) Quadro clínico: O caso mais significativo da série. Homem de 37 anos sem comorbilidades relevantes (obesidade e tabagismo), morto no próprio dia da admissão. O quadro de enfarte esplénico com rotura, hemoperitoneu, choque hipovolémico, trombocitopenia e trombose da veia porta é altamente sugestivo de VITT (Vaccine-Induced Immune Thrombocytopenia and Thrombosis) — a síndrome grave descrita sobretudo com as vacinas de vector adenoviral (AstraZeneca, Janssen), com particular incidência em adultos jovens. A esplenectomia de emergência com transfusão maciça não foi suficiente para evitar o óbito.


Óbito 5 — 2024 · Masculino, 92 anos · Amadora · ULS Amadora/Sintra

Diagnóstico principal: Reacção anafilática por efeito adverso de agente medicinal (T886XXA) Comorbilidades: Edema da língua, disfonia, cianose, dispneia, insuficiência cardíaca sistólica crónica agudizada, doença renal crónica, DPOC Demora: 14 dias (Setembro–Outubro 2024) Procedimentos: Vasopressores IV, anti-inflamatórios IV, antibioterapia IV Quadro clínico: Doente de 92 anos com comorbilidades cardiovasculares e respiratórias graves. Admissão por anafilaxia com envolvimento das vias aéreas (edema da língua, disfonia, cianose). A insuficiência cardíaca sistólica crónica agudizada foi a causa terminal provável após 14 dias de internamento.

Resumo dos 5 óbitos intra-hospitalares
AnoIdadeSexoResidênciaULSDiagnóstico principalDemora (dias)Perfil
201882MAmadora (Lisboa)ULS Amadora/SintraPTI + hemorragia digestiva92Idoso com multimorbilidade
202179FPonte de Lima (Viana do Castelo)ULS Alto MinhoEndocardite + embolia séptica7Idosa com multimorbilidade
2021100FPortoULS Santo AntónioInsuf. renal aguda + falência multiorgânica1Centenária — fragilidade extrema
202137MSeixal (Setúbal)ULS Almada/SeixalEnfarte do baço + VITT + choque hipovolémico0⚠️ Jovem — morte fulminante (VITT provável)
202492MAmadora (Lisboa)ULS Amadora/SintraAnafilaxia + IC sistólica agudizada + DPOC14Idoso com multimorbilidade

Óbito intra-hospitalar definido como destino de alta dsp=20. Demora em dias de internamento efectivo.

Internamentos de menores de 18 anos (2021–2024)

Identificaram-se 28 internamentos em doentes com menos de 18 anos desde 2021, sem qualquer óbito. A distribuição é marcadamente assimétrica: 18 casos em 2021, 4 em 2022, 3 em 2023 e 3 em 2024.

Padrões clínicos pediátricos

Lactentes e crianças pequenas (< 2 anos) — 8 casos: Todos com quadros ligeiros (febre pós-vacinal, vómitos, celulite local de injecção), típicos das vacinas do calendário nacional de vacinação infantil (hexavalente, pneumocócica, meningocócica, varicela). Nenhum requereu cuidados intensivos.

Adolescentes (12–17 anos) — 18 casos em 2021, concentrados entre Agosto e Outubro: O perfil é dominado por patologia cardíaca inflamatória — 9 dos 18 casos têm diagnóstico principal de miocardite (5 casos: I409, I408, B3322) ou pericardite (4 casos: I308, I300), todos em rapazes de 12–16 anos, com excepção de uma rapariga de 16 anos com miocardite. Este padrão é epidemiologicamente consistente com o sinal de segurança internacional identificado para as vacinas mRNA (Pfizer/BioNTech), particularmente após a 2.ª dose em rapazes adolescentes, e com o período de vacinação dessa faixa etária em Portugal (Setembro–Outubro 2021).

Casos neurológicos graves — 4 casos:

  • 2 casos de ADEM (Acute Disseminated Encephalomyelitis pós-imunização, G0402): raparigas de 14 e 16 anos, tratadas com punção lombar e imunossupressores/imunoglobulina IV, ambas recuperadas.
  • 1 hemiplegia (G8194): rapaz de 15 anos, alta no próprio dia — possível quadro transitório.
  • 1 paralisia bilateral do III par craniano + paralisia de Bell (H4903 + G510): rapaz de 9 anos, tratado com imunoglobulina IV, 8 dias de internamento.

Casos em contexto oncológico — 2 casos:

  • Rapaz de 17 anos com tumor cerebral maligno, com miocardite e derrame pericárdico associados (internamento de 23 dias).
  • Criança de 11 anos com neoplasia maligna da subglote e COVID-19 activa. Nestes dois casos, a causalidade directa da vacina é muito difícil de estabelecer dado o contexto de imunossupressão oncológica.

Outros casos notáveis:

  • Criança de 5 anos com pan-uveíte grave do olho esquerdo associada a complicação de varicela, submetida a paracentese ocular (15 dias de internamento).
  • Lactente de 1 ano com trombocitopenia secundária associada a citomegalovírus, tratado com imunoglobulina IV.
Internamentos pediátricos (< 18 anos) com T50B95A — 2021 a 2024 (N=28)
AnoIdadeSexoResidênciaHospitalDiagnóstico principalDemora (d)Alta
20211 anoMGuimarães (Braga)ULS Alto AveFebre NE2Domicílio
202112 anosMLagos (Faro)ULS AlgarvePericardite aguda0Transferido
202112 anosMLagos (Faro)ULS Lisboa OcidentalMiocardite viral (RM+)5Domicílio
202113 anosMÍlhavo (Aveiro)ULS CoimbraMiocardite aguda4Domicílio
202113 anosMSta. M. Feira (Aveiro)ULS CoimbraMiocardite aguda + TSV5Domicílio
202114 anosFChaves (Vila Real)ULS TM e Alto DouroGastroenterite/colite1Domicílio
202114 anosFSta. M. Feira (Aveiro)ULS Entre Douro e VougaADEM pós-imunização3Domicílio
202115 anosMPortalegreULS Alto AlentejoHemiplegia esq.0Domicílio
202115 anosMAlfândega da Fé (Bragança)ULS São JoãoPericardite aguda2Domicílio
202116 anosFMaia (Porto)ULS Santo AntónioVómitos (doença metabólica)5Domicílio
202116 anosFGuimarães (Braga)ULS Alto MinhoSínd. autoinflamatório4Transferida
202116 anosFCoimbraULS CoimbraMiocardite aguda7Domicílio
202116 anosMViseuULS CoimbraMiocardite aguda4Domicílio
202116 anosFLousã (Coimbra)ULS CoimbraCefaleia / Parestesias1Domicílio
202116 anosMFaroULS AlgarvePericardite idiopática (RM+)2Domicílio
202116 anosMLeiriaULS Região de LeiriaConvulsões1Domicílio
202117 anosFLagos (Faro)ULS AlgarvePericardite aguda3Domicílio
202117 anosMEspinho (Aveiro)ULS São JoãoTumor cerebral + miocardite + derrame pericárdico23Domicílio
2022< 1 anoFGuardaULS GuardaMelena6Domicílio
20229 anosMSilves (Faro)ULS AlgarveParalisia III par bilateral + Bell8Domicílio
202211 anosMLisboaULS Santa MariaTumor subglote + COVID-194Domicílio
202216 anosMÁgueda (Aveiro)ULS CoimbraADEM pós-imunização4Domicílio
2023< 1 anoFChaves (Vila Real)ULS TM e Alto DouroFebre NE2Domicílio
2023< 1 anoFPombal (Leiria)ULS Região de LeiriaFebre NE0Domicílio
2023< 1 anoMV. N. Gaia (Porto)ULS Gaia/EspinhoVómitos NE3Domicílio
20241 anoMPortoULS MatosinhosCelulite local de injecção1Domicílio
20241 anoMTorres Vedras (Lisboa)ULS Santa MariaTrombocitopenia + CMV3Domicílio
20245 anosMLisboaULS São JoséPan-uveíte + varicela + sínd. nefrótica15Domicílio

CMV = Citomegalovírus; ADEM = Encefalomielite Aguda Disseminada; TSV = Taquicardia Supraventricular; RM+ = diagnóstico confirmado por Ressonância Magnética.

Distribuição hospitalar

Os internamentos concentram-se nos grandes centros hospitalares universitários e nas ULS com maior cobertura populacional. No período 2021–2024, os hospitais com mais internamentos foram a ULS de Santo António e a ULS de São João (14 casos cada), seguidos pela ULS de Santa Maria (13) e ULS de Coimbra (11). Esta distribuição reflecte tanto a dimensão das instituições como a sua função de referência para casos graves, nomeadamente pediátricos e neurológicos.

A ULS de Coimbra destaca-se pela concentração de 5 casos de miocardite em adolescentes em Setembro de 2021 — possivelmente reflexo de uma política de referenciação regional activa após a identificação do sinal de segurança.

ULS com mais internamentos T50B95A (2021–2024, n ≥ 5)
Hospital/ULSN.º internamentos
ULS de Santo António, E.P.E.14
ULS de São João, E.P.E.14
ULS de Santa Maria, E.P.E.13
ULS de Coimbra, E.P.E.11
ULS do Algarve, E.P.E.9
ULS de Matosinhos, E.P.E.8
ULS de Amadora / Sintra, E.P.E.8
Hospital de Cascais Dr. José de Almeida8
ULS de Loures / Odivelas, E.P.E.7
ULS do Alto Alentejo, E.P.E.6
ULS do Tâmega e Sousa, E.P.E.6
ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro, E.P.E.6
ULS de Gaia / Espinho, E.P.E.5
ULS de São José, E.P.E.5
ULS de Entre Douro e Vouga, E.P.E.5

Nomenclatura hospitalar reflecte a estrutura organizativa de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente).

Limitações e cautelas interpretativas

1. Ausência de código específico para vacinas COVID-19

O código T50B95A engloba todas as vacinas víricas — gripe, sarampo, varicela, etc. — e não é exclusivo das vacinas COVID-19. A atribuição à COVID-19 em 2021–2022 é altamente provável dado o contexto epidemiológico e o volume sem precedentes, mas não é confirmável individualmente pela codificação.

2. Sub-registo expectável

O código T50B95A como causa externa é sistematicamente sub-registado. Muitos doentes podem ter sido internados com o diagnóstico da manifestação (miocardite, trombose, Guillain-Barré) sem que o codificador tenha registado a vacina como causa externa. Os 206 internamentos identificados representam um limite inferior — o número real de hospitalizações relacionadas com vacinas víricas é provavelmente superior.

3. Causalidade vs. associação temporal

A presença do código T50B95A significa que o clínico/codificador estabeleceu uma relação causal presumível entre a vacina e o quadro clínico — não constitui prova epidemiológica de causalidade. Em doentes idosos com múltiplas comorbilidades, a distinção entre coincidência temporal e causalidade é particularmente difícil. A excepção mais clara é o Óbito 4 (caso VITT), onde o quadro clínico é altamente específico da síndrome descrita na literatura.

4. Impossibilidade de cálculo de taxas de incidência precisas

Sem informação sobre o número de doses administradas por tipo de vacina, faixa etária e sexo, não é possível calcular taxas de incidência de efeitos adversos por 100.000 doses — o denominador correcto para análise de farmacovigilância. Esta análise requereria o cruzamento com dados da DGS/SPMS.

5. Ausência do código U12.9 (EUA)

A versão americana do ICD-10-CM criou em 2021 o código U12.9 («COVID-19 vaccines causing adverse effects in therapeutic use»), que não foi adoptado na codificação clínica portuguesa. A sua ausência na BDMH confirma que T50B95A é o único proxy disponível.

Metodologia

Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH/ACSS), episódios de internamento do SNS português, anos 2016 a 2024 (38,5 milhões de episódios no total da base).

Critério de selecção: Presença do código ICD-10-CM T50B95A («Efeito adverso de outras vacinas víricas, admissão inicial») em qualquer posição de diagnóstico (D1 a D10), em episódios classificados como internamento (tipo_port_apr31 = 'Int'). O código está disponível apenas a partir de 2016 (introdução do ICD-10 na BDMH; a grande maioria dos episódios anteriores a 2017 usa ICD-9-CM).

Período de análise: 2016–2024 para a série temporal; 2021–2024 para as análises detalhadas de perfil clínico e pediátrico; Ano de 2021 por mês para a faixa etária 12–17 anos.

Identificação de episódios: Cada episódio é identificado univocamente pelo tuplo (n_ficticio_utente, hospital, data_entrada, data_saida). Utilizou-se a tabela diagnoses (formato longo) para localizar o código T50B95A em qualquer posição, com JOIN à tabela episodes para obter os atributos do episódio.

Óbito intra-hospitalar: Definido como destino de alta dsp = 20.

Grupos etários: < 12 anos; 12–17 anos; 18–29 anos; 30–49 anos; 50–64 anos; 65–80 anos; > 80 anos.

Diagnóstico principal: Código na posição D1 do episódio, com descrição obtida por JOIN à tabela dim_icd_diag (icd_versao = '10').

Supressão de célula: Células com n < 5 suprimidas nas tabelas de detalhe agregado (não aplicável às narrativas individuais de casos).

Nota sobre nomenclatura hospitalar: Os nomes dos hospitais reflectem a estrutura organizativa de 2025 após as fusões em Unidades Locais de Saúde, aplicadas retroactivamente pela ACSS a toda a série histórica.

Quebras de série: A análise incide sobre internamentos (tipo_port_apr31='Int'), pelo que as quebras de 2007 (entrada de linhas ambulatórias) e 2013 (redefinição de internamento) não afectam materialmente os resultados. O ano de 2020 está marcado pelo impacto da COVID-19 nas hospitalizações em geral.

Elaborado por: Página UM / Análise BDMH · Dados ACSS/SNS · Referência interna: internamentos-t50b95a-vacinas-viricas-2016-2024

Reprodutibilidade: consultas SQL utilizadas (5)

Totais anuais, mortes e demora média nos internamentos com T50B95A

WITH eps AS (
    SELECT DISTINCT e.ano, e.n_ficticio_utente, e.hospital, e.data_entrada, e.data_saida,
           e.d1, e.dsp, e.idade, e.dias_int, e.icd_versao
    FROM episodes e
    JOIN diagnoses d ON d.n_ficticio_utente = e.n_ficticio_utente
        AND d.hospital = e.hospital
        AND d.data_entrada = e.data_entrada
        AND d.data_saida = e.data_saida
    WHERE d.codigo = 'T50B95A'
      AND e.tipo_port_apr31 = 'Int'
)
SELECT ano, COUNT(*) AS total, SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END) AS mortes,
       ROUND(AVG(CASE WHEN dias_int >= 0 THEN dias_int END),1) AS demora_media
FROM eps
GROUP BY ano ORDER BY ano

Top diagnósticos principais nos internamentos T50B95A 2021-2024

WITH eps AS (
    SELECT DISTINCT e.ano, e.n_ficticio_utente, e.hospital, e.data_entrada, e.data_saida,
           e.d1, e.dsp, e.idade, e.icd_versao
    FROM episodes e
    JOIN diagnoses d ON d.n_ficticio_utente = e.n_ficticio_utente
        AND d.hospital = e.hospital
        AND d.data_entrada = e.data_entrada
        AND d.data_saida = e.data_saida
    WHERE d.codigo = 'T50B95A' AND e.tipo_port_apr31 = 'Int' AND e.ano >= 2021
)
SELECT eps.d1, i.descricao_pt, COUNT(*) AS n, SUM(CASE WHEN eps.dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END) AS mortes
FROM eps
LEFT JOIN dim_icd_diag i ON i.icd_versao = eps.icd_versao AND i.codigo = eps.d1
GROUP BY eps.d1, i.descricao_pt HAVING COUNT(*) >= 2 ORDER BY n DESC

Distribuição por sexo e faixa etária 2021-2024

WITH eps AS (
    SELECT DISTINCT e.ano, e.n_ficticio_utente, e.hospital, e.data_entrada, e.data_saida,
           e.sexo, e.idade, e.dsp
    FROM episodes e
    JOIN diagnoses d ON d.n_ficticio_utente = e.n_ficticio_utente
        AND d.hospital = e.hospital
        AND d.data_entrada = e.data_entrada
        AND d.data_saida = e.data_saida
    WHERE d.codigo = 'T50B95A' AND e.tipo_port_apr31 = 'Int' AND e.ano >= 2021
)
SELECT sexo,
    CASE WHEN idade < 12 THEN '< 12 anos' WHEN idade BETWEEN 12 AND 17 THEN '12-17 anos'
         WHEN idade BETWEEN 18 AND 29 THEN '18-29 anos' WHEN idade BETWEEN 30 AND 49 THEN '30-49 anos'
         WHEN idade BETWEEN 50 AND 64 THEN '50-64 anos' WHEN idade BETWEEN 65 AND 80 THEN '65-80 anos'
         WHEN idade > 80 THEN '> 80 anos' END AS faixa,
    COUNT(*) AS n
FROM eps GROUP BY sexo, faixa ORDER BY sexo, faixa

Internamentos T50B95A nos adolescentes 12-17 anos em 2021, por mês

WITH eps AS (
    SELECT DISTINCT e.n_ficticio_utente, e.hospital, e.data_entrada, e.data_saida,
           e.d1, e.sexo, e.idade, e.dias_int, e.dsp, e.icd_versao,
           EXTRACT(MONTH FROM e.data_entrada) AS mes
    FROM episodes e
    JOIN diagnoses d ON d.n_ficticio_utente = e.n_ficticio_utente
        AND d.hospital = e.hospital
        AND d.data_entrada = e.data_entrada
        AND d.data_saida = e.data_saida
    WHERE d.codigo = 'T50B95A' AND e.tipo_port_apr31 = 'Int'
      AND e.ano = 2021 AND e.idade BETWEEN 12 AND 17
)
SELECT mes, COUNT(*) AS total,
    SUM(CASE WHEN sexo=1 THEN 1 ELSE 0 END) AS masculino,
    SUM(CASE WHEN sexo=2 THEN 1 ELSE 0 END) AS feminino,
    ROUND(AVG(idade),1) AS idade_media,
    ROUND(AVG(CASE WHEN dias_int >= 0 THEN dias_int END),1) AS demora_media
FROM eps GROUP BY mes ORDER BY mes

Diagnósticos principais por mês nos adolescentes 12-17 anos com T50B95A em 2021

WITH eps AS (
    SELECT DISTINCT e.n_ficticio_utente, e.hospital, e.data_entrada, e.data_saida,
           e.d1, e.sexo, e.idade, e.dias_int, e.dsp, e.icd_versao,
           EXTRACT(MONTH FROM e.data_entrada) AS mes
    FROM episodes e
    JOIN diagnoses d ON d.n_ficticio_utente = e.n_ficticio_utente
        AND d.hospital = e.hospital
        AND d.data_entrada = e.data_entrada
        AND d.data_saida = e.data_saida
    WHERE d.codigo = 'T50B95A' AND e.tipo_port_apr31 = 'Int'
      AND e.ano = 2021 AND e.idade BETWEEN 12 AND 17
)
SELECT mes, eps.d1, i.descricao_pt, COUNT(*) AS n,
    SUM(CASE WHEN sexo=1 THEN 1 ELSE 0 END) AS masculino,
    SUM(CASE WHEN sexo=2 THEN 1 ELSE 0 END) AS feminino,
    ROUND(AVG(idade),1) AS idade_media
FROM eps
LEFT JOIN dim_icd_diag i ON i.icd_versao = eps.icd_versao AND i.codigo = eps.d1
GROUP BY mes, eps.d1, i.descricao_pt ORDER BY mes, n DESC

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