Internamentos por Efeito Adverso de Vacinas Víricas (T50B95A) no SNS Português, 2016–2024
por Pedro Almeida Vieira
Entre 2016 e 2024, registaram-se 206 internamentos no SNS português com o código T50B95A («efeito adverso de outras vacinas víricas») em qualquer posição de diagnóstico, dos quais 130 — mais de 63% do total — ocorreram em 2021, ano de massificação da vacinação contra a COVID-19. A análise da BDMH/ACSS revela um perfil clínico heterogéneo mas com padrões reconhecíveis: predomínio cardíaco (miocardite e pericardite) nos adolescentes do sexo masculino, manifestações hematológicas e trombóticas nos adultos mais velhos, e complicações neurológicas graves em casos isolados. Registaram-se 5 óbitos intra-hospitalares no período, nenhum em menores de 18 anos.
Contexto e enquadramento
A vacinação contra a COVID-19 em Portugal arrancou em Dezembro de 2020 e atingiu a sua fase de massificação entre Fevereiro e Setembro de 2021, com a administração de vacinas de ARNm (Pfizer/BioNTech e Moderna) e de vector viral (AstraZeneca e Janssen) a sucessivas coortes etárias. A partir de Setembro de 2021, a vacinação estendeu-se aos adolescentes com 12 ou mais anos.
Este relatório analisa todos os internamentos do SNS português que registaram, em qualquer posição de diagnóstico (D1 a D10), o código ICD-10-CM T50B95A — «Efeito adverso de outras vacinas víricas, admissão inicial» — entre 2016 e 2024. Este código é o instrumento disponível na BDMH para identificar episódios em que o clínico ou o codificador estabeleceu uma relação causal entre uma vacina vírica e o quadro clínico que motivou a hospitalização.
Nota metodológica prévia: O código T50B95A não é exclusivo das vacinas COVID-19 — engloba todas as vacinas víricas (gripe, sarampo, varicela, etc.). Contudo, o salto de volume verificado em 2021 (×20 face à média dos cinco anos anteriores) indica que a grande maioria dos casos desse ano é atribuível às vacinas COVID-19. Nos anos de 2023 e 2024, a mistura com outras vacinas do calendário (incluindo as pediátricas) é mais provável.
Fonte: BDMH/ACSS. Apenas internamentos (tipo_port_apr31='Int'). Barras a vermelho indicam anos com pelo menos um óbito intra-hospitalar.
Evolução anual e totais
A série temporal revela um padrão inequívoco: linha de base de 2 a 7 casos por ano entre 2016 e 2020, seguida de um pico abrupto de 130 casos em 2021 e decréscimo progressivo nos anos subsequentes (28 em 2022, 15 em 2023, 8 em 2024). O pico de 2021 representa um aumento de 20 vezes face à média dos cinco anos anteriores e é temporalmente coincidente com a campanha de vacinação COVID-19 em massa.
A demora média de internamento variou entre 5,3 dias (2019) e 18,7 dias (2022). O valor elevado de 2022 é parcialmente explicado por casos de Síndrome de Guillain-Barré, que exigem internamentos prolongados para reabilitação.
| Ano | Internamentos | Óbitos | Taxa mortalidade (%) | Demora média (dias) |
|---|---|---|---|---|
| 2016 | 2 | 0 | 0,0 | 30,5 |
| 2017 | 6 | 0 | 0,0 | 6,3 |
| 2018 | 7 | 1 | 14,3 | 17,3 |
| 2019 | 4 | 0 | 0,0 | 5,3 |
| 2020 | 6 | 0 | 0,0 | 5,8 |
| 2021 | 130 | 3 | 2,3 | 9,9 |
| 2022 | 28 | 0 | 0,0 | 18,7 |
| 2023 | 15 | 0 | 0,0 | 9,3 |
| 2024 | 8 | 1 | 12,5 | 7,6 |
| Total | 206 | 5 | 2,4 |
Taxa de mortalidade calculada sobre o total de internamentos de cada ano. Demora média exclui dias_int = -1 (sentinel).
Diagnósticos principais — matriz por ano (2021–2024)
O diagnóstico principal (D1) reflecte a causa clínica que motivou a hospitalização; o código T50B95A surge em posição secundária como causa externa. A tabela seguinte apresenta os diagnósticos com 2 ou mais ocorrências no período 2021–2024, organizados por grupo clínico.
| Grupo clínico | Diagnóstico principal (ICD-10) | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | Total |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Cardíaco | Miocardite aguda NE (I409) | 6 | 2 | 0 | 0 | 8 |
| Cardíaco | Outra miocardite aguda (I408) | 4 | 2 | 0 | 0 | 6 |
| Cardíaco | Pericardite aguda — outras formas (I308) | 5 | 0 | 0 | 0 | 5 |
| Cardíaco | Pericardite aguda idiopática (I300) | 3 | 0 | 0 | 0 | 3 |
| Cardíaco | Pericardite aguda NE (I309) | 3 | 0 | 1 | 0 | 4 |
| Cardíaco | Miocardite NE (I514) | 2 | 0 | 0 | 0 | 2 |
| Hematológico | Trombocitopenia secundária (D6959) | 7 | 0 | 0 | 1 | 8 |
| Hematológico | Púrpura trombocitopénica imune (D693) | 5 | 2 | 0 | 0 | 7 |
| Hematológico | Trombocitopenia NE (D696) | 1 | 1 | 0 | 0 | 2 |
| Neurológico | Síndrome de Guillain-Barré (G610) | 5 | 3 | 0 | 0 | 8 |
| Neurológico | ADEM pós-imunização (G0402) | 3 | 1 | 1 | 0 | 5 |
| Neurológico | Hemiplegia esq. não dominante (G8194) | 1 | 1 | 0 | 0 | 2 |
| Vascular/trombótico | Embolia pulmonar (I2699) | 3 | 1 | 0 | 0 | 4 |
| Vascular/trombótico | Trombose da veia porta (I81) | 2 | 0 | 0 | 0 | 2 |
| Alérgico/cutâneo | Reacção anafilática (T886XXA) | 2 | 0 | 0 | 1 | 3 |
| Alérgico/cutâneo | Erupção cutânea por fármacos (L270) | 3 | 0 | 0 | 0 | 3 |
| Músculo-esquelético | Rabdomiólise (M6282) | 2 | 1 | 1 | 1 | 5 |
| Gastrointestinal | Gastroenterite e colite tóxicas (K521) | 2 | 0 | 0 | 0 | 2 |
| Hepático | Hepatite tóxica (K716) | 1 | 0 | 1 | 0 | 2 |
| Inespecífico | Febre NE (R509) | 4 | 1 | 2 | 0 | 7 |
| Inespecífico | Vómitos NE (R1110) | 1 | 0 | 1 | 0 | 2 |
| Inespecífico | Complicações pós-imunização (T881XXA) | 2 | 1 | 0 | 0 | 3 |
Incluem-se diagnósticos com ≥ 2 ocorrências no período 2021–2024. Diagnósticos com n < 2 foram omitidos da tabela mas integram os totais anuais.
Classificação por grupo clínico baseada no diagnóstico principal (D1). Ano de 2021.
Distribuição por sexo e grupos etários (2021–2024)
A análise por sexo e faixa etária revela padrões clinicamente relevantes:
- Adolescentes masculinos (12–17 anos): 11 rapazes vs. 7 raparigas — predomínio masculino consistente com a literatura internacional sobre miocardite pós-mRNA em adolescentes.
- Adultos jovens (18–29 anos): 7 homens vs. 4 mulheres.
- 30–49 anos: inversão — 14 homens vs. 17 mulheres.
- 50–64 anos: 13 homens vs. 20 mulheres.
- 65–80 anos: 18 homens vs. 26 mulheres — reflexo da maior proporção de mulheres nesta faixa etária na população e de maior procura de cuidados.
- > 80 anos: 16 homens vs. 18 mulheres.
A idade média dos doentes com quadro cardíaco em 2021 foi de 30,8 anos (a mais jovem de todos os grupos clínicos), confirmando a associação entre miocardite/pericardite pós-vacinal e população jovem. O grupo hematológico/trombótico apresentou idade média de 66,4 anos e o grupo vascular/tromboembólico de 78,7 anos.
Fonte: BDMH/ACSS 2021–2024. Internamentos com T50B95A em qualquer posição de diagnóstico.
Adolescentes (12–17 anos): detalhe mensal em 2021
Dos 17 internamentos de adolescentes registados em 2021, 12 concentram-se em Setembro — ou seja, 71% do total desta faixa etária num único mês. Este pico é exactamente coincidente com o arranque da vacinação COVID-19 nos adolescentes dos 12 aos 17 anos em Portugal, que decorreu precisamente em Setembro de 2021 com a vacina Pfizer/BioNTech (BNT162b2).
A distribuição mensal é a seguinte:
- Junho: 1 caso (rapariga de 16 anos, vómitos pós-vacinais, 5 dias)
- Agosto: 2 casos (miocardite num rapaz de 13 anos; síndrome autoinflamatório numa rapariga de 16 anos)
- Setembro: 12 casos — pico em plena campanha de vacinação de adolescentes
- Outubro: 2 casos (pericardite e convulsões, ambos rapazes)
Em Setembro, o perfil clínico é dominado por patologia cardíaca inflamatória: 5 dos 12 casos têm diagnóstico de miocardite (I409, I408, B3322) ou pericardite (I308, I300). Todos são adolescentes entre os 12 e os 17 anos, com predomínio masculino (7M vs. 5F). A demora média foi de 4,5 dias e todos tiveram alta para domicílio, sem óbitos.
Apenas meses com internamentos registados. O pico de Setembro coincide com o início da vacinação COVID-19 (Pfizer/BioNTech) nos adolescentes 12–17 anos em Portugal.
| Mês | Diagnóstico principal (ICD-10) | n | Masculino | Feminino | Idade média |
|---|---|---|---|---|---|
| Junho | Vómitos NE (R1110) | 1 | 0 | 1 | 16 |
| Agosto | Miocardite aguda NE (I409) | 1 | 1 | 0 | 13 |
| Agosto | Síndrome autoinflamatório (M3581) | 1 | 0 | 1 | 16 |
| Setembro | Miocardite aguda NE (I409) | 3 | 2 | 1 | 15 |
| Setembro | Pericardite aguda — outras formas (I308) | 2 | 1 | 1 | 14,5 |
| Setembro | Miocardite viral (B3322) | 1 | 1 | 0 | 12 |
| Setembro | Pericardite aguda idiopática (I300) | 1 | 1 | 0 | 16 |
| Setembro | ADEM pós-imunização (G0402) | 1 | 0 | 1 | 14 |
| Setembro | Hemiplegia esq. não dominante (G8194) | 1 | 1 | 0 | 15 |
| Setembro | Neoplasia maligna do cérebro (C710) | 1 | 1 | 0 | 17 |
| Setembro | Gastroenterite/colite não-infecciosa (K529) | 1 | 0 | 1 | 14 |
| Setembro | Cefaleia (R519) | 1 | 0 | 1 | 16 |
| Outubro | Pericardite aguda — outras formas (I308) | 1 | 1 | 0 | 15 |
| Outubro | Convulsões NE (R569) | 1 | 1 | 0 | 16 |
ADEM = Encefalomielite Aguda Disseminada. Nenhum óbito nesta faixa etária. Todos com alta para domicílio, excepto dois transferidos para outra instituição.
Os 5 óbitos intra-hospitalares
Registaram-se 5 mortes intra-hospitalares ao longo de toda a série (2016–2024), correspondendo a uma taxa global de 2,4%. Três ocorreram em 2021, um em 2018 e um em 2024. Nenhum dos óbitos ocorreu em menores de 18 anos.
Óbito 1 — 2018 · Masculino, 82 anos · Amadora · ULS Amadora/Sintra
Diagnóstico principal: Púrpura trombocitopénica imune (D693) Comorbilidades: Diabetes tipo II, diverticulose com hemorragia, anemia pós-hemorrágica, efeito adverso de anticoagulantes Demora: 92 dias (entrada em Novembro de 2017, alta em Fevereiro de 2018) Quadro clínico: Doente muito idoso com PTI pós-vacinal complicada por hemorragia digestiva grave (melena) em contexto de diverticulose e anticoagulação. Internamento muito prolongado com complicação infecciosa associada a procedimentos invasivos.
Óbito 2 — 2021 · Feminino, 79 anos · Ponte de Lima · ULS Alto Minho
Diagnóstico principal: Endocardite (válvula não especificada) (I38) Comorbilidades: Embolia e trombose da aorta abdominal, embolia arterial séptica, insuficiência cardíaca, doença renal crónica, demência Demora: 7 dias (Fevereiro–Março 2021 — primeiras semanas da vacinação COVID-19) Quadro clínico: Doente idosa com multimorbilidade cardiovascular e renal grave. Endocardite bacteriana complicada por embolia séptica e trombose aórtica — quadro séptico-embólico fulminante.
Óbito 3 — 2021 · Feminino, 100 anos · Porto · ULS Santo António
Diagnóstico principal: Insuficiência renal aguda (N179) Comorbilidades: Hipercaliemia, acidose, hiponatremia, bradicardia, gastroenterite tóxica, diabetes tipo II com DRC, insuficiência cardíaca Demora: 1 dia (Abril 2021) Quadro clínico: Centenária com múltiplas comorbilidades. Falência multiorgânica rápida com distúrbios electrolíticos graves. O código T50B95A associado a gastroenterite tóxica (K521) sugere reacção gastrointestinal pós-vacinal no contexto de fragilidade extrema.
Óbito 4 — 2021 · Masculino, 37 anos · Seixal · ULS Almada/Seixal ⚠️
Diagnóstico principal: Enfarte do baço (D735) Comorbilidades: Hemoperitoneu, choque hipovolémico, anemia aguda pós-hemorrágica, trombocitopenia, trombose da veia porta Demora: 0 dias (admissão e morte a 3 de Agosto de 2021) Procedimentos: Esplenectomia aberta de emergência; transfusão maciça (glóbulos vermelhos, plasma fresco, plaquetas, fibrinogénio) Quadro clínico: O caso mais significativo da série. Homem de 37 anos sem comorbilidades relevantes (obesidade e tabagismo), morto no próprio dia da admissão. O quadro de enfarte esplénico com rotura, hemoperitoneu, choque hipovolémico, trombocitopenia e trombose da veia porta é altamente sugestivo de VITT (Vaccine-Induced Immune Thrombocytopenia and Thrombosis) — a síndrome grave descrita sobretudo com as vacinas de vector adenoviral (AstraZeneca, Janssen), com particular incidência em adultos jovens. A esplenectomia de emergência com transfusão maciça não foi suficiente para evitar o óbito.
Óbito 5 — 2024 · Masculino, 92 anos · Amadora · ULS Amadora/Sintra
Diagnóstico principal: Reacção anafilática por efeito adverso de agente medicinal (T886XXA) Comorbilidades: Edema da língua, disfonia, cianose, dispneia, insuficiência cardíaca sistólica crónica agudizada, doença renal crónica, DPOC Demora: 14 dias (Setembro–Outubro 2024) Procedimentos: Vasopressores IV, anti-inflamatórios IV, antibioterapia IV Quadro clínico: Doente de 92 anos com comorbilidades cardiovasculares e respiratórias graves. Admissão por anafilaxia com envolvimento das vias aéreas (edema da língua, disfonia, cianose). A insuficiência cardíaca sistólica crónica agudizada foi a causa terminal provável após 14 dias de internamento.
| Ano | Idade | Sexo | Residência | ULS | Diagnóstico principal | Demora (dias) | Perfil |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2018 | 82 | M | Amadora (Lisboa) | ULS Amadora/Sintra | PTI + hemorragia digestiva | 92 | Idoso com multimorbilidade |
| 2021 | 79 | F | Ponte de Lima (Viana do Castelo) | ULS Alto Minho | Endocardite + embolia séptica | 7 | Idosa com multimorbilidade |
| 2021 | 100 | F | Porto | ULS Santo António | Insuf. renal aguda + falência multiorgânica | 1 | Centenária — fragilidade extrema |
| 2021 | 37 | M | Seixal (Setúbal) | ULS Almada/Seixal | Enfarte do baço + VITT + choque hipovolémico | 0 | ⚠️ Jovem — morte fulminante (VITT provável) |
| 2024 | 92 | M | Amadora (Lisboa) | ULS Amadora/Sintra | Anafilaxia + IC sistólica agudizada + DPOC | 14 | Idoso com multimorbilidade |
Óbito intra-hospitalar definido como destino de alta dsp=20. Demora em dias de internamento efectivo.
Internamentos de menores de 18 anos (2021–2024)
Identificaram-se 28 internamentos em doentes com menos de 18 anos desde 2021, sem qualquer óbito. A distribuição é marcadamente assimétrica: 18 casos em 2021, 4 em 2022, 3 em 2023 e 3 em 2024.
Padrões clínicos pediátricos
Lactentes e crianças pequenas (< 2 anos) — 8 casos: Todos com quadros ligeiros (febre pós-vacinal, vómitos, celulite local de injecção), típicos das vacinas do calendário nacional de vacinação infantil (hexavalente, pneumocócica, meningocócica, varicela). Nenhum requereu cuidados intensivos.
Adolescentes (12–17 anos) — 18 casos em 2021, concentrados entre Agosto e Outubro: O perfil é dominado por patologia cardíaca inflamatória — 9 dos 18 casos têm diagnóstico principal de miocardite (5 casos: I409, I408, B3322) ou pericardite (4 casos: I308, I300), todos em rapazes de 12–16 anos, com excepção de uma rapariga de 16 anos com miocardite. Este padrão é epidemiologicamente consistente com o sinal de segurança internacional identificado para as vacinas mRNA (Pfizer/BioNTech), particularmente após a 2.ª dose em rapazes adolescentes, e com o período de vacinação dessa faixa etária em Portugal (Setembro–Outubro 2021).
Casos neurológicos graves — 4 casos:
- 2 casos de ADEM (Acute Disseminated Encephalomyelitis pós-imunização, G0402): raparigas de 14 e 16 anos, tratadas com punção lombar e imunossupressores/imunoglobulina IV, ambas recuperadas.
- 1 hemiplegia (G8194): rapaz de 15 anos, alta no próprio dia — possível quadro transitório.
- 1 paralisia bilateral do III par craniano + paralisia de Bell (H4903 + G510): rapaz de 9 anos, tratado com imunoglobulina IV, 8 dias de internamento.
Casos em contexto oncológico — 2 casos:
- Rapaz de 17 anos com tumor cerebral maligno, com miocardite e derrame pericárdico associados (internamento de 23 dias).
- Criança de 11 anos com neoplasia maligna da subglote e COVID-19 activa. Nestes dois casos, a causalidade directa da vacina é muito difícil de estabelecer dado o contexto de imunossupressão oncológica.
Outros casos notáveis:
- Criança de 5 anos com pan-uveíte grave do olho esquerdo associada a complicação de varicela, submetida a paracentese ocular (15 dias de internamento).
- Lactente de 1 ano com trombocitopenia secundária associada a citomegalovírus, tratado com imunoglobulina IV.
| Ano | Idade | Sexo | Residência | Hospital | Diagnóstico principal | Demora (d) | Alta |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2021 | 1 ano | M | Guimarães (Braga) | ULS Alto Ave | Febre NE | 2 | Domicílio |
| 2021 | 12 anos | M | Lagos (Faro) | ULS Algarve | Pericardite aguda | 0 | Transferido |
| 2021 | 12 anos | M | Lagos (Faro) | ULS Lisboa Ocidental | Miocardite viral (RM+) | 5 | Domicílio |
| 2021 | 13 anos | M | Ílhavo (Aveiro) | ULS Coimbra | Miocardite aguda | 4 | Domicílio |
| 2021 | 13 anos | M | Sta. M. Feira (Aveiro) | ULS Coimbra | Miocardite aguda + TSV | 5 | Domicílio |
| 2021 | 14 anos | F | Chaves (Vila Real) | ULS TM e Alto Douro | Gastroenterite/colite | 1 | Domicílio |
| 2021 | 14 anos | F | Sta. M. Feira (Aveiro) | ULS Entre Douro e Vouga | ADEM pós-imunização | 3 | Domicílio |
| 2021 | 15 anos | M | Portalegre | ULS Alto Alentejo | Hemiplegia esq. | 0 | Domicílio |
| 2021 | 15 anos | M | Alfândega da Fé (Bragança) | ULS São João | Pericardite aguda | 2 | Domicílio |
| 2021 | 16 anos | F | Maia (Porto) | ULS Santo António | Vómitos (doença metabólica) | 5 | Domicílio |
| 2021 | 16 anos | F | Guimarães (Braga) | ULS Alto Minho | Sínd. autoinflamatório | 4 | Transferida |
| 2021 | 16 anos | F | Coimbra | ULS Coimbra | Miocardite aguda | 7 | Domicílio |
| 2021 | 16 anos | M | Viseu | ULS Coimbra | Miocardite aguda | 4 | Domicílio |
| 2021 | 16 anos | F | Lousã (Coimbra) | ULS Coimbra | Cefaleia / Parestesias | 1 | Domicílio |
| 2021 | 16 anos | M | Faro | ULS Algarve | Pericardite idiopática (RM+) | 2 | Domicílio |
| 2021 | 16 anos | M | Leiria | ULS Região de Leiria | Convulsões | 1 | Domicílio |
| 2021 | 17 anos | F | Lagos (Faro) | ULS Algarve | Pericardite aguda | 3 | Domicílio |
| 2021 | 17 anos | M | Espinho (Aveiro) | ULS São João | Tumor cerebral + miocardite + derrame pericárdico | 23 | Domicílio |
| 2022 | < 1 ano | F | Guarda | ULS Guarda | Melena | 6 | Domicílio |
| 2022 | 9 anos | M | Silves (Faro) | ULS Algarve | Paralisia III par bilateral + Bell | 8 | Domicílio |
| 2022 | 11 anos | M | Lisboa | ULS Santa Maria | Tumor subglote + COVID-19 | 4 | Domicílio |
| 2022 | 16 anos | M | Águeda (Aveiro) | ULS Coimbra | ADEM pós-imunização | 4 | Domicílio |
| 2023 | < 1 ano | F | Chaves (Vila Real) | ULS TM e Alto Douro | Febre NE | 2 | Domicílio |
| 2023 | < 1 ano | F | Pombal (Leiria) | ULS Região de Leiria | Febre NE | 0 | Domicílio |
| 2023 | < 1 ano | M | V. N. Gaia (Porto) | ULS Gaia/Espinho | Vómitos NE | 3 | Domicílio |
| 2024 | 1 ano | M | Porto | ULS Matosinhos | Celulite local de injecção | 1 | Domicílio |
| 2024 | 1 ano | M | Torres Vedras (Lisboa) | ULS Santa Maria | Trombocitopenia + CMV | 3 | Domicílio |
| 2024 | 5 anos | M | Lisboa | ULS São José | Pan-uveíte + varicela + sínd. nefrótica | 15 | Domicílio |
CMV = Citomegalovírus; ADEM = Encefalomielite Aguda Disseminada; TSV = Taquicardia Supraventricular; RM+ = diagnóstico confirmado por Ressonância Magnética.
Distribuição hospitalar
Os internamentos concentram-se nos grandes centros hospitalares universitários e nas ULS com maior cobertura populacional. No período 2021–2024, os hospitais com mais internamentos foram a ULS de Santo António e a ULS de São João (14 casos cada), seguidos pela ULS de Santa Maria (13) e ULS de Coimbra (11). Esta distribuição reflecte tanto a dimensão das instituições como a sua função de referência para casos graves, nomeadamente pediátricos e neurológicos.
A ULS de Coimbra destaca-se pela concentração de 5 casos de miocardite em adolescentes em Setembro de 2021 — possivelmente reflexo de uma política de referenciação regional activa após a identificação do sinal de segurança.
| Hospital/ULS | N.º internamentos |
|---|---|
| ULS de Santo António, E.P.E. | 14 |
| ULS de São João, E.P.E. | 14 |
| ULS de Santa Maria, E.P.E. | 13 |
| ULS de Coimbra, E.P.E. | 11 |
| ULS do Algarve, E.P.E. | 9 |
| ULS de Matosinhos, E.P.E. | 8 |
| ULS de Amadora / Sintra, E.P.E. | 8 |
| Hospital de Cascais Dr. José de Almeida | 8 |
| ULS de Loures / Odivelas, E.P.E. | 7 |
| ULS do Alto Alentejo, E.P.E. | 6 |
| ULS do Tâmega e Sousa, E.P.E. | 6 |
| ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro, E.P.E. | 6 |
| ULS de Gaia / Espinho, E.P.E. | 5 |
| ULS de São José, E.P.E. | 5 |
| ULS de Entre Douro e Vouga, E.P.E. | 5 |
Nomenclatura hospitalar reflecte a estrutura organizativa de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente).
Limitações e cautelas interpretativas
1. Ausência de código específico para vacinas COVID-19
O código T50B95A engloba todas as vacinas víricas — gripe, sarampo, varicela, etc. — e não é exclusivo das vacinas COVID-19. A atribuição à COVID-19 em 2021–2022 é altamente provável dado o contexto epidemiológico e o volume sem precedentes, mas não é confirmável individualmente pela codificação.
2. Sub-registo expectável
O código T50B95A como causa externa é sistematicamente sub-registado. Muitos doentes podem ter sido internados com o diagnóstico da manifestação (miocardite, trombose, Guillain-Barré) sem que o codificador tenha registado a vacina como causa externa. Os 206 internamentos identificados representam um limite inferior — o número real de hospitalizações relacionadas com vacinas víricas é provavelmente superior.
3. Causalidade vs. associação temporal
A presença do código T50B95A significa que o clínico/codificador estabeleceu uma relação causal presumível entre a vacina e o quadro clínico — não constitui prova epidemiológica de causalidade. Em doentes idosos com múltiplas comorbilidades, a distinção entre coincidência temporal e causalidade é particularmente difícil. A excepção mais clara é o Óbito 4 (caso VITT), onde o quadro clínico é altamente específico da síndrome descrita na literatura.
4. Impossibilidade de cálculo de taxas de incidência precisas
Sem informação sobre o número de doses administradas por tipo de vacina, faixa etária e sexo, não é possível calcular taxas de incidência de efeitos adversos por 100.000 doses — o denominador correcto para análise de farmacovigilância. Esta análise requereria o cruzamento com dados da DGS/SPMS.
5. Ausência do código U12.9 (EUA)
A versão americana do ICD-10-CM criou em 2021 o código U12.9 («COVID-19 vaccines causing adverse effects in therapeutic use»), que não foi adoptado na codificação clínica portuguesa. A sua ausência na BDMH confirma que T50B95A é o único proxy disponível.
Metodologia
Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH/ACSS), episódios de internamento do SNS português, anos 2016 a 2024 (38,5 milhões de episódios no total da base).
Critério de selecção: Presença do código ICD-10-CM T50B95A («Efeito adverso de outras vacinas víricas, admissão inicial») em qualquer posição de diagnóstico (D1 a D10), em episódios classificados como internamento (tipo_port_apr31 = 'Int'). O código está disponível apenas a partir de 2016 (introdução do ICD-10 na BDMH; a grande maioria dos episódios anteriores a 2017 usa ICD-9-CM).
Período de análise: 2016–2024 para a série temporal; 2021–2024 para as análises detalhadas de perfil clínico e pediátrico; Ano de 2021 por mês para a faixa etária 12–17 anos.
Identificação de episódios: Cada episódio é identificado univocamente pelo tuplo (n_ficticio_utente, hospital, data_entrada, data_saida). Utilizou-se a tabela diagnoses (formato longo) para localizar o código T50B95A em qualquer posição, com JOIN à tabela episodes para obter os atributos do episódio.
Óbito intra-hospitalar: Definido como destino de alta dsp = 20.
Grupos etários: < 12 anos; 12–17 anos; 18–29 anos; 30–49 anos; 50–64 anos; 65–80 anos; > 80 anos.
Diagnóstico principal: Código na posição D1 do episódio, com descrição obtida por JOIN à tabela dim_icd_diag (icd_versao = '10').
Supressão de célula: Células com n < 5 suprimidas nas tabelas de detalhe agregado (não aplicável às narrativas individuais de casos).
Nota sobre nomenclatura hospitalar: Os nomes dos hospitais reflectem a estrutura organizativa de 2025 após as fusões em Unidades Locais de Saúde, aplicadas retroactivamente pela ACSS a toda a série histórica.
Quebras de série: A análise incide sobre internamentos (tipo_port_apr31='Int'), pelo que as quebras de 2007 (entrada de linhas ambulatórias) e 2013 (redefinição de internamento) não afectam materialmente os resultados. O ano de 2020 está marcado pelo impacto da COVID-19 nas hospitalizações em geral.
Elaborado por: Página UM / Análise BDMH · Dados ACSS/SNS · Referência interna: internamentos-t50b95a-vacinas-viricas-2016-2024