Fraturas Proximais do Fémur em Maiores de 65 Anos (2000–2024)
Entre 2000 e 2024, os internamentos hospitalares por fratura proximal do fémur em doentes com 65 ou mais anos quase duplicaram nos hospitais do SNS português, passando de cerca de 7 500 para 14 000 episódios anuais — reflexo do envelhecimento progressivo da população. A demora média de internamento desceu de 16 para cerca de 15 dias, e a mortalidade hospitalar manteve-se globalmente estável, em torno dos 5–6%, com um pico em 2022 coincidente com o pós-pandemia.
Contexto
A fratura proximal do fémur — que engloba as fraturas do colo do fémur e as fraturas pertrocantéricas — é uma das principais causas de internamento hospitalar urgente em idosos e um indicador sensível do envelhecimento populacional e da qualidade dos cuidados ortogeriátricos. Em Portugal, a crescente proporção de pessoas com 65 ou mais anos torna este grupo de patologias uma prioridade de saúde pública: estima-se que a mortalidade ao ano após a fratura possa atingir 20–30%, mesmo quando o episódio hospitalar termina com alta para domicílio.
Este estudo analisa a evolução dos episódios de internamento registados na Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH/ACSS) entre 2000 e 2024, focando-se em três dimensões: volume de episódios, demora média de internamento e mortalidade hospitalar.
Internamentos SNS com diagnóstico principal de fratura proximal do fémur (ICD-9: 820.xx; ICD-10: S720.x + S721.x), doentes com idade ≥65 anos. Quebra de classificação ICD-9→ICD-10 em 2017 corrigida por inclusão dos grupos S720 e S721. Ano 2020 afectado pela pandemia COVID-19.
Principais Tendências
Volume crescente. O número anual de internamentos por fratura proximal do fémur em doentes com 65 ou mais anos passou de 7 504 em 2000 para 14 003 em 2024, um crescimento de 87% em 24 anos. O aumento foi praticamente contínuo, com apenas duas interrupções transitórias: em 2002 (ligeira quebra, sem causa identificada nos dados) e em 2020 (ano da pandemia COVID-19), quando se registou uma contracção de 2,3% face a 2019, provavelmente associada ao adiamento de cuidados não urgentes e ao sub-registo pandémico.
Demora média em queda tendencial. A demora média desceu de 16,3 dias em 2000 para um mínimo de 13,7 dias em 2021, com uma ligeira recuperação posterior para os 15 dias em 2022–2024. A redução da primeira metade da série é consistente com a implementação de vias clínicas de ortopedia e ortogeriátria, bem como com a pressão para a redução de dias de internamento. A recuperação pós-2021 poderá refletir maior complexidade dos doentes tratados ou congestionamento hospitalar no período pós-pandemia.
Mortalidade hospitalar estável. A taxa de mortalidade hospitalar oscilou entre 4,7% (2014) e 6,5% (2002), sem tendência sistemática de melhoria ao longo do período. Os valores mais elevados em 2020 e 2022 (6,2% em ambos os anos) merecem monitorização continuada.
| Ano | Episódios | Demora média (dias) | Óbitos | Mortalidade hosp. (%) |
|---|---|---|---|---|
| 2000 | 7504 | 16,3 | 470 | 6,3 |
| 2001 | 8248 | 16 | 504 | 6,1 |
| 2002 | 8077 | 15,2 | 521 | 6,5 |
| 2003 | 8567 | 14,7 | 467 | 5,5 |
| 2004 | 8629 | 14,3 | 474 | 5,5 |
| 2005 | 8758 | 14,6 | 536 | 6,1 |
| 2006 | 8812 | 14,5 | 455 | 5,2 |
| 2007 | 9111 | 14,1 | 504 | 5,5 |
| 2008 | 9481 | 14 | 508 | 5,4 |
| 2009 | 9845 | 14,5 | 562 | 5,7 |
| 2010 | 10 291 | 15 | 561 | 5,5 |
| 2011 | 10 652 | 14,7 | 560 | 5,3 |
| 2012 | 11 067 | 14,6 | 575 | 5,2 |
| 2013 | 11 419 | 14,1 | 557 | 4,9 |
| 2014 | 11 821 | 14,1 | 552 | 4,7 |
| 2015 | 12 187 | 14,3 | 593 | 4,9 |
| 2016 | 12 578 | 14,3 | 685 | 5,4 |
| 2017 | 11 699 | 15 | 625 | 5,3 |
| 2018 | 11 924 | 15,3 | 588 | 4,9 |
| 2019 | 12 345 | 15,2 | 616 | 5 |
| 2020 | 12 065 | 14,5 | 751 | 6,2 |
| 2021 | 12 290 | 13,7 | 690 | 5,6 |
| 2022 | 12 982 | 15,4 | 811 | 6,2 |
| 2023 | 13 781 | 15,1 | 743 | 5,4 |
| 2024 | 14 003 | 15,1 | 724 | 5,2 |
Mortalidade hospitalar = alta com dsp=20 (óbito). Demora média exclui episódios com dias_int = -1 (sentinela).
Metodologia
Fonte: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS, anos 2000–2024 (38,5 M episódios totais).
Universo: Episódios de internamento (tipo_port_apr31 = 'Int') em hospitais do SNS, com diagnóstico principal de fratura proximal do fémur, em doentes com idade ≥ 65 anos à entrada.
Codificação de diagnósticos:
- ICD-9-CM (2000–2016): código principal
820.xx— fratura do colo do fémur, todas as sub-categorias (transcervical, peritrocanteriana, exposta e fechada). - ICD-10-CM/PCS (2017–2024, com ~5,6% de episódios já em ICD-10 em 2016): códigos
S720.xxx(fratura do colo e cabeça do fémur) eS721.xxx(fratura pertrocantérica), que correspondem ao mesmo universo clínico do820.xxICD-9. A inclusão deS721é necessária para continuidade da série, pois as fraturas pertrocantéricas (sub-trocantéricas e intertrocantéricas) estavam incluídas em820%no ICD-9.
Exclusões: Episódios com dias_int = -1 (sentinela, ~72 k linhas, maioritariamente ambulatório 2009–2011) excluídos do cálculo da demora média e do total de episódios.
Mortalidade hospitalar: Alta com destino dsp = 20 (óbito intra-hospitalar). Não inclui mortes após a alta.
Notas sobre quebras de série:
- 2007: entrada de linhas de ambulatório no extracto — sem impacto nesta análise (filtro
tipo_port_apr31 = 'Int'). - 2013: redefinição do internamento (1,31 M → 1,01 M) — pode influenciar ligeiramente os totais absolutos, mas o padrão de crescimento mantém-se.
- 2020: impacto da pandemia COVID-19 na actividade hospitalar.
- Os nomes dos hospitais reflectem a estrutura organizacional de 2025 (ULS), aplicada retroactivamente a toda a série.
Contagem: Por episódio (não por doente); o mesmo doente com múltiplos internamentos é contado várias vezes.