11 de julho de 2026

Fracturas dos Membros Inferiores em Portugal — Internamentos no SNS (2000–2024)

por Jose Maria Pereira

Entre 2000 e 2024, os hospitais do SNS registaram mais de 463 000 internamentos por fractura dos membros inferiores, divididos entre fracturas da anca (colo do fémur) e fracturas de outros segmentos do membro inferior. A fractura da anca revela uma tendência de crescimento acentuado — quase duplicando em 24 anos —, reflexo directo do envelhecimento da população portuguesa. A mortalidade hospitalar associada à fractura da anca mantém-se elevada, na ordem dos 5%, contrastando com os 0,7% das restantes fracturas do membro inferior.

Contexto

As fracturas dos membros inferiores constituem uma das causas mais frequentes de internamento hospitalar em Portugal, com impacto clínico, social e económico considerável. A fractura do colo do fémur (anca) é particularmente grave na população idosa: associa-se a mortalidade hospitalar elevada, longos períodos de internamento e elevada probabilidade de perda de autonomia funcional. As fracturas de outros segmentos do membro inferior (tíbia, perónio, fémur extra-cervical, tornozelo) afectam um espectro etário mais alargado e têm prognóstico geralmente mais favorável.

Este relatório analisa a evolução dos internamentos por estas duas categorias nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde entre 2000 e 2024, com base na Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH/ACSS).

463 015
Total de internamentos (2000–2024)
Fractura da anca (271 980) + outras fracturas do membro inferior (191 035)
25 820
Internamentos em 2024
+40,6% face a 2000 (18 360 episódios)
5,1%
Mortalidade hospitalar — fractura da anca
Vs. 0,7% nas outras fracturas do membro inferior (média 2000–2024)

Perfil demográfico

Sexo

As duas categorias revelam perfis de sexo opostos. A fractura da anca é esmagadoramente feminina: 75% dos internamentos correspondem a mulheres, reflexo da maior prevalência de osteoporose no sexo feminino e da maior longevidade feminina. Pelo contrário, nas outras fracturas do membro inferior predominam os homens (52,4%), tipicamente associadas a trauma em idades activas (acidentes de trabalho, de viação, desporto).

Idade

A fractura da anca é uma patologia quase exclusiva da população idosa: 90,5% dos episódios ocorreram em doentes com 65 ou mais anos. As outras fracturas do membro inferior distribuem-se de forma mais equilibrada — 64,8% em doentes dos 25 aos 64 anos —, com presença relevante em crianças e jovens (19,2% até aos 24 anos).

Distribuição etária dos internamentos por tipo de fractura (2000–2024)

Fonte: BDMH/ACSS. Idades entre 0 e 110 anos. Episódios de internamento com diagnóstico principal.

Mortalidade hospitalar

A mortalidade intra-hospitalar constitui um indicador de resultado crítico, especialmente para a fractura da anca. Ao longo de todo o período, a taxa situou-se em torno dos 5% — isto é, em cada 20 doentes internados por fractura da anca, um falece durante o internamento. Esta taxa é cerca de sete vezes superior à das outras fracturas do membro inferior (0,7%).

A evolução temporal não revela uma melhoria consistente: após um ligeiro declínio entre 2006 e 2015, a mortalidade voltou a subir nos anos mais recentes, atingindo 5,9% em 2020 e 5,9% em 2022 — anos marcados pela pandemia e pelo excesso de mortalidade associado. O valor de 2024 (4,9%) é o mais baixo da série recente, mas ainda distante de metas europeias mais ambiciosas.

Mortalidade hospitalar por fractura da anca (%) — 2000–2024

Fonte: BDMH/ACSS. dsp=20 (óbito intra-hospitalar). Episódios de internamento com diagnóstico principal de fractura do colo do fémur (CCS 226).

Demora média de internamento

A demora média de internamento é substancialmente mais elevada na fractura da anca (14,7 dias em média, todo o período) do que nas restantes fracturas do membro inferior (9,9 dias). Ambas as categorias registaram uma redução face aos valores de 2000 (16,2 e 11,7 dias, respectivamente), reflectindo a evolução das práticas cirúrgicas e dos protocolos de alta. Contudo, nos anos mais recentes (2022–2024), observa-se um ligeiro aumento na fractura da anca, possivelmente associado a pressão sobre camas hospitalares e dificuldades na articulação com respostas de continuidade de cuidados.

Série anual completa — Internamentos por fractura dos membros inferiores (2000–2024)
AnoFractura da ancaOutras fracturas mb. inf.TotalDM Int — anca (dias)DM Int — outras (dias)Mort. anca (%)Mort. outras (%)
20008493986718 36016,211,75,710,55
20019296990319 19915,811,45,570,73
20029009970318 71215,2115,880,61
20039593940919 00214,610,450,86
20049551908318 63414,410,25,110,67
20059718890818 62614,69,95,60,65
20069746890518 65114,410,24,730,53
200710 115886518 980149,65,170,61
200810 482889519 377149,45,030,8
200910 809880419 61314,39,35,340,78
201011 261890620 16714,89,25,120,55
201111 590871420 30414,59,34,940,46
201212 058833720 39514,594,850,65
201312 430865221 082149,14,620,69
201412 824845221 276149,14,380,54
201513 181847721 65814,19,54,630,72
201613 683878822 47114,29,45,150,69
201713 746915022 89614,99,54,970,64
201813 932949523 42715,2104,750,75
201914 515975924 27415,79,84,770,61
202014 006890122 90714,49,85,950,95
202114 240948623 72613,79,35,330,98
202215 056960724 66315,29,85,890,95
202315 990960825 59815,110,45,20,69
202416 203961725 82014,910,34,870,7

SNS, episódios de internamento. DM Int = demora média de internamento (dias). Mort. = mortalidade hospitalar (%). Valores arredondados.

Conclusões

  1. Crescimento estrutural da fractura da anca. Com 16 203 internamentos em 2024 — quase o dobro de 2000 — esta patologia representa hoje o maior desafio de carga hospitalar neste grupo. O envelhecimento demográfico sugere que esta tendência continuará a agravar-se nas próximas décadas.
  2. Feminização marcada. Três em cada quatro internamentos por fractura da anca ocorrem em mulheres, tornando esta uma prioridade específica de saúde feminina na população idosa, com implicações para programas de prevenção da osteoporose.
  3. Mortalidade hospitalar persistentemente elevada. A taxa de 5% na fractura da anca não registou melhoria substancial ao longo de 24 anos, excepto no período 2011–2015. O pico de 2020–2022 (próximo de 6%) está associado ao contexto pandémico.
  4. Estabilidade das outras fracturas. As fracturas traumáticas de outros segmentos do membro inferior mantiveram volumes estáveis, com mortalidade baixa (0,7%) e demora média em redução gradual. Afectam sobretudo homens em idade activa.
  5. Demora média ainda elevada. Os 14,7 dias de internamento médio na fractura da anca constituem um indicador de pressão sobre os serviços hospitalares e de dificuldade de articulação com cuidados de reabilitação e continuados.

Metodologia

Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS — episódios de internamento inpatient de 2000 a 2024 em hospitais do SNS português (38,5 milhões de episódios totais na base).

Filtros aplicados:

  • Tipo de produção: internamento (tipo_port_apr31 = 'Int').
  • Diagnóstico principal (campo d1) classificado nas categorias CCS 226 (Fracture of neck of femur / hip) e CCS 230 (Fracture of lower limb).
  • Idades válidas: 0–110 anos (para análises etárias).
  • Sexo: 1 (masculino) e 2 (feminino), excluindo registos indeterminados nas análises por sexo.

Classificação de diagnósticos: Utilizado o sistema AHRQ Clinical Classifications Software (CCS), que harmoniza automaticamente os códigos ICD-9-CM (episódios até 2016) e ICD-10-CM/PCS (episódios a partir de 2017, com transição parcial em 2016). Isto garante comparabilidade temporal sem necessidade de mapas manuais entre versões ICD.

Mortalidade: Definida como dsp = 20 (óbito intra-hospitalar).

Demora média: Calculada sobre episódios com dias_int >= 0 (excluindo o valor sentinela -1, presente em ~72 000 episódios maioritariamente ambulatórios de 2009–2011).

Doentes únicos: Contagem de n_ficticio_utente distintos, excluindo IDs sentinela (sentinel_patient_ids) e registos sem identificador. Nota: a ligação entre episódios de anos diferentes pode estar incompleta para o período anterior a 2006 (até 26% de episódios não identificados em 2000).

Quebras de série a considerar: O ano de 2007 marca a entrada de linhas ambulatórias na base (não afecta esta análise por se filtrar apenas internamentos); 2013 corresponde a uma mudança de definição de internamento (não afecta a série de forma material neste grupo); 2020 reflecte o impacto da pandemia COVID-19.

Nomes de hospitais: Reflectem a estrutura organizacional de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente), pelo que os nomes históricos das entidades podem não coincidir.

Reprodutibilidade: consultas SQL utilizadas (7)

Episódios de internamento por fractura do membro inferior e colo do fémur, por ano

SELECT e.ano, c.ccs_cat, c.ccs_descricao, COUNT(*) AS episodios FROM episodes e JOIN ccs c ON c.icd_versao = e.icd_versao AND c.codigo = e.d1 WHERE c.ccs_cat IN (226, 230) AND e.tipo_port_apr31 = 'Int' GROUP BY e.ano, c.ccs_cat, c.ccs_descricao ORDER BY e.ano, c.ccs_cat

Total de episódios e doentes únicos por fractura do membro inferior (2000-2024)

SELECT c.ccs_cat, c.ccs_descricao, COUNT(*) AS total_episodios, COUNT(DISTINCT e.n_ficticio_utente) AS doentes_unicos FROM episodes e JOIN ccs c ON c.icd_versao = e.icd_versao AND c.codigo = e.d1 WHERE c.ccs_cat IN (226, 230) AND e.tipo_port_apr31 = 'Int' AND e.n_ficticio_utente NOT IN (SELECT n_ficticio_utente FROM sentinel_patient_ids) AND e.n_ficticio_utente IS NOT NULL GROUP BY c.ccs_cat, c.ccs_descricao ORDER BY c.ccs_cat

Distribuição por sexo e ano das fracturas do membro inferior

SELECT e.ano, e.sexo, c.ccs_cat, COUNT(*) AS episodios FROM episodes e JOIN ccs c ON c.icd_versao = e.icd_versao AND c.codigo = e.d1 WHERE c.ccs_cat IN (226, 230) AND e.tipo_port_apr31 = 'Int' AND e.sexo IN (1, 2) GROUP BY e.ano, e.sexo, c.ccs_cat ORDER BY e.ano, c.ccs_cat, e.sexo

Distribuição por faixa etária das fracturas do membro inferior

SELECT CASE WHEN idade < 15 THEN '0-14' WHEN idade < 25 THEN '15-24' WHEN idade < 65 THEN '25-64' ELSE '65+' END AS faixa_etaria, c.ccs_cat, c.ccs_descricao, COUNT(*) AS episodios FROM episodes e JOIN ccs c ON c.icd_versao = e.icd_versao AND c.codigo = e.d1 WHERE c.ccs_cat IN (226, 230) AND e.tipo_port_apr31 = 'Int' AND e.idade >= 0 AND e.idade <= 110 GROUP BY faixa_etaria, c.ccs_cat, c.ccs_descricao ORDER BY c.ccs_cat, faixa_etaria

Demora média de internamento e mortalidade hospitalar por tipo de fractura

SELECT c.ccs_cat, c.ccs_descricao, ROUND(AVG(CASE WHEN e.dias_int >= 0 THEN e.dias_int END), 1) AS media_dias_int, ROUND(AVG(CASE WHEN e.dias_int >= 0 AND e.ano BETWEEN 2000 AND 2005 THEN e.dias_int END), 1) AS media_dias_2000_2005, ROUND(AVG(CASE WHEN e.dias_int >= 0 AND e.ano BETWEEN 2020 AND 2024 THEN e.dias_int END), 1) AS media_dias_2020_2024, ROUND(100.0 * SUM(CASE WHEN e.dsp = 20 THEN 1 ELSE 0 END) / COUNT(*), 2) AS mortalidade_pct FROM episodes e JOIN ccs c ON c.icd_versao = e.icd_versao AND c.codigo = e.d1 WHERE c.ccs_cat IN (226, 230) AND e.tipo_port_apr31 = 'Int' GROUP BY c.ccs_cat, c.ccs_descricao

Evolução anual da demora média e mortalidade hospitalar por tipo de fractura

SELECT e.ano, c.ccs_cat, ROUND(AVG(CASE WHEN e.dias_int >= 0 THEN e.dias_int END), 1) AS media_dias, ROUND(100.0 * SUM(CASE WHEN e.dsp = 20 THEN 1 ELSE 0 END) / COUNT(*), 2) AS mortalidade_pct FROM episodes e JOIN ccs c ON c.icd_versao = e.icd_versao AND c.codigo = e.d1 WHERE c.ccs_cat IN (226, 230) AND e.tipo_port_apr31 = 'Int' GROUP BY e.ano, c.ccs_cat ORDER BY e.ano, c.ccs_cat

Rácio por sexo nas fracturas do membro inferior

SELECT c.ccs_cat, c.ccs_descricao, SUM(CASE WHEN e.sexo = 1 THEN 1 ELSE 0 END) AS masculino, SUM(CASE WHEN e.sexo = 2 THEN 1 ELSE 0 END) AS feminino, ROUND(100.0 * SUM(CASE WHEN e.sexo = 2 THEN 1 ELSE 0 END) / COUNT(*), 1) AS pct_feminino FROM episodes e JOIN ccs c ON c.icd_versao = e.icd_versao AND c.codigo = e.d1 WHERE c.ccs_cat IN (226, 230) AND e.tipo_port_apr31 = 'Int' AND e.sexo IN (1, 2) GROUP BY c.ccs_cat, c.ccs_descricao

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