Fracturas dos Membros Inferiores em Portugal — Internamentos no SNS (2000–2024)
por Jose Maria Pereira
Entre 2000 e 2024, os hospitais do SNS registaram mais de 463 000 internamentos por fractura dos membros inferiores, divididos entre fracturas da anca (colo do fémur) e fracturas de outros segmentos do membro inferior. A fractura da anca revela uma tendência de crescimento acentuado — quase duplicando em 24 anos —, reflexo directo do envelhecimento da população portuguesa. A mortalidade hospitalar associada à fractura da anca mantém-se elevada, na ordem dos 5%, contrastando com os 0,7% das restantes fracturas do membro inferior.
Contexto
As fracturas dos membros inferiores constituem uma das causas mais frequentes de internamento hospitalar em Portugal, com impacto clínico, social e económico considerável. A fractura do colo do fémur (anca) é particularmente grave na população idosa: associa-se a mortalidade hospitalar elevada, longos períodos de internamento e elevada probabilidade de perda de autonomia funcional. As fracturas de outros segmentos do membro inferior (tíbia, perónio, fémur extra-cervical, tornozelo) afectam um espectro etário mais alargado e têm prognóstico geralmente mais favorável.
Este relatório analisa a evolução dos internamentos por estas duas categorias nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde entre 2000 e 2024, com base na Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH/ACSS).
Perfil demográfico
Sexo
As duas categorias revelam perfis de sexo opostos. A fractura da anca é esmagadoramente feminina: 75% dos internamentos correspondem a mulheres, reflexo da maior prevalência de osteoporose no sexo feminino e da maior longevidade feminina. Pelo contrário, nas outras fracturas do membro inferior predominam os homens (52,4%), tipicamente associadas a trauma em idades activas (acidentes de trabalho, de viação, desporto).
Idade
A fractura da anca é uma patologia quase exclusiva da população idosa: 90,5% dos episódios ocorreram em doentes com 65 ou mais anos. As outras fracturas do membro inferior distribuem-se de forma mais equilibrada — 64,8% em doentes dos 25 aos 64 anos —, com presença relevante em crianças e jovens (19,2% até aos 24 anos).
Fonte: BDMH/ACSS. Idades entre 0 e 110 anos. Episódios de internamento com diagnóstico principal.
Mortalidade hospitalar
A mortalidade intra-hospitalar constitui um indicador de resultado crítico, especialmente para a fractura da anca. Ao longo de todo o período, a taxa situou-se em torno dos 5% — isto é, em cada 20 doentes internados por fractura da anca, um falece durante o internamento. Esta taxa é cerca de sete vezes superior à das outras fracturas do membro inferior (0,7%).
A evolução temporal não revela uma melhoria consistente: após um ligeiro declínio entre 2006 e 2015, a mortalidade voltou a subir nos anos mais recentes, atingindo 5,9% em 2020 e 5,9% em 2022 — anos marcados pela pandemia e pelo excesso de mortalidade associado. O valor de 2024 (4,9%) é o mais baixo da série recente, mas ainda distante de metas europeias mais ambiciosas.
Fonte: BDMH/ACSS. dsp=20 (óbito intra-hospitalar). Episódios de internamento com diagnóstico principal de fractura do colo do fémur (CCS 226).
Demora média de internamento
A demora média de internamento é substancialmente mais elevada na fractura da anca (14,7 dias em média, todo o período) do que nas restantes fracturas do membro inferior (9,9 dias). Ambas as categorias registaram uma redução face aos valores de 2000 (16,2 e 11,7 dias, respectivamente), reflectindo a evolução das práticas cirúrgicas e dos protocolos de alta. Contudo, nos anos mais recentes (2022–2024), observa-se um ligeiro aumento na fractura da anca, possivelmente associado a pressão sobre camas hospitalares e dificuldades na articulação com respostas de continuidade de cuidados.
| Ano | Fractura da anca | Outras fracturas mb. inf. | Total | DM Int — anca (dias) | DM Int — outras (dias) | Mort. anca (%) | Mort. outras (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2000 | 8493 | 9867 | 18 360 | 16,2 | 11,7 | 5,71 | 0,55 |
| 2001 | 9296 | 9903 | 19 199 | 15,8 | 11,4 | 5,57 | 0,73 |
| 2002 | 9009 | 9703 | 18 712 | 15,2 | 11 | 5,88 | 0,61 |
| 2003 | 9593 | 9409 | 19 002 | 14,6 | 10,4 | 5 | 0,86 |
| 2004 | 9551 | 9083 | 18 634 | 14,4 | 10,2 | 5,11 | 0,67 |
| 2005 | 9718 | 8908 | 18 626 | 14,6 | 9,9 | 5,6 | 0,65 |
| 2006 | 9746 | 8905 | 18 651 | 14,4 | 10,2 | 4,73 | 0,53 |
| 2007 | 10 115 | 8865 | 18 980 | 14 | 9,6 | 5,17 | 0,61 |
| 2008 | 10 482 | 8895 | 19 377 | 14 | 9,4 | 5,03 | 0,8 |
| 2009 | 10 809 | 8804 | 19 613 | 14,3 | 9,3 | 5,34 | 0,78 |
| 2010 | 11 261 | 8906 | 20 167 | 14,8 | 9,2 | 5,12 | 0,55 |
| 2011 | 11 590 | 8714 | 20 304 | 14,5 | 9,3 | 4,94 | 0,46 |
| 2012 | 12 058 | 8337 | 20 395 | 14,5 | 9 | 4,85 | 0,65 |
| 2013 | 12 430 | 8652 | 21 082 | 14 | 9,1 | 4,62 | 0,69 |
| 2014 | 12 824 | 8452 | 21 276 | 14 | 9,1 | 4,38 | 0,54 |
| 2015 | 13 181 | 8477 | 21 658 | 14,1 | 9,5 | 4,63 | 0,72 |
| 2016 | 13 683 | 8788 | 22 471 | 14,2 | 9,4 | 5,15 | 0,69 |
| 2017 | 13 746 | 9150 | 22 896 | 14,9 | 9,5 | 4,97 | 0,64 |
| 2018 | 13 932 | 9495 | 23 427 | 15,2 | 10 | 4,75 | 0,75 |
| 2019 | 14 515 | 9759 | 24 274 | 15,7 | 9,8 | 4,77 | 0,61 |
| 2020 | 14 006 | 8901 | 22 907 | 14,4 | 9,8 | 5,95 | 0,95 |
| 2021 | 14 240 | 9486 | 23 726 | 13,7 | 9,3 | 5,33 | 0,98 |
| 2022 | 15 056 | 9607 | 24 663 | 15,2 | 9,8 | 5,89 | 0,95 |
| 2023 | 15 990 | 9608 | 25 598 | 15,1 | 10,4 | 5,2 | 0,69 |
| 2024 | 16 203 | 9617 | 25 820 | 14,9 | 10,3 | 4,87 | 0,7 |
SNS, episódios de internamento. DM Int = demora média de internamento (dias). Mort. = mortalidade hospitalar (%). Valores arredondados.
Conclusões
- Crescimento estrutural da fractura da anca. Com 16 203 internamentos em 2024 — quase o dobro de 2000 — esta patologia representa hoje o maior desafio de carga hospitalar neste grupo. O envelhecimento demográfico sugere que esta tendência continuará a agravar-se nas próximas décadas.
- Feminização marcada. Três em cada quatro internamentos por fractura da anca ocorrem em mulheres, tornando esta uma prioridade específica de saúde feminina na população idosa, com implicações para programas de prevenção da osteoporose.
- Mortalidade hospitalar persistentemente elevada. A taxa de 5% na fractura da anca não registou melhoria substancial ao longo de 24 anos, excepto no período 2011–2015. O pico de 2020–2022 (próximo de 6%) está associado ao contexto pandémico.
- Estabilidade das outras fracturas. As fracturas traumáticas de outros segmentos do membro inferior mantiveram volumes estáveis, com mortalidade baixa (0,7%) e demora média em redução gradual. Afectam sobretudo homens em idade activa.
- Demora média ainda elevada. Os 14,7 dias de internamento médio na fractura da anca constituem um indicador de pressão sobre os serviços hospitalares e de dificuldade de articulação com cuidados de reabilitação e continuados.
Metodologia
Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS — episódios de internamento inpatient de 2000 a 2024 em hospitais do SNS português (38,5 milhões de episódios totais na base).
Filtros aplicados:
- Tipo de produção: internamento (
tipo_port_apr31 = 'Int'). - Diagnóstico principal (campo
d1) classificado nas categorias CCS 226 (Fracture of neck of femur / hip) e CCS 230 (Fracture of lower limb). - Idades válidas: 0–110 anos (para análises etárias).
- Sexo: 1 (masculino) e 2 (feminino), excluindo registos indeterminados nas análises por sexo.
Classificação de diagnósticos: Utilizado o sistema AHRQ Clinical Classifications Software (CCS), que harmoniza automaticamente os códigos ICD-9-CM (episódios até 2016) e ICD-10-CM/PCS (episódios a partir de 2017, com transição parcial em 2016). Isto garante comparabilidade temporal sem necessidade de mapas manuais entre versões ICD.
Mortalidade: Definida como dsp = 20 (óbito intra-hospitalar).
Demora média: Calculada sobre episódios com dias_int >= 0 (excluindo o valor sentinela -1, presente em ~72 000 episódios maioritariamente ambulatórios de 2009–2011).
Doentes únicos: Contagem de n_ficticio_utente distintos, excluindo IDs sentinela (sentinel_patient_ids) e registos sem identificador. Nota: a ligação entre episódios de anos diferentes pode estar incompleta para o período anterior a 2006 (até 26% de episódios não identificados em 2000).
Quebras de série a considerar: O ano de 2007 marca a entrada de linhas ambulatórias na base (não afecta esta análise por se filtrar apenas internamentos); 2013 corresponde a uma mudança de definição de internamento (não afecta a série de forma material neste grupo); 2020 reflecte o impacto da pandemia COVID-19.
Nomes de hospitais: Reflectem a estrutura organizacional de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente), pelo que os nomes históricos das entidades podem não coincidir.