COVID-19 e Infeções Respiratórias nos Hospitais Portugueses: Análise Detalhada 2020–2024
Entre 2020 e 2024, os hospitais do SNS registaram 94 996 internamentos com diagnóstico principal de COVID-19 (códigos U07.1, U07.0 e U09.9), com 20 369 óbitos intra-hospitalares — uma taxa de mortalidade de 21,4% no conjunto do período. O pico absoluto ocorreu em 2021 (35 278 internamentos; 8 145 óbitos), com o mês de janeiro de 2021 como o mais mortífero de toda a pandemia. A COVID-19 coexistiu com outras infeções respiratórias de peso elevado — pneumonia bacteriana e vírica, gripe e bronquiolite —, alterando profundamente a ecologia das doenças respiratórias hospitalizadas em Portugal.
COVID-19 e Infeções Respiratórias nos Hospitais Portugueses (2020–2024)
Este relatório analisa, com base nos dados da BDMH/ACSS, a totalidade dos internamentos hospitalares no SNS com diagnóstico principal de COVID-19 entre 2020 e 2024, com desagregação anual, mensal e por hospital. Numa segunda parte, compara a evolução dos internamentos por diversas infeções respiratórias — pneumonia, gripe/influenza, bronquiolite/RSV — e coloca a COVID-19 em perspectiva com estas doenças, com ênfase nas taxas de mortalidade.
Nota metodológica: COVID-19 é codificada em ICD-10 com os códigos U07.1 (vírus identificado), U07.0 (vaping associado, residual) e U09.9 (condição pós-COVID). A análise de internamentos usa exclusivamente o diagnóstico principal (d1). As comparações com outras infeções respiratórias seguem a mesma lógica.
Parte I — COVID-19: Análise Detalhada
Evolução Anual
O ano de 2021 foi o mais grave da pandemia em Portugal em termos de internamentos hospitalares (35 278) e óbitos (8 145). Em 2022, a variante Ómicron gerou ainda um volume elevado de internamentos (23 131) mas com mortalidade ligeiramente inferior. A partir de 2023, o declínio é acentuado: 9 014 internamentos em 2023 e apenas 4 822 em 2024 — queda de 86% face ao pico de 2021.
A idade média dos doentes internados aumentou ao longo do tempo (de 69,8 anos em 2020 para 74,4 em 2024), reflectindo o efeito da vacinação na protecção das faixas mais jovens e a persistência de vulnerabilidade nos idosos. A proporção feminina foi sempre inferior a 50%, o que é atípico para a maioria das doenças — os homens são mais frequentemente hospitalizados por COVID-19 do que as mulheres.
| Ano | Internamentos | Óbitos | Mortalidade (%) | Demora média (dias) | Idade média | % Feminino |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2020 | 22 751 | 4969 | 21,84 | 11,9 | 69,8 | 45,1 |
| 2021 | 35 278 | 8145 | 23,09 | 12,9 | 68,4 | 44,1 |
| 2022 | 23 131 | 4799 | 20,75 | 11,7 | 72,3 | 47,5 |
| 2023 | 9014 | 1633 | 18,12 | 11,9 | 74,6 | 49,4 |
| 2024 | 4822 | 823 | 17,07 | 10,9 | 74,4 | 49,7 |
Internamentos com COVID-19 como diagnóstico principal (d1=U07.1/U07.0/U09.9). Fonte: BDMH/ACSS.
Barras azuis = internamentos (eixo esq.); linha vermelha = óbitos (eixo dir.). Diagnóstico principal COVID-19. Fonte: BDMH/ACSS.
Taxa de Mortalidade Mensal — Ondas e Tendência
A taxa de mortalidade mensal oscilou enormemente ao longo das ondas pandémicas:
- Ondas 1 e 2 (2020): pico de 25% em dezembro de 2020, com óbitos frequentemente em doentes que demoram a ser admitidos e chegam já em colapso
- Janeiro de 2021: taxa de 29,2%, o valor mais alto registado — combinação de elevado volume, saturação dos serviços e variante Alfa
- Maio de 2021: mínimo histórico de 7,2%, com vacinação já em curso para os mais vulneráveis
- 2022–2024: estabilização em torno de 17–21%, com tendência descendente
- Março de 2024: pico pontual de 25,8%, possivelmente relacionado com seleção de casos mais graves num contexto de baixo volume
Taxa de mortalidade intra-hospitalar = óbitos / internamentos com COVID-19 como diagnóstico principal. Fonte: BDMH/ACSS.
Mortalidade por Faixa Etária — O Gradiente de Risco
O gradiente de mortalidade por idade é um dos achados mais marcantes. Em 2021 (o ano mais grave):
- 0–17 anos: 0,22% de mortalidade (praticamente nula)
- 18–49 anos: 2,8%
- 50–64 anos: 9,3%
- 65–74 anos: 20,6%
- 75–84 anos: 32,4%
- 85+ anos: 45,3% — quase 1 em cada 2 doentes internados com mais de 85 anos não sobreviveu
Ao longo dos anos, a mortalidade reduziu em todas as faixas, com a queda mais marcada nos mais novos — sinal do impacto da vacinação e da imunidade híbrida. Nos idosos (≥75 anos), a mortalidade manteve-se elevada mesmo em 2024.
Taxa de mortalidade intra-hospitalar por faixa etária. Internamentos com COVID-19 como diagnóstico principal. Fonte: BDMH/ACSS.
COVID-19 por Hospital (2020–2024)
O volume de internamentos distribuiu-se por praticamente todos os hospitais do SNS. A ULS de Coimbra liderou em número absoluto (5 752), seguida pela ULS do Algarve (4 359) e ULS de São José (4 264). As maiores taxas de mortalidade verificaram-se em hospitais do interior e do Alentejo, como a ULS do Alentejo Central (38,1% em 2021), ULS do Baixo Alentejo (34,4% em 2021) e ULS da Arrábida (31,3% em 2020 e 2021), o que poderá refletir populações mais envelhecidas e contextos de maior vulnerabilidade. Os hospitais universitários e de maior dimensão (São João, Santa Maria, Santo António) registaram mortalidades mais próximas da média nacional (17–23%).
| Hospital | Internamentos | Óbitos | Mortalidade (%) | Demora média (dias) |
|---|---|---|---|---|
| ULS de Coimbra | 5752 | 1169 | 20,32 | 12,4 |
| ULS do Algarve | 4359 | 1096 | 25,14 | 13,5 |
| ULS de São José | 4264 | 735 | 17,24 | 13,2 |
| ULS de Santa Maria | 4208 | 822 | 19,53 | 15,5 |
| ULS de Amadora / Sintra | 3763 | 758 | 20,14 | 14,4 |
| ULS do Tâmega e Sousa | 3546 | 770 | 21,71 | 10,4 |
| ULS de Viseu Dão-Lafões | 3275 | 829 | 25,31 | 11,4 |
| ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro | 3269 | 590 | 18,05 | 9,3 |
| ULS de Entre Douro e Vouga | 3203 | 541 | 16,89 | 10,6 |
| ULS de Santo António | 3052 | 558 | 18,28 | 14,1 |
| ULS de Gaia / Espinho | 2956 | 639 | 21,62 | 10,7 |
| ULS da Região de Leiria | 2870 | 746 | 25,99 | 11,4 |
| ULS de Lisboa Ocidental | 2829 | 586 | 20,71 | 14,8 |
| ULS de Almada / Seixal | 2704 | 576 | 21,3 | 14,3 |
| ULS de São João | 2655 | 586 | 22,07 | 15 |
| ULS da Arrábida | 2601 | 718 | 27,6 | 10,6 |
| ULS de Loures / Odivelas | 2558 | 592 | 23,14 | 12,7 |
| ULS de Braga | 2488 | 486 | 19,53 | 12,7 |
| ULS do Alto Ave | 2352 | 320 | 13,61 | 12,8 |
| ULS do Médio Tejo | 2341 | 630 | 26,91 | 13,4 |
| ULS da Região de Aveiro | 2170 | 503 | 23,18 | 10 |
| ULS do Alto Minho | 2151 | 368 | 17,11 | 9,3 |
| ULS de Matosinhos | 2101 | 401 | 19,09 | 12 |
| ULS do Oeste | 1967 | 445 | 22,62 | 9,6 |
| ULS da Lezíria | 1893 | 454 | 23,98 | 10,5 |
| ULS do Estuário do Tejo | 1825 | 504 | 27,62 | 11,1 |
| ULS da Guarda | 1797 | 380 | 21,15 | 13,9 |
| Hospital de Cascais Dr. José de Almeida | 1773 | 368 | 20,76 | 11,6 |
| ULS do Arco Ribeirinho | 1619 | 388 | 23,97 | 13,9 |
| ULS do Nordeste | 1583 | 350 | 22,11 | 12,7 |
Internamentos com COVID-19 como diagnóstico principal, 2020–2024. Nomes refletem estrutura organizacional de 2025. Fonte: BDMH/ACSS.
Parte II — Comparação com Outras Infeções Respiratórias (2017–2024)
Panorama Geral
A chegada da COVID-19 em 2020 alterou profundamente o ecossistema das infeções respiratórias hospitalizadas em Portugal:
- Pneumonia (J12–J18) é historicamente a infeção respiratória que mais pesa nos internamentos: ~40 000 internamentos/ano antes da pandemia. Em 2021, caiu para 22 324 — uma redução de ~44% — em parte por efeito real das medidas não farmacológicas (máscaras, distanciamento), em parte por competição de codificação com o COVID.
- Gripe (J09–J11): desapareceu virtualmente em 2021 (apenas 60 internamentos, vs 3 488 em 2019), resultado do isolamento social e medidas de prevenção. Regressou fortemente em 2024 (4 866 internamentos; 507 óbitos — o maior valor registado desde 2017).
- Bronquiolite/RSV (J21): em contraciclo com a gripe, atingiu picos em 2022 e 2023, possivelmente por "dívida imunológica" pós-pandemia das crianças pequenas.
- COVID-19 está a convergir progressivamente para o padrão de uma doença respiratória sazonal, como a gripe.
Apenas internamentos (tipo_port_apr31='Int'), diagnóstico principal. ICD-10 (2017–2024). Pneumonia: J12–J18; Gripe: J09–J11; Bronquiolite: J21; COVID: U07.1/U07.0/U09.9. Fonte: BDMH/ACSS.
Taxas de Mortalidade Comparadas
Um dos achados mais reveladores desta análise é a similaridade entre a taxa de mortalidade intra-hospitalar da COVID-19 e da pneumonia ao longo de todo o período 2020–2024. Em 2020 e 2021, COVID (21,8–23,1%) e pneumonia (22,7–23,3%) apresentam mortalidades quase indistinguíveis — o que reflecte, em parte, que muitos internamentos por COVID-19 são efectivamente pneumonias virais graves, e que ambos os grupos partilham um perfil de doente semelhante (idoso, com comorbilidades).
A gripe, por seu turno, tem uma mortalidade muito inferior: 5–7% em 2020–2023, subindo para 10,4% em 2024 — o valor mais alto da série, associado a um aumento expressivo de internamentos (4 866) e óbitos (507). Isto pode sinalizar uma temporada de gripe excepcionalmente grave em 2024 ou um eventual sub-diagnóstico nos anos anteriores.
A bronquiolite tem mortalidade baixíssima (<1%), coerente com o seu perfil predominantemente pediátrico.
Taxa de mortalidade intra-hospitalar (dsp=20 / internamentos). Diagnóstico principal. ICD-10. Pneumonia: J12–J18; Gripe: J09–J11; Bronquiolite: J21. Fonte: BDMH/ACSS.
| Ano | COVID Int. | COVID Óbitos | COVID Mort.% | Pneumonia Int. | Pneumonia Óbitos | Pneumonia Mort.% | Gripe Int. | Gripe Óbitos | Gripe Mort.% | Bronquiolite Int. | Bronquiolite Óbitos |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2020 | 22 751 | 4969 | 21,84 | 27 582 | 6246 | 22,65 | 1898 | 98 | 5,16 | 2707 | 9 |
| 2021 | 35 278 | 8145 | 23,09 | 22 324 | 5202 | 23,3 | 60 | 3 | 5 | 3510 | 17 |
| 2022 | 23 131 | 4799 | 20,75 | 27 136 | 5599 | 20,63 | 3058 | 196 | 6,41 | 4866 | 24 |
| 2023 | 9014 | 1633 | 18,12 | 32 980 | 6110 | 18,53 | 2864 | 207 | 7,23 | 4973 | 26 |
| 2024 | 4822 | 823 | 17,07 | 35 779 | 6419 | 17,94 | 4866 | 507 | 10,42 | 3324 | 19 |
Internamentos com diagnóstico principal em cada categoria. ICD-10 2020–2024. Mortalidade = % de óbitos sobre internamentos. Fonte: BDMH/ACSS.
Síntese e Conclusões
Sobre a COVID-19:
- 94 996 internamentos e 20 369 óbitos em 5 anos — a maior crise respiratória registada nos hospitais portugueses desde o início da base de dados (2000).
- 2021 foi o ano mais grave (35 278 internamentos; 8 145 óbitos), com janeiro de 2021 como o mês mais devastador (13 688 internamentos; 3 991 óbitos; mortalidade de 29%).
- A mortalidade diminuiu progressivamente — de ~22% em 2020–2021 para 17% em 2024 — mas permanece muito elevada nos idosos (≥75 anos: >17% ainda em 2024).
- Os homens foram proporcionalmente mais afetados (>55% dos internamentos em todos os anos), contrariamente ao padrão habitual da maioria das doenças.
- Há assimetrias geográficas marcantes na mortalidade: hospitais do interior e do Alentejo tiveram as taxas mais elevadas, reflectindo populações mais envelhecidas.
Sobre o contexto das infeções respiratórias:
- COVID e pneumonia têm mortalidades intra-hospitalares quase idênticas (17–23%), o que sugere perfis de gravidade similares entre os doentes que chegam a ser hospitalizados.
- A gripe atingiu em 2024 o seu máximo de internamentos (4 866) e óbitos (507) desde o início do período ICD-10 — um sinal de alerta sobre o ressurgimento de doenças respiratórias clássicas.
- A pneumonia está a recuperar o volume pré-pandémico (35 779 internamentos em 2024, próximo dos ~40 000 de 2018), enquanto a COVID recua para volumes comparáveis aos da gripe.
- A bronquiolite (RSV) atingiu picos pós-pandémicos em 2022–2023, com mortalidade muito baixa mas volume relevante, num fenómeno de "dívida imunológica" nas crianças.
Metodologia
Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS — episódios de internamento hospitalar nos hospitais do SNS português, 2017–2024.
Definição de COVID-19: Episódios com diagnóstico principal (d1) nos códigos ICD-10: U07.1 (COVID-19, vírus identificado — representando >99% dos casos), U07.0 (dispositivo de vaping — residual, 32 casos) e U09.9 (condição pós-COVID — 150 casos). A análise foca d1 para garantir comparabilidade com as outras doenças respiratórias analisadas.
Outras infeções respiratórias:
- Pneumonia: J12–J18 (vírica, bacteriana, organismo não especificado)
- Gripe/Influenza: J09–J11 (todos os subtipos)
- Bronquiolite/RSV: J21 (bronquiolite aguda, todos os agentes)
Linha de produção: Apenas internamentos (tipo_port_apr31 = 'Int'). Episódios ambulatórios excluídos para manter comparabilidade.
Mortalidade: Definida como dsp = 20 (falecido durante o internamento). Não inclui mortes em lares, domicílio ou ocorridas após alta.
Demora média: Calculada excluindo dias_int = -1 (sentinela).
Codificação: Toda a análise usa ICD-10, disponível a partir de 2017 (e em ~5,6% dos episódios de 2016). Os códigos COVID (U07+) foram introduzidos na base em 2020, sem retroactividade.
Nomes dos hospitais: Refletem a estrutura organizacional de 2025 (após fusões em ULS), aplicada retroativamente.