Cirurgia à Catarata no SNS Português (2000–2024)
por Jose Maria Pereira
A cirurgia à catarata é uma das intervenções mais realizadas no Serviço Nacional de Saúde português. Entre 2000 e 2024, o SNS registou cerca de 1,47 milhões de episódios com extracção ou substituição do cristalino, uma actividade que cresceu de forma praticamente ininterrupta ao longo de dois décadas e meia, à excepção do ano pandémico de 2020. Em 2024, foram realizadas mais de 102 000 cirurgias, o valor anual mais elevado de sempre, com a ULS de São José a destacar-se como o maior centro oftalmológico cirúrgico do país.
Contexto
A catarata — opacificação do cristalino — é a principal causa de cegueira reversível no mundo e uma das patologias com maior lista de espera no SNS. A intervenção cirúrgica (habitualmente por facoemulsificação com implante de lente intra-ocular) é o único tratamento eficaz e tem carácter electivo, sendo por isso um barómetro sensível da capacidade de resposta programada do sistema de saúde.
Este relatório analisa a actividade cirúrgica à catarata em todos os hospitais do SNS entre 2000 e 2024, com base na Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH/ACSS).
Evolução Nacional (2000–2024)
A actividade cresceu de forma acentuada ao longo do período, partindo de cerca de 14 500 episódios em 2000 e atingindo 102 900 em 2024. Identificam-se três momentos estruturantes na série:
- 2007–2008: salto de cerca de 20 000 cirurgias num só ano. Este aumento coincide com a entrada das linhas de ambulatório cirúrgico no extracto BDMH (quebra de série), o que inflaciona artificialmente a contagem a partir de 2007. A partir de 2008, a actividade fica mais estável, entre 60 000 e 78 000 por ano.
- 2020: queda para 61 000 episódios, directamente atribuível à pandemia de COVID-19 e à suspensão das cirurgias electivas.
- 2021–2024: recuperação robusta e crescimento até ao máximo histórico de 2024, reflectindo o esforço de recuperação das listas de espera e o envelhecimento da população.
Fonte: BDMH/ACSS. Quebra de série em 2007 (entrada do ambulatório cirúrgico no extracto). Quebra em 2020 (COVID-19).
Ranking por Hospital
A análise por unidade hospitalar revela uma concentração assinalável nos grandes centros. Nos anos mais recentes (2022–2024), os cinco maiores centros concentram cerca de 26,8% de toda a actividade nacional. A ULS de São José (Lisboa), que agrega o Hospital de Santa Marta, o Hospital Curry Cabral e outros, é destacadamente o maior centro, com uma média anual de mais de 7 000 cirurgias — quase o dobro do segundo classificado.
De notar a ULS da Região de Leiria, que ocupa o 2.º lugar no ranking recente (2022–2024) mas não estava entre os primeiros no histórico acumulado, indiciando um crescimento expressivo da capacidade instalada nos últimos anos. O Hospital de Cascais (PPP) é a única instituição em regime de parceria público-privada no top 20, com um volume anual médio de cerca de 2 700 cirurgias.
Fonte: BDMH/ACSS 2022–2024. Nomes abreviados; nomenclatura oficial: Unidade Local de Saúde.
| Hospital | Total 2000–2024 | Total 2022–2024 | Média anual 2022–2024 |
|---|---|---|---|
| ULS de São José, E.P.E. | 114 976 | 21 530 | 7177 |
| ULS da Região de Leiria, E.P.E. | 60 508 | 16 485 | 5495 |
| ULS de Coimbra, E.P.E. | 89 680 | 13 720 | 4573 |
| ULS de Entre Douro e Vouga, E.P.E. | 61 253 | 12 767 | 4256 |
| ULS de São João, E.P.E. | 70 221 | 12 575 | 4192 |
| ULS de Gaia / Espinho, E.P.E. | 56 296 | 12 567 | 4189 |
| ULS de Braga, E.P.E. | 44 637 | 10 721 | 3574 |
| ULS de Santa Maria, E.P.E. | 37 227 | 10 414 | 3471 |
| ULS de Almada / Seixal, E.P.E. | 35 324 | 10 191 | 3397 |
| ULS de Santo António, E.P.E. | 54 379 | 9934 | 3311 |
| ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro, E.P.E. | 41 910 | 9916 | 3305 |
| ULS de Amadora / Sintra, E.P.E. | 36 456 | 9516 | 3172 |
| ULS de Matosinhos, E.P.E. | 36 514 | 8924 | 2975 |
| ULS do Alto Minho, E.P.E. | 36 730 | 8855 | 2952 |
| ULS do Tâmega e Sousa, E.P.E. | 35 562 | 8345 | 2782 |
| Hospital de Cascais Dr. José de Almeida | 24 763 | 8195 | 2732 |
| ULS do Algarve, E.P.E. | 34 328 | 7961 | 2654 |
| ULS da Arrábida, E.P.E. | 23 760 | 7818 | 2606 |
| ULS da Região de Aveiro, E.P.E. | 33 507 | 7728 | 2576 |
| ULS de Lisboa Ocidental, E.P.E. | 30 840 | 7488 | 2496 |
Fonte: BDMH/ACSS. Nomes reflectem a estrutura organizacional de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente).
Notas de Interpretação
Concentração geográfica: Os maiores volumes concentram-se em Lisboa (ULS São José, Santa Maria, Almada/Seixal, Amadora/Sintra, Lisboa Ocidental) e no Norte (São João, Gaia/Espinho, Santo António, Braga, Matosinhos). O Centro tem em Coimbra o seu principal pólo. Esta distribuição acompanha, em geral, a densidade populacional.
Leiria como caso de destaque: A ULS da Região de Leiria, 2.ª no ranking recente com uma média anual de 5 495 cirurgias, supera centros universitários de maior dimensão histórica. Este desempenho merece análise adicional quanto à capacidade instalada, ao recurso a parceiros externos e à captação de doentes de outras regiões.
Impacto da pandemia e recuperação: A queda de 2020 (~20% abaixo de 2019) foi rapidamente revertida. Em 2024, o volume nacional ultrapassou 102 000 episódios, o máximo absoluto da série, o que reflecte simultaneamente a recuperação das listas de espera e a tendência de envelhecimento demográfico.
Cada episódio = um olho: A cirurgia à catarata é bilateral (dois olhos distintos), pelo que um único doente pode originar dois episódios em anos consecutivos. Os volumes aqui apresentados contabilizam episódios, não doentes.
Metodologia
Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS, 2000–2024. Inclui episódios de internamento e ambulatório cirúrgico do SNS.
Definição de cirurgia à catarata: Episódio com pelo menos um procedimento de extracção, extirpação ou recolocação do cristalino, em qualquer posição (p1–p5), nos dois sistemas de codificação:
- ICD-9-CM (episódios até 2016): códigos 131x a 139x (operações ao cristalino), excluindo 130x (remoção de corpo estranho).
- ICD-10-PCS (episódios a partir de 2017, e ~5,6% de 2016): códigos 08CJ3ZZ, 08CJXZZ, 08CK3ZZ, 08CKXZZ (extirpação do cristalino), 08DJ3ZZ, 08DK3ZZ (extracção do cristalino), 08RJ3JZ, 08RJ37Z, 08RJ3KZ, 08RJ30Z, 08RK3JZ, 08RK37Z, 08RK3KZ, 08RK30Z (recolocação/substituição do cristalino).
Quebras de série: Em 2007, os episódios de ambulatório cirúrgico passaram a integrar o extracto BDMH, provocando um salto artificial no volume total. Em 2020, a pandemia de COVID-19 reduziu drasticamente as cirurgias electivas. Estas quebras são assinaladas nos gráficos e devem ser tidas em conta na interpretação de tendências de longo prazo.
Nomenclatura hospitalar: Os nomes dos hospitais reflectem a estrutura organizacional de 2025, após as fusões nas Unidades Locais de Saúde, aplicadas retroactivamente à série histórica. Os totais históricos de unidades resultantes de fusões agregam a actividade das instituições constituintes.
Unidade de contagem: Episódio (não doente). Um doente operado aos dois olhos em dois episódios distintos é contado duas vezes. Não é possível, nesta análise, distinguir o olho operado.