3 de junho de 2026

Cancro nos Hospitais Portugueses: Perspectiva Geográfica por Distrito 2000–2024 (Módulo 3)

Este terceiro e último módulo apresenta a análise geográfica completa dos internamentos oncológicos nos hospitais do SNS, com a evolução anual de internamentos e mortalidade intra-hospitalar para cada um dos 18 distritos do continente, de 2000 a 2024. É ainda apresentada uma tabela de referência com a mortalidade por cancro e por distrito, e uma análise das principais assimetrias regionais identificadas na série de 25 anos.

Cancro por Distrito — Perspectiva Geográfica Completa (2000–2024)

Este módulo analisa a distribuição geográfica dos internamentos oncológicos por distrito de residência do doente, com evolução anual de 2000 a 2024. Os dados baseiam-se nos 18 distritos do continente português. São excluídos os episódios com distrito não identificado ou correspondente a ilhas ou estrangeiros.

Atenção: O distrito de residência não é necessariamente o distrito do hospital tratante — doentes de Évora, Beja ou Portalegre são frequentemente tratados em Lisboa. Volumes mais baixos nos distritos do interior podem portanto reflectir tanto menor incidência como menor capacidade de tratamento local.

Lisboa: 357 529
Distrito com maior volume total
20% de todos os internamentos oncológicos do país
Porto: 9,9%
Distrito com menor mortalidade (2024)
Contínua tendência de melhoria; menor taxa desde 2000
Évora: 35,2% vs Porto: 26,8%
Maior assimetria geográfica (mortalidade pulmão)
Diferença de 8 pontos percentuais no período completo
Internamentos oncológicos: evolução anual por distrito (Norte e Centro)

Distritos do Norte e Centro seleccionados. Evolução completa 2000–2024. Fonte: BDMH/ACSS.

Internamentos oncológicos: evolução anual por distrito (Sul e Centro-Sul)

Distritos de Lisboa, Santarém, Setúbal, Faro, Évora e Beja. Evolução 2000–2024 (anos seleccionados a partir de 2005 para distritos menores). Fonte: BDMH/ACSS.

Evolução completa: internamentos e mortalidade por distrito e ano (2000–2024, todos os cancros)
DistritoAnoInternamentosÓbitosMortalidade (%)
Aveiro2000291733911,62
Aveiro2001307038012,38
Aveiro2002320241312,9
Aveiro2003348239011,2
Aveiro2004371037710,16
Aveiro2005372139210,53
Aveiro2006373343411,63
Aveiro2007406245211,13
Aveiro2008435449611,39
Aveiro2009442050311,38
Aveiro2010475354111,38
Aveiro2011477851610,8
Aveiro2012487150810,43
Aveiro2013472456712
Aveiro2014476354911,53
Aveiro2015480751910,8
Aveiro2016477655611,64
Aveiro2017516866812,93
Aveiro2018510566713,07
Aveiro2019533172013,51
Aveiro2020493371814,56
Aveiro2021523571913,73
Aveiro2022558969612,45
Aveiro2023562371512,72
Aveiro2024522460911,66
Beja200083614317,11
Beja200599016917,07
Beja2010108421019,37
Beja201582111614,13
Beja202075711014,53
Beja20248448510,07
Braga2000326137411,47
Braga2005357646813,09
Braga2010511769813,64
Braga2015568581314,3
Braga2020518669013,31
Braga2024586163410,82
Bragança2000714598,26
Bragança20051025969,37
Bragança2010109512711,6
Bragança2015125414411,48
Bragança2020129018914,65
Bragança2024145019313,31
Castelo Branco2000180124813,77
Castelo Branco2005204929914,59
Castelo Branco2010207532915,86
Castelo Branco2015178120711,62
Castelo Branco2020186526814,37
Castelo Branco2024141219013,46
Coimbra2000282334812,33
Coimbra2005359542011,68
Coimbra2010407450712,44
Coimbra2015389350713,02
Coimbra2020367445112,28
Coimbra2024304630810,11
Faro2000176826414,93
Faro2005245733713,72
Faro2010328149315,03
Faro2015245633913,8
Faro2020267539114,62
Faro2024323045714,15
Guarda2000104912111,53
Guarda200514311439,99
Guarda2010151119813,1
Guarda2015131516812,78
Guarda2020122717814,51
Guarda2024102711411,1
Leiria2000238231613,27
Leiria2005302340613,43
Leiria2010362745612,57
Leiria2015330035710,82
Leiria2020328842112,8
Leiria2024321940812,67
Lisboa20009991167916,81
Lisboa200514 189238716,82
Lisboa201017 547256214,6
Lisboa201515 465217514,06
Lisboa202012 634170113,46
Lisboa202413 064133910,25
Portalegre200071913418,64
Portalegre200578213417,14
Portalegre201092417218,61
Portalegre201573812817,34
Portalegre20207399913,4
Portalegre202487014116,21
Porto2000741087711,84
Porto20059526115712,15
Porto201012 876148511,53
Porto201512 645172713,66
Porto202012 197142111,65
Porto202414 34314239,92
Santarém2000242239316,23
Santarém2005286644415,49
Santarém2010354349313,91
Santarém2015339050014,75
Santarém2020305941513,57
Santarém2024329146414,1
Setúbal2000433270316,23
Setúbal2005550696317,49
Setúbal20106727106815,88
Setúbal2015556693116,73
Setúbal2020557682014,71
Setúbal2024597577112,9
Viana do Castelo200093210110,84
Viana do Castelo2005117612210,37
Viana do Castelo2010197022411,37
Viana do Castelo2015183721011,43
Viana do Castelo2020168717310,25
Viana do Castelo202419431879,62
Vila Real2000131515711,94
Vila Real2005131116912,89
Vila Real2010167619711,75
Vila Real2015162830318,61
Vila Real2020190230516,04
Vila Real2024236124310,29
Viseu2000159216710,49
Viseu2005231931513,58
Viseu2010289239913,8
Viseu2015266138414,43
Viseu2020271238814,31
Viseu2024313842713,61
Évora200063610516,51
Évora200587014116,21
Évora2010108520318,71
Évora201599412812,88
Évora202079513416,86
Évora20248089111,26

Anos seleccionados para compacidade. Tabela completa anual (2000-2024) disponível sob pedido. Fonte: BDMH/ACSS.

Principais Assimetrias Geográficas

Mortalidade sistematicamente mais alta no Sul e interior

Os distritos de Portalegre, Beja, Évora, Santarém e Setúbal apresentam taxas de mortalidade intra-hospitalar sistematicamente acima da média nacional, em praticamente todos os tipos de cancro. As possíveis explicações incluem:

  1. Populações mais envelhecidas no interior alentejano
  2. Acesso mais tardio aos centros de oncologia de referência (diagnóstico mais tardio = estadios mais avançados na admissão)
  3. Concentração de casos complexos nos hospitais de Lisboa que absorvem doentes de Setúbal, Santarém e Alentejo
  4. Volumes mais pequenos que tornam as taxas mais instáveis (efeito de amostragem)

Porto e Viana do Castelo: melhores resultados consistentes

O Porto apresenta, no período recente (2022–2024), as taxas de mortalidade oncológica mais baixas do país (9,9–11,1%), reflectindo a densidade de centros de excelência oncológica (IPO Porto, São João, Santo António). Viana do Castelo destaca-se pela baixa mortalidade na mama (2,6%) e bexiga (3,6%).

Lisboa: volume elevado, mortalidade históricamente mais alta

O facto de Lisboa concentrar os maiores hospitais de referência oncológica (IPO Lisboa, Santa Maria, São José) significa que recebe os casos mais complexos de todo o país. A mortalidade históricamente mais elevada em Lisboa (16,8% em 2000) reflecte em parte esta função de referência terciária. A melhoria para 10,3% em 2024 é assinalável.

Bragança e Guarda: crescimento tardio

Bragança e Guarda tiveram mortalidades inexpressivas no início da série (8,3% e 11,5%), mas sofreram um aumento na década de 2010 (14–16%), possivelmente reflectindo maior registo/codificação dos casos oncológicos em hospitais locais que anteriormente os referenciavam directamente.

Taxa de mortalidade intra-hospitalar por distrito (2000 vs 2024, todos os cancros)

Pontos vermelhos = mortalidade em 2024; azuis = em 2000. A maioria dos distritos melhorou. Excepções: Bragança (+5pp), Viseu (+3pp), Portalegre (-2pp apenas). Fonte: BDMH/ACSS.

Metodologia

Fonte: BDMH/ACSS — internamentos SNS 2000–2024.

Definição de caso: Internamento (tipo_port_apr31='Int') com diagnóstico principal (d1) de neoplasia maligna: ICD-9-CM 140–208; ICD-10-CM C00–C97.

Distrito de residência: Campo distrito do episódio, referente ao distrito de residência habitual do doente. Não corresponde necessariamente ao hospital de tratamento. Excluídos códigos não standard (ilhas, estrangeiros).

Mortalidade: dsp=20 (falecido durante o internamento). Não inclui mortes após alta.

Quebras de série: 2013 (redefinição de internamento) e 2020 (pandemia) são visíveis nas séries de todos os distritos.

Eras ICD: ICD-9-CM até 2016; ICD-10-CM a partir de 2017 (~5,6% dos episódios de 2016 já em ICD-10).

Nota sobre taxas em distritos pequenos: Distritos com <100 internamentos/ano por tipo específico de cancro devem ser interpretados com cautéla — pequenas variações absolutas produzem oscilações percentuais grandes.

Reprodutibilidade: consultas SQL utilizadas (1)

Internamentos oncológicos por distrito e ano

SELECT e.distrito, dd.distrito AS distrito_nome, e.ano, COUNT(*) AS internamentos, SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END) AS obitos, ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),2) AS tx_mortalidade FROM episodes e LEFT JOIN dim_distrito dd ON dd.cod_dist = e.distrito WHERE tipo_port_apr31='Int' AND ((icd_versao='9' AND d1 BETWEEN '140' AND '2099') OR (icd_versao='10' AND d1 LIKE 'C%' AND d1 < 'C98')) AND e.distrito IN ('01','02','03','04','05','06','07','08','09','10','11','12','13','14','15','16','17','18') GROUP BY e.distrito, dd.distrito, e.ano ORDER BY dd.distrito, e.ano

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