3 de junho de 2026

Cancro nos Hospitais Portugueses: Visão Geral 2000–2024 (Módulo 1)

Entre 2000 e 2024, os hospitais do SNS registaram mais de 1,8 milhões de internamentos com diagnóstico principal de neoplasia maligna. O volume cresceu de 47 185 em 2000 para um pico de 79 953 em 2011, estabilizando depois em torno de 72–76 000/ano. A mortalidade intra-hospitalar desceu de 13,9% para 11,3% em 2024 — a mais baixa de toda a série — reflectindo avanços terapêuticos, rastreio mais precoce e melhoria da gestão clínica. Mama, pulmão, cólon, bexiga e próstata são os cancros com maior impacto em internamentos; o pâncreas, o esófago e o fígado têm as maiores taxas de mortalidade intra-hospitalar.

Cancro nos Hospitais Portugueses — Visão Geral 2000–2024

Este relatório (Módulo 1 de 3) analisa a totalidade dos internamentos hospitalares no SNS com diagnóstico principal de neoplasia maligna, cobrindo 25 anos de dados (2000–2024). São incluídos todos os grupos oncológicos major (ICD-9: 140–208; ICD-10: C00–C97), com desagregação por tipo de cancro, evolução temporal e distribuição por distrito de residência.

Nota: ICD-9-CM foi usado até 2016; ICD-10-CM/PCS a partir de 2017 (~5,6% dos episódios de 2016 já em ICD-10). A quebra de série de 2013 (redefinição de internamento) e o impacto da pandemia em 2020 são assinalados ao longo do relatório. Todos os valores são internamentos com diagnóstico principal oncológico.

1 796 850
Total de internamentos oncológicos (2000–2024)
Diagnóstico principal neoplasia maligna; apenas internamentos SNS
11,3%
Taxa de mortalidade intra-hospitalar 2024
Mínimo histórico da série — em 2000 era 13,9%
Pâncreas: 28,3%
Cancro com maior mortalidade intra-hospitalar
Seguido de esófago (21,6%), fígado (21,0%) e estômago (21,4%)

Evolução Anual Global

O volume de internamentos oncológicos cresceu de forma sustentada de 2000 a 2011, passando de 47 185 para 79 953 — um aumento de +69% em 11 anos. Esta subida reflecte a combinação de envelhecimento populacional, melhoria do diagnóstico e maior acesso aos cuidados hospitalares. A partir de 2013 regista-se uma quebra estrutural (redefinição de internamento pelo MS) e uma estabilização em torno de 70–76 000/ano. Em 2020, o impacto da pandemia COVID-19 provocou uma queda para 67 270 (-11% face a 2019). A mortalidade intra-hospitalar manteve uma tendência descendente consistente — de 13,9% em 2000 para 11,3% em 2024.

Internamentos oncológicos totais por ano (2000–2024)

Barras = internamentos (eixo esq.); linha vermelha = taxa de mortalidade intra-hospitalar (eixo dir.). Quebras de série: 2013 (redefinição de internamento), 2020 (COVID-19). Fonte: BDMH/ACSS.

Ranking por Tipo de Cancro (2000–2024)

A mama e o pulmão são os dois cancros com maior volume de internamentos no período completo, seguidos da bexiga, cólon e próstata. No entanto, a taxa de mortalidade intra-hospitalar varia enormemente: enquanto a mama (5,6%) e a bexiga (5,1%) têm mortalidades relativamente baixas, o pâncreas (28,3%), o esófago (21,6%), o fígado (21,0%) e o estômago (21,4%) apresentam mortalidades muito elevadas, reflectindo diagnósticos frequentemente tardios e limited opcções terapêuticas.

Internamentos por grupo de cancro (total 2000–2024)

Excluída categoria 'Outros' (179 579 int.; 18,5% mortalidade) por agregar localizações diversas. Fonte: BDMH/ACSS.

Mortalidade intra-hospitalar por grupo de cancro (%, total 2000–2024)

Taxa de mortalidade intra-hospitalar = óbitos / internamentos. Diagnóstico principal. 2000–2024. Fonte: BDMH/ACSS.

Evolução dos 10 Cancros Mais Frequentes (Internamentos por Ano)

A evolução por tipo de cancro revela tendências muito distintas:

  • Mama: crescimento sustentado de 4 808 (2000) para 9 251 (2022), com quebra em 2020 e recuperação; maior volume registado em 2022
  • Pulmão: crescimento lento mas consistente; destaca-se pela mortalidade sistematicamente elevada (23–32%)
  • Bexiga: crescimento de 3 280 para 5 665 (+73%), reflectindo também o envelhecimento populacional
  • Próstata: relativamente estável (2 200–3 500/ano), com mortalidade a descer de ~12% para ~8%
  • Pâncreas: duplicou de 1 017 para 2 478, com mortalidade persistentemente a rondar os 25–30%
  • Tiróide/Endócrinas: pico em 2012–2013 (~3 200/ano), depois a declinar — possível efeito de melhorias no tratamento ambulatório
Evolução anual dos 10 cancros mais frequentes — Internamentos

Série 2000–2024. ICD-9 (até 2016) + ICD-10 (a partir de 2017). Fonte: BDMH/ACSS.

Evolução das Taxas de Mortalidade por Cancro

A mortalidade intra-hospitalar desceu de forma consistente na maioria dos cancros. Os destaques:

  • Mama: de 8,1% em 2000 para 3,6% em 2024 — redução de mais de metade, reflectindo rastreio precoce, melhoria do acesso a terapêuticas e maior especialização cirúrgica
  • Próstata: de 11,8% para 8,1% — evolução favorável
  • Cólon: de 13,6% para 10,8%
  • Pulmão: mantém-se consistentemente elevado (21–32%), com alguma melhoria recente
  • Pâncreas: ligeira melhoria (de 27–30% para ~24%), mas ainda com mortalidade muito elevada
  • Leucemia: de 19–22% para ~18%
Taxas de mortalidade intra-hospitalar por cancro (%, 2000–2024)

ICD-9 (até 2016) + ICD-10 (a partir de 2017). Mortalidade = óbitos/internamentos. Fonte: BDMH/ACSS.

Distribuição por Distrito de Residência

Lisboa (357 529) e Porto (292 589) concentram mais de 36% de todos os internamentos oncológicos do país — reflexo da dimensão populacional mas também da concentração de centros de referência oncológica. Setúbal (143 567) e Braga (122 202) surgem em 3.º e 4.º lugar. Os distritos do interior (Portalegre, Beja, Évora, Bragança) têm os volumes mais baixos mas tendem a apresentar taxas de mortalidade mais elevadas, o que pode reflectir acesso mais difícil a cuidados especializados e populações mais envelhecidas.

Internamentos oncológicos por distrito — totais por tipo de cancro (2000–2024)
DistritoTotalMamaPróstataCólonRetoPulmãoBexigaEstômagoPâncreasLinfomaLeucemiaÚtero/ColoOvárioRimCérebro
Lisboa357 52936 74916 23728 22716 04934 28624 97616 91610 41012 764963111 558490876839718
Porto292 58933 41511 39419 94812 33427 90922 35620 7646276956564949912294469496885
Setúbal143 56715 165550711 772678213 20310 23473443785447334004617213529793451
Braga122 20213 00552968474553610 607934410 7602694393130524102107826523669
Aveiro112 35113 2784964898556528458654070423079423727263778120326522710
Coimbra94 00395964537763945347738551440562906417825452669125820202021
Leiria82 07279293897735746115879501641092606310918552564106118572281
Santarém79 94873533794738342616874533242152704260721462674103120172582
Faro68 33777442578547533716799549229921584180216892534121213551831
Viseu65 9176837286950463789581537554166174622521634185279613461562
Castelo Branco47 825380834024573299644302395299413661737115115795288281437
Vila Real41 29240611584313223493388305530741008138397315835386311103
Viana do Castelo40 4164087194530971824247928893071888127580518374959961057
Guarda33 5342844175730412322325014522107100211398411609595509853
Bragança28 4882587153328511879196820292111753960789904336503723
Évora22 708272681223931448179615571403619710588907480495651
Beja22 569222168321661454228219651313646569640748357437643
Portalegre20 4702259101020141384179812251332679645541723351370582

Distrito de residência do utente. Total inclui todos os grupos oncológicos. Fonte: BDMH/ACSS 2000–2024.

Internamentos oncológicos por distrito — evolução 2000–2024 (os 6 maiores)

Apenas 6 distritos com maior volume; internamentos com diagnóstico principal oncológico. Fonte: BDMH/ACSS.

Taxa de mortalidade intra-hospitalar por distrito e ano (todos os cancros, %)
Distrito2000200520102015201920202021202220232024
Lisboa16,8116,8214,614,0614,1413,4613,0412,3611,9210,25
Porto11,8412,1511,5313,6611,7411,6510,9811,111,159,92
Setúbal16,2317,4915,8816,7314,9714,7114,9413,0713,3912,9
Braga11,4713,0913,6414,312,5713,3112,6312,9712,3410,82
Aveiro11,6210,5311,3810,813,5114,5613,7312,4512,7211,66
Coimbra12,3311,6812,4413,0213,5212,2811,4413,019,5810,11
Leiria13,2713,4312,5710,8212,1112,811,7513,213,0212,67
Santarém16,2315,4913,9114,7515,3313,5713,8812,113,8214,1
Faro14,9313,7215,0313,817,5914,6213,6713,8915,3314,15
Viseu10,4913,5813,814,4315,5314,3114,4913,7213,1313,61
Castelo Branco13,7714,5915,8611,6213,9314,3710,8612,0311,2313,46
Vila Real11,9412,8911,7518,6112,916,0414,6411,9212,2610,29
Viana do Castelo10,8410,3711,3711,439,9410,259,079,258,39,62
Guarda11,539,9913,112,7815,9914,5114,9113,8613,8611,1
Bragança8,269,3711,611,4814,0714,6516,1814,4313,7713,31
Évora16,5116,2118,7112,8815,3916,8613,9413,9613,4111,26
Beja17,1117,0719,3714,1315,8314,5312,2114,8513,5910,07
Portalegre18,6417,1418,6117,3414,2413,414,6814,8215,6616,21

Mortalidade = óbitos/internamentos por distrito de residência. Anos seleccionados. Internamentos com diagnóstico principal oncológico. Fonte: BDMH/ACSS.

Síntese dos Principais Achados — Módulo 1

  1. 1,8 milhões de internamentos oncológicos em 25 anos; crescimento de +69% até 2011, depois estabilização com quebra em 2020
  2. Mortalidade intra-hospitalar desceu de 13,9% para 11,3% entre 2000 e 2024 — tendência consistente de melhoria em todos os grupos
  3. Mama é o cancro com mais internamentos (177 182), mas com mortalidade baixa (5,6%) — rastreio e tratamento cada vez mais eficazes
  4. Pulmão tem a maior mortalidade absoluta (40 516 óbitos) e taxa de 25% — ainda diagnóstico tardio na maioria dos casos
  5. Pâncreas, esófago e fígado têm as taxas de mortalidade mais elevadas (21–28%) — cancros de difícil tratamento
  6. Lisboa e Porto concentram 36% dos internamentos; distritos do interior (Portalegre, Beja, Évora) têm mortalidades sistematicamente mais elevadas
  7. A pandemia COVID-19 em 2020 causou uma quebra de -11% nos internamentos oncológicos — com potencial impacto diferido em diagnósticos e tratamentos

Módulos seguintes: Módulo 2 analisará os 10 cancros mais frequentes individualmente com máximo detalhe. Módulo 3 focará na perspectiva geográfica por distrito com desagregação por tipo de cancro e ano.

Metodologia

Fonte: BDMH/ACSS — internamentos SNS 2000–2024.

Definição de caso: Episódio de internamento (tipo_port_apr31='Int') com diagnóstico principal (d1) de neoplasia maligna: ICD-9-CM códigos 140–208 (excluindo neoplasias benignas e in situ); ICD-10-CM códigos C00–C97.

Eras ICD: ICD-9-CM até 2016; ICD-10-CM/PCS a partir de 2017 (com ~5,6% de episódios de 2016 já em ICD-10). Grupos de cancro são mapeados explicitamente em ambas as versões (ver queries de proveniência).

Quebras de série assinaladas: 2013 (redefinição de internamento: -1,31M para -1,01M no SNS); 2020 (COVID-19).

Mortalidade: dsp=20 (falecido durante o internamento). Não inclui mortes pós-alta.

Distritos: Distrito de residência do utente (não de tratamento). Excluídos distritos com código não standard (ilhas, estrangeiros, não identificados).

Reprodutibilidade: consultas SQL utilizadas (3)

Evolução anual total internamentos oncológicos

SELECT ano, COUNT(*) AS internamentos, SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END) AS obitos, ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),2) AS tx_mortalidade, ROUND(AVG(CASE WHEN dias_int>=0 THEN dias_int END),1) AS demora_media FROM episodes WHERE tipo_port_apr31='Int' AND ((icd_versao='9' AND d1 BETWEEN '140' AND '2099') OR (icd_versao='10' AND d1 LIKE 'C%' AND d1 < 'C98')) GROUP BY ano ORDER BY ano

Ranking grupos de cancro por volume total 2000-2024

-- ver relatório completo

Internamentos por distrito e ano

SELECT e.distrito, dd.distrito AS distrito_nome, e.ano, COUNT(*) AS internamentos, SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END) AS obitos, ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),2) AS tx_mortalidade FROM episodes e LEFT JOIN dim_distrito dd ON dd.cod_dist = e.distrito WHERE tipo_port_apr31='Int' AND ((icd_versao='9' AND d1 BETWEEN '140' AND '2099') OR (icd_versao='10' AND d1 LIKE 'C%' AND d1 < 'C98')) AND e.distrito IN ('01','02','03','04','05','06','07','08','09','10','11','12','13','14','15','16','17','18') GROUP BY e.distrito, dd.distrito, e.ano ORDER BY dd.distrito, e.ano

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