Amiloidose por Transtirretina de Tipo Selvagem (ATTRwt) em Portugal — Análise Epidemiológica e Clínica dos Internamentos Hospitalares (2017–2024)
Entre 2017 e 2024, registaram-se 239 episódios de internamento hospitalar com o código E85.82 (ATTRwt — amiloidose por transtirretina wild-type) nos hospitais do SNS português, envolvendo 188 doentes únicos. A doença afecta predominantemente homens muito idosos (80,3% masculinos; mediana de idade 83 anos nos homens), apresenta uma taxa de reinternamento de 33% a 30 dias e 57% a 90 dias, e uma mortalidade hospitalar global de 9,6%. O crescimento do volume codificado foi de +20× entre 2017 e 2024, mas os números permanecem muito abaixo do esperado para a prevalência real da doença, evidenciando subdiagnóstico severo e persistente no SNS português.
Contexto Clínico e Relevância
A amiloidose por transtirretina de tipo selvagem (ATTRwt, anteriormente designada amiloidose senil sistémica) é uma doença de depósito em que a proteína transtirretina (TTR) de sequência normal — não mutada — sofre agregação fibrilar e deposita-se no miocárdio, causando cardiomiopatia restritiva progressiva. Ao contrário da forma hereditária (hATTR/PAF, com mutação V30M), a ATTRwt não tem causa genética identificada e resulta aparentemente da instabilidade da proteína TTR com o envelhecimento.
Porquê é importante em Portugal agora?
- Estudos de autópsia e ecocardiografia estimam que 13–17% dos doentes com insuficiência cardíaca com fracção de ejecção preservada (ICFEp) acima dos 75 anos têm ATTRwt não diagnosticada.
- A aprovação de tafamidis (Vyndamax®/Vyndaqel®) pela EMA em 2019 e a disponibilidade de diagnóstico não invasivo por cintigrafia com 99mTc-DPD tornaram o diagnóstico e tratamento acessíveis.
- Portugal tem uma posição peculiar: país com vasta experiência em amiloidose TTR (pela hATTR/PAF endémica), mas onde a ATTRwt permanece gravemente subdiagnosticada nos registos hospitalares.
- Em Portugal, as estimativas populacionais sugerem que poderão existir vários milhares de doentes com ATTRwt, a maioria sem diagnóstico.
1. Código ICD e Critério de Extracção
Foi utilizado exclusivamente o código ICD-10-CM E85.82 (Wild-type transthyretin-related (ATTR) amyloidosis), que existe na BDMH na forma sem ponto: E8582.
Este código foi introduzido em ICD-10-CM na versão 2019 (vigente nos registos BDMH a partir de 2017 em Portugal, com adopção progressiva). Não existe código ICD-9-CM equivalente — razão pela qual a série se inicia em 2017.
Episódios incluídos: Todos os internamentos SNS (tipo_port_apr31 = 'Int') com E8582 em qualquer das 10 posições de diagnóstico (d1–d10), anos 2017–2024.
Nota importante: A ausência de episódios antes de 2017 não implica que a doença não existisse — significa que os casos eram codificados com códigos inespecíficos (E854 — amiloidose limitada a órgãos; E859 — amiloidose NE), ou simplesmente não diagnosticados. A análise anterior ao código E8582 exigiria cruzamento com dados de cintigrafia DPD e registos de ecocardiografia, não disponíveis na BDMH.
2. Evolução Temporal (2017–2024)
A série anual revela um crescimento claro e sustentado, embora a partir de uma base muito baixa:
- 2017–2018: Fase pioneira — apenas 3 e 4 episódios, exclusivamente como diagnóstico secundário. O código é novo e o reconhecimento clínico é incipiente.
- 2019–2020: Arranque progressivo (11 e 19 episódios). Coincide com a aprovação europeia do tafamidis (2019) e com o início da maior consciência clínica.
- 2021–2022: Aceleração (32 e 37 episódios). A pandemia COVID-19 de 2020 pode ter atrasado o diagnóstico nos idosos.
- 2023–2024: Fase de consolidação com volumes mais expressivos (62 e 71 episódios). Em 2024, pela primeira vez, 15 episódios têm E8582 como diagnóstico principal (21,1%), sinalizando progressão do reconhecimento clínico.
O número de doentes únicos acompanha o crescimento: de 3 (2017) para 61 (2024).
Barras azuis: total de episódios de internamento com E8582 em qualquer posição diagnóstica. Barras vermelhas: episódios com E8582 como diagnóstico principal. Fonte: BDMH/ACSS, SNS 2017–2024.
| Ano | Episódios | Diag. Principal | Diag. Secundário | Doentes únicos | Óbitos | Tx. Mort. (%) | Média dias int. | Idade média | DEQ médio |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2017 | <5 | 0 | <5 | <5 | 0 | — | 11,7 | 60,7 | 1 |
| 2018 | <5 | 0 | <5 | <5 | 0 | — | 14,3 | 76,3 | 0,875 |
| 2019 | 11 | <5 | 9 | 9 | 0 | 0 | 9,2 | 71,5 | 0,97 |
| 2020 | 19 | 0 | 19 | 18 | <5 | 10,5 | 10,9 | 76,1 | 0,975 |
| 2021 | 32 | <5 | 29 | 28 | <5 | 3,1 | 9,8 | 82,7 | 0,977 |
| 2022 | 37 | <5 | 33 | 29 | <5 | 8,1 | 10,6 | 73,5 | 0,983 |
| 2023 | 62 | 5 | 57 | 54 | 5 | 8,1 | 14,2 | 81,9 | 0,981 |
| 2024 | 71 | 15 | 56 | 61 | 12 | 16,9 | 12,6 | 78 | 0,909 |
Células com '<5' suprimidas por n<5. DEQ: desvio esperado APR-DRG v31 (proxy de complexidade relativa, média=1,0).
3. Perfil Demográfico
3.1 Sexo
O predomínio masculino é marcante e clinicamente esperado: 80,3% dos episódios correspondem a homens (razão M:F = 4,1:1). Esta proporção é muito superior à observada nas outras formas de amiloidose (hATTR: 56% masculinos; AL: apenas 30% masculinos) e é consistente com a epidemiologia internacional da ATTRwt, onde os estudos mostram 75–90% de homens.
| Sexo | Episódios | % | Idade média | Mediana idade | Óbitos | Média dias |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Masculino | 192 | 80,3% | 79,3 | 83 anos | 18 | 12,5 |
| Feminino | 47 | 19,7% | 74,1 | 80 anos | 5 | 10,2 |
3.2 Idade
A ATTRwt é uma doença do envelhecimento extremo: 61% dos episódios ocorreram em doentes com 80 ou mais anos:
- 80–84 anos: 20,9%
- 85–89 anos: 29,3% (grupo mais frequente)
- 90+ anos: 11,3%
Os 9,6% de episódios em doentes com menos de 60 anos poderão corresponder a casos atípicos, erros de codificação, ou formas precoces não hereditárias.
Fonte: BDMH/ACSS. Internamentos SNS 2017–2024. O grupo 85–89 anos é o mais frequente (29,3% do total).
4. Mortalidade Hospitalar
A mortalidade hospitalar global foi de 9,6% (23 óbitos em 239 episódios), variando marcadamente ao longo dos anos:
- Anos iniciais (2017–2019): 0% — números muito reduzidos e provavelmente casos menos graves
- 2020: 10,5% (coincidência com pandemia)
- 2021: 3,1%
- 2022–2023: 8,1%
- 2024: 16,9% — valor mais elevado, possivelmente reflectindo crescente acesso ao diagnóstico em fases mais avançadas da doença
Mortalidade por grupo etário
| Grupo etário | Episódios | Óbitos | Tx. Mortalidade |
|---|---|---|---|
| < 60 anos | 23 | <5 | 8,7% |
| 60–69 anos | 23 | <5 | 8,7% |
| 70–74 anos | 21 | <5 | 14,3% |
| 75–79 anos | 25 | <5 | 4,0% |
| 80–84 anos | 50 | <5 | 8,0% |
| 85–89 anos | 70 | 8 | 11,4% |
| 90+ anos | 27 | <5 | 11,1% |
Tipo de admissão e mortalidade
A diferença de mortalidade entre admissão urgente e programada é dramática:
- Urgente (82% dos casos): mortalidade de 11,7%, duração média 13,0 dias
- Programada (18%): mortalidade de 0%, duração média 7,7 dias
Este padrão revela que a doença é maioritariamente diagnosticada ou descompensada em contexto de urgência — com doentes que chegam ao hospital em insuficiência cardíaca aguda, pneumonia ou outra complicação grave, e não em seguimento programado. É um sinal claro de diagnóstico tardio.
2017 e 2018 excluídos (n<5 óbitos, taxas instáveis). Barras verdes: volume de episódios. Linha vermelha: taxa de mortalidade (%). Fonte: BDMH/ACSS.
5. Manifestações Clínicas e Comorbilidades
As comorbilidades Elixhauser e os diagnósticos co-registados nos episódios com E8582 definem com precisão o fenótipo clínico da ATTRwt:
5.1 Tríade cardinal da ATTRwt confirmada nos dados
1. Insuficiência cardíaca (ICC): presente em 69,5% dos episódios — a manifestação dominante. Inclui IC sistólica agudizada (17,6%), IC diastólica agudizada (13,8%) e IC não especificada (16,7%).
2. Fibrilhação auricular (FA): presente em ~38% dos episódios (I4821 + I4891 + I480), consistente com a infiltração amiloide do sistema de condução. Presença de pacemaker em 13% dos episódios — evidência de bloqueios de condução prévios.
3. Doença renal crónica: em 31,8% dos episódios (insuficiência renal Elixhauser), com insuficiência renal aguda em 15,9% — frequente em doentes com ICC descompensada.
5.2 Associação com estenose aórtica
A estenose aórtica não reumática (I350) aparece em 9,2% dos episódios — associação classicamente descrita na ATTRwt e com implicações diagnósticas e terapêuticas importantes (os doentes candidatos a TAVI devem ser rastreados para ATTRwt).
5.3 Hiperplasia benigna da próstata
N400 (hiperplasia benigna da próstata) em 8,4% dos episódios — manifestação extracardíaca da ATTRwt bem documentada, com depósito de amiloide na próstata, e potencial marcador de diagnóstico precoce.
5.4 Derrame pleural e hipoxemia
Derrame pleural (J90) em 6,7% e hipoxemia (R0902) em 6,7% — manifestações da congestão pulmonar em ICC avançada.
Comorbilidades Elixhauser (Quan 2005), identificadas em qualquer posição d1–d10. % calculada sobre 239 episódios de internamento.
6. Causas de Internamento — O que motiva a hospitalização?
Em 87,9% dos episódios (210/239), o código E8582 aparece como diagnóstico secundário — o doente é internado por outra causa aguda, e a ATTRwt é registada como comorbilidade de fundo. Os diagnósticos principais mais frequentes revelam as vias de acesso hospitalares desta doença:
- Descompensação de ICC — I130 (8,1%), I5023 (6,2%), I5033 (4,8%), I509 (1,9%): internamentos por descompensação aguda de insuficiência cardíaca em doentes com ATTRwt conhecida.
- Estenose aórtica — I350 (3,3%): candidatos a avaliação para TAVI com ATTRwt co-diagnosticada.
- Infecções urinárias — N390, N10, N3000 (6,7%): complicações infecciosas nos idosos frágeis.
- Pneumonia — J189 (1,9%), com mortalidade de 50% — internamentos de muito alto risco.
- COVID-19 — U071 (1,9%), mortalidade 25%.
- AVC embólico — I63411 + I63412 (2,8%): complicação tromboembólica da FA associada à ATTRwt.
- Bloqueio auriculoventricular completo — I442 (1,4%): para implantação de pacemaker.
Este padrão confirma que a maioria dos doentes não é internada especificamente por ATTRwt, mas por complicações decorrentes da doença — ICC, arritmias, infecções — sem que a causa de base seja sistematicamente rastreada.
| Código ICD-10 | Descrição | N.º episódios | % (sobre 210 diag. 2.º) | Óbitos | Tx. Mort. (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| I130 | Doença cardíaca e renal hipertensiva com IC | 17 | 8,1 | <5 | 5,9 |
| I5023 | IC sistólica crónica agudizada | 13 | 6,2 | <5 | 7,7 |
| I110 | Doença cardíaca hipertensiva com IC | 10 | 4,8 | <5 | 20 |
| I5033 | IC diastólica crónica agudizada | 10 | 4,8 | <5 | 10 |
| I350 | Estenose aórtica não reumática | 7 | 3,3 | 0 | 0 |
| N179 | Insuficiência renal aguda | 5 | 2,4 | 0 | 0 |
| I425 | Cardiomiopatia restritiva | 5 | 2,4 | <5 | 20 |
| N10 | Pielonefrite aguda | 5 | 2,4 | <5 | 20 |
| U071 | COVID-19 | <5 | 1,9 | <5 | 25 |
| J189 | Pneumonia, organismo NE | <5 | 1,9 | <5 | 50 |
| I509 | IC não especificada | <5 | 1,9 | 0 | 0 |
| I442 | Bloqueio AV completo | <5 | 1,4 | 0 | 0 |
| I63412 | AVC embólico — ACM esquerda | <5 | 1,4 | 0 | 0 |
| I63411 | AVC embólico — ACM direita | <5 | 1,4 | 0 | 0 |
| N390 | Infecção trato urinário | <5 | 1,9 | 0 | 0 |
Episódios em que E8582 aparece nas posições d2–d10. NE = não especificado; ACM = artéria cerebral média. Células '<5' suprimidas por n<5.
7. Duração do Internamento e Complexidade
A ATTRwt gera internamentos mais longos do que as outras formas de amiloidose:
| Indicador | ATTRwt (E8582) | hATTR (E851) | AL (E8581) |
|---|---|---|---|
| Média dias | 12,1 | 8,9 | 6,5 |
| Mediana dias | 7 | — | — |
| P75 | 14 dias | — | — |
| P90 | 27 dias | — | — |
| P95 | 42 dias | — | — |
| Internamentos ≥14 dias | 25,9% | — | — |
| Internamentos ≥30 dias | 8,4% | — | — |
O DEQ médio de 0,957 (próximo da média geral de 1,0) indica que estes episódios têm uma complexidade clínica próxima da média do sistema, apesar da gravidade da doença — possivelmente porque a maioria dos episódios não tem o GDH directamente associado à ATTRwt, mas aos diagnósticos principais de ICC ou outras complicações.
8. Procedimentos Terapêuticos e Diagnósticos
Nos 239 episódios de internamento, identificaram-se os seguintes procedimentos:
| Procedimento | N.º episódios | Óbitos | Notas |
|---|---|---|---|
| Cateterismo cardíaco | 49 (20,5%) | <5 | Avaliação hemodinâmica da cardiomiopatia restritiva |
| CDI (desfibrilhador) | 11 (4,6%) | 0 | Prevenção morte súbita por arritmia |
| Diálise | 7 (2,9%) | <5 | Nefropatia amiloide / síndrome cardiorrenal |
| Ventilação mecânica | <5 (0,4%) | <5 | Descompensação respiratória grave |
| Pacemaker | <5 (0,4%) | 0 | Bloqueio de condução |
O cateterismo cardíaco em 20,5% dos episódios é notável: indica que estes doentes são frequentemente submetidos a avaliação invasiva da hemodinâmica cardíaca — parte do workup diagnóstico da cardiomiopatia restritiva — confirmando que a ATTRwt é diagnosticada e investigada activamente nos centros com maior experiência.
9. Reinternamentos — Padrão de Doença Crónica Progressiva
Os dados de seguimento (121 episódios com seguimento possível, excluindo sentinelas) revelam uma taxa de reinternamento extraordinariamente elevada:
| Período | N.º reinternamentos | Taxa |
|---|---|---|
| 30 dias | 40 | 33,1% |
| 90 dias | 69 | 57,0% |
| 1 ano | 105 | 86,8% |
Esta taxa de 86,8% de reinternamento num ano significa que quase 9 em cada 10 doentes com ATTRwt internados são reinternados no espaço de 12 meses. Este padrão reflecte:
- A natureza crónica e progressiva da ICC amiloide, com descompensações repetidas
- A elevada fragilidade desta população de idosos octogenários
- A falta de terapêutica modificadora da doença na maioria dos doentes (tafamidis ainda com acesso limitado no SNS no período analisado)
- A ausência de gestão integrada de doença crónica adaptada a esta patologia
Base: 121 episódios com seguimento possível (n_ficticio_utente válido, não-sentinela, com episódio subsequente identificável). Reinternamento em qualquer serviço do SNS.
10. Distribuição Geográfica
Por Distrito de Residência
O Porto e Lisboa concentram o maior número de casos, o que reflecte tanto a maior população como a localização dos centros de referência com capacidade de diagnóstico de ATTRwt.
É importante notar que, ao contrário da hATTR (com cluster inequívoco no Norte), a ATTRwt distribui-se de forma mais uniforme pelo território — sendo uma doença do envelhecimento sem predisposição genética regional.
Por Hospital
Apenas 5 centros concentram 73% de todos os episódios com E8582, evidenciando uma forte centralização do diagnóstico:
- ULS São João (Porto): 44 episódios — maior centro
- ULS Lisboa Ocidental (Hospital de Santa Cruz): 40 — polo Lisboa, com programa de TAVI
- ULS Coimbra: 31
- ULS Santo António (Porto): 22
- ULS São José (Lisboa): 12
A ULS de Lisboa Ocidental (Hospital de Santa Cruz) é particularmente relevante: tem experiência em TAVI e programa de cintigrafia cardíaca, o que explica a detecção de ATTRwt em doentes avaliados para valvulopatia aórtica.
| Hospital | Episódios | Diag. Principal | Doentes únicos | Idade média | Óbitos | Tx. Mort. (%) | Média dias | % Urgência |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| ULS de São João (Porto) | 44 | 7 | 36 | 81,9 | <5 | 4,5 | 8,4 | 81,8 |
| ULS de Lisboa Ocidental | 40 | <5 | 32 | 80,8 | 5 | 12,5 | 14,9 | 70 |
| ULS de Coimbra | 31 | 5 | 22 | 75,4 | 5 | 16,1 | 14,3 | 74,2 |
| ULS de Santo António (Porto) | 22 | <5 | 21 | 71 | 0 | 0 | 8,8 | 72,7 |
| ULS de São José (Lisboa) | 12 | 0 | <5 | 68,6 | <5 | 8,3 | 16,9 | 83,3 |
| ULS da Arrábida | 11 | 0 | 8 | 76,9 | <5 | 18,2 | 10,8 | 100 |
| ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro | 7 | <5 | 6 | 86 | 0 | 0 | 11,7 | 100 |
| ULS do Tâmega e Sousa | 6 | 0 | 5 | 84 | 0 | 0 | 10,7 | 100 |
| ULS do Algarve | 5 | 0 | 5 | 86,6 | 0 | 0 | 12,2 | 100 |
| ULS de Viseu Dão-Lafões | 5 | 0 | 5 | 79,6 | <5 | 20 | 8,4 | 100 |
| ULS de Entre Douro e Vouga | 5 | 0 | <5 | 81 | 0 | 0 | 8,8 | 80 |
| ULS da Região de Aveiro | 5 | 0 | 5 | 82,8 | <5 | 20 | 11,6 | 100 |
Hospitais com ≥5 episódios. Nomes reflectem estrutura ULS 2025. Células '<5' suprimidas. Tx. Mort. e média dias com n pequeno devem ser interpretados com cautela.
| Distrito | Episódios | Doentes únicos | Idade média | Óbitos | Tx. Mort. (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Porto | 63 | 54 | 81,2 | <5 | 4,8 |
| Lisboa | 62 | 40 | 77,2 | 7 | 11,3 |
| Setúbal | 18 | 15 | 75,7 | <5 | 11,1 |
| Aveiro | 17 | 13 | 77,2 | <5 | 11,8 |
| Coimbra | 16 | 12 | 76,9 | <5 | 12,5 |
| Viseu | 13 | 11 | 79,7 | 0 | 0 |
| Castelo Branco | 10 | 7 | 73 | <5 | 10 |
| Braga | 10 | 10 | 73,1 | 0 | 0 |
| Leiria | 8 | 7 | 80,9 | <5 | 37,5 |
| Vila Real | 7 | 6 | 86 | 0 | 0 |
| Faro | 5 | 5 | 86,6 | 0 | 0 |
Distritos com n<5 suprimidos. A concentração em Porto e Lisboa reflecte tanto população como proximidade a centros de diagnóstico.
11. Comparação com Outras Formas de Amiloidose
A tabela seguinte coloca a ATTRwt em perspectiva face às outras duas formas principais de amiloidose com codificação ICD-10 específica na BDMH — a hATTR (PAF hereditária, E851) e a amiloidose AL (E8581):
| Característica | ATTRwt (E8582) | hATTR (E851) | AL (E8581) |
|---|---|---|---|
| N.º episódios | 239 | 2729 | 1273 |
| Doentes únicos | 188 | 1225 | 344 |
| Idade média (anos) | 78,2 | 53,2 | 69,6 |
| % Masculino | 80,3% | 56,4% | 29,9% |
| Mortalidade hospitalar | 9,6% | 6,4% | 6,2% |
| Média dias internamento | 12,1 | 8,9 | 6,5 |
| % Admissão urgente | 82,0% | 56,3% | 28,4% |
| DEQ médio (complexidade) | 0,957 | 0,907 | 0,693 |
| Principal comorbilidade | ICC (69,5%) | Doença hepática | Linfoma / tumor |
A ATTRwt distingue-se pela idade muito superior, predomínio masculino marcado, elevada taxa de urgência e internamentos mais longos. DEQ: desvio esperado APR-DRG v31 (1,0 = média do sistema).
Fonte: BDMH/ACSS 2017–2024, internamentos SNS. ATTRwt tem a maior idade, maior taxa de urgência e maior mortalidade dos três subtipos.
12. Subdiagnóstico — Estimativa da Magnitude
A comparação entre os números observados na BDMH e as estimativas epidemiológicas internacionais permite avaliar a dimensão do subdiagnóstico da ATTRwt em Portugal:
Dados demográficos portugueses (2024):
- Populaçao ≥75 anos: ~1,1 milhões
- Populaçao ≥80 anos: ~650.000
- Doentes com ICFEp (FE ≥50%) estimados: ~150.000–200.000
Estimativa de prevalência ATTRwt (literatura):
- 13–17% dos doentes com ICFEp acima dos 75 anos têm ATTRwt
- Esto implica ~20.000–30.000 doentes potenciais em Portugal
Observado na BDMH (2024): 71 episódios de internamento, 61 doentes únicos
Gap de diagnóstico estimado: >99% dos casos potenciais não têm diagnóstico codificado hospitalar.
Causas do subdiagnóstico
- Sobreposição com ICFEp não investigada: A maioria dos idosos com ATTRwt é diagnosticada com "insuficiência cardíaca" ou "cardiomiopatia restritiva" sem workup etiológico.
- Acesso limitado a cintigrafia 99mTc-DPD: O exame de eleição para diagnóstico não invasivo não está universalmente disponível.
- Baixa suspeição clínica em Medicina Interna e Urgência: A ATTRwt é considerada rara quando na realidade é comum nos idosos.
- Ausência de rastreio sistemático em populações de risco: Doentes com ICFEp, estenose aórtica para TAVI ou síndrome do canal cárpico bilateral deveriam ser sistematicamente rastreados.
- Codificação hospitalar inespecífica: Muitos casos estão provavelmente codificados como E854 (amiloidose limitada a órgãos, 1.715 episódios com idade média 75,9 anos) ou E859 (NE).
13. Conclusões e Implicações
O que os dados confirmam
- A ATTRwt existe e está a ser crescentemente diagnosticada em Portugal: +20× de episódios entre 2017 e 2024
- O perfil clínico é exactamente o esperado: homens octogenários com ICC, FA, doença renal e estenose aórtica
- A doença é muito mais grave do que os números sugerem: mortalidade de 16,9% em 2024, taxa de reinternamento a 1 ano de 86,8%
- Existe uma concentração extrema do diagnóstico em 5 centros hospitalares
- A maioria dos internamentos (82%) ocorre por urgência, sugerindo diagnóstico tardio em doença avançada
Implicações para a saúde pública e política de saúde
- Rastreio sistemático de ATTRwt em ICFEp nos ≥75 anos, em candidatos a TAVI e em doentes com síndrome do canal cárpico bilateral
- Expansão do acesso a cintigrafia 99mTc-DPD fora dos grandes centros
- Protocolo de codificação claro para E8582 nos hospitais SNS (actualmente ausente em muitos centros)
- Avaliação urgente do acesso ao tafamidis no SNS: se a doença é diagnosticada em fase avançada (internamento de urgência), o benefício terapêutico é menor
- Criação de registo nacional de ATTRwt para monitorizar a cascata diagnóstica e o acesso ao tratamento
Metodologia
Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS — episódios hospitalares nos hospitais do SNS português, 2017–2024.
Código ICD utilizado: ICD-10-CM E8582 (Wild-type transthyretin-related (ATTR) amyloidosis), em qualquer das posições d1–d10.
Tipo de episódio: Internamentos (tipo_port_apr31 = 'Int') na análise principal; episódios ambulatórios (Amb) referenciados separadamente. A série inicia em 2017 porque o código E8582 não existia em ICD-9-CM.
Exclusões de IDs sentinela: Aplicadas na análise de reinternamentos (n_ficticio_utente NOT IN sentinel_patient_ids).
Doentes únicos: Contagem de n_ficticio_utente distinto; linkage <1% indeterminado após 2017.
Reinternamentos: Calculados sobre pares de episódios consecutivos do mesmo utente (qualquer internamento subsequente após a alta); base de 121 episódios com seguimento disponível.
Comorbilidades: Elixhauser (Quan 2005), d1–d10, hierarquia aplicada.
Comparação entre subtipos: E8582 vs E851 (hATTR) vs E8581 (AL), todos em internamento SNS 2017–2024.
Supressão de células: Células com n<5 apresentadas como '<5' em conformidade com as normas de privacidade.
Limitações: (1) Série curta (8 anos) com volumes reduzidos — taxas instáveis nos anos iniciais; (2) Subdiagnóstico marcado impede análise de incidência real; (3) Não é possível distinguir na BDMH se o diagnóstico foi feito por cintigrafia DPD, biopsia ou critérios clínicos; (4) Informação sobre terapêutica farmacológica (tafamidis, etc.) não disponível na BDMH; (5) Dados de ambulatório muito incompletos para esta patologia (n=35 em todo o período).
Data de análise: Junho de 2025.