5 de junho de 2026

Amiloidose por Transtirretina de Tipo Selvagem (ATTRwt) em Portugal — Análise Epidemiológica e Clínica dos Internamentos Hospitalares (2017–2024)

Entre 2017 e 2024, registaram-se 239 episódios de internamento hospitalar com o código E85.82 (ATTRwt — amiloidose por transtirretina wild-type) nos hospitais do SNS português, envolvendo 188 doentes únicos. A doença afecta predominantemente homens muito idosos (80,3% masculinos; mediana de idade 83 anos nos homens), apresenta uma taxa de reinternamento de 33% a 30 dias e 57% a 90 dias, e uma mortalidade hospitalar global de 9,6%. O crescimento do volume codificado foi de +20× entre 2017 e 2024, mas os números permanecem muito abaixo do esperado para a prevalência real da doença, evidenciando subdiagnóstico severo e persistente no SNS português.

Contexto Clínico e Relevância

A amiloidose por transtirretina de tipo selvagem (ATTRwt, anteriormente designada amiloidose senil sistémica) é uma doença de depósito em que a proteína transtirretina (TTR) de sequência normal — não mutada — sofre agregação fibrilar e deposita-se no miocárdio, causando cardiomiopatia restritiva progressiva. Ao contrário da forma hereditária (hATTR/PAF, com mutação V30M), a ATTRwt não tem causa genética identificada e resulta aparentemente da instabilidade da proteína TTR com o envelhecimento.

Porquê é importante em Portugal agora?

  • Estudos de autópsia e ecocardiografia estimam que 13–17% dos doentes com insuficiência cardíaca com fracção de ejecção preservada (ICFEp) acima dos 75 anos têm ATTRwt não diagnosticada.
  • A aprovação de tafamidis (Vyndamax®/Vyndaqel®) pela EMA em 2019 e a disponibilidade de diagnóstico não invasivo por cintigrafia com 99mTc-DPD tornaram o diagnóstico e tratamento acessíveis.
  • Portugal tem uma posição peculiar: país com vasta experiência em amiloidose TTR (pela hATTR/PAF endémica), mas onde a ATTRwt permanece gravemente subdiagnosticada nos registos hospitalares.
  • Em Portugal, as estimativas populacionais sugerem que poderão existir vários milhares de doentes com ATTRwt, a maioria sem diagnóstico.
239
Episódios de internamento com E85.82 (2017–2024)
188 doentes únicos identificados; série inicia em 2017 (primeiro ano de codificação ICD-10 generalizada)
+20×
Crescimento anual de episódios codificados (2017→2024)
De 3 episódios em 2017 para 71 em 2024 — mas ainda muito abaixo da prevalência real estimada
57,0%
Reinternamento a 90 dias
86,8% dos doentes com seguimento foram reinternados no prazo de 1 ano — padrão de doença crónica progressiva

1. Código ICD e Critério de Extracção

Foi utilizado exclusivamente o código ICD-10-CM E85.82 (Wild-type transthyretin-related (ATTR) amyloidosis), que existe na BDMH na forma sem ponto: E8582.

Este código foi introduzido em ICD-10-CM na versão 2019 (vigente nos registos BDMH a partir de 2017 em Portugal, com adopção progressiva). Não existe código ICD-9-CM equivalente — razão pela qual a série se inicia em 2017.

Episódios incluídos: Todos os internamentos SNS (tipo_port_apr31 = 'Int') com E8582 em qualquer das 10 posições de diagnóstico (d1–d10), anos 2017–2024.

Nota importante: A ausência de episódios antes de 2017 não implica que a doença não existisse — significa que os casos eram codificados com códigos inespecíficos (E854 — amiloidose limitada a órgãos; E859 — amiloidose NE), ou simplesmente não diagnosticados. A análise anterior ao código E8582 exigiria cruzamento com dados de cintigrafia DPD e registos de ecocardiografia, não disponíveis na BDMH.

2. Evolução Temporal (2017–2024)

A série anual revela um crescimento claro e sustentado, embora a partir de uma base muito baixa:

  • 2017–2018: Fase pioneira — apenas 3 e 4 episódios, exclusivamente como diagnóstico secundário. O código é novo e o reconhecimento clínico é incipiente.
  • 2019–2020: Arranque progressivo (11 e 19 episódios). Coincide com a aprovação europeia do tafamidis (2019) e com o início da maior consciência clínica.
  • 2021–2022: Aceleração (32 e 37 episódios). A pandemia COVID-19 de 2020 pode ter atrasado o diagnóstico nos idosos.
  • 2023–2024: Fase de consolidação com volumes mais expressivos (62 e 71 episódios). Em 2024, pela primeira vez, 15 episódios têm E8582 como diagnóstico principal (21,1%), sinalizando progressão do reconhecimento clínico.

O número de doentes únicos acompanha o crescimento: de 3 (2017) para 61 (2024).

Evolução anual de episódios de internamento por ATTRwt — E85.82 (2017–2024)

Barras azuis: total de episódios de internamento com E8582 em qualquer posição diagnóstica. Barras vermelhas: episódios com E8582 como diagnóstico principal. Fonte: BDMH/ACSS, SNS 2017–2024.

Série anual completa — Internamentos por ATTRwt (E85.82), 2017–2024
AnoEpisódiosDiag. PrincipalDiag. SecundárioDoentes únicosÓbitosTx. Mort. (%)Média dias int.Idade médiaDEQ médio
2017<50<5<5011,760,71
2018<50<5<5014,376,30,875
201911<599009,271,50,97
20201901918<510,510,976,10,975
202132<52928<53,19,882,70,977
202237<53329<58,110,673,50,983
2023625575458,114,281,90,981
2024711556611216,912,6780,909

Células com '<5' suprimidas por n<5. DEQ: desvio esperado APR-DRG v31 (proxy de complexidade relativa, média=1,0).

3. Perfil Demográfico

3.1 Sexo

O predomínio masculino é marcante e clinicamente esperado: 80,3% dos episódios correspondem a homens (razão M:F = 4,1:1). Esta proporção é muito superior à observada nas outras formas de amiloidose (hATTR: 56% masculinos; AL: apenas 30% masculinos) e é consistente com a epidemiologia internacional da ATTRwt, onde os estudos mostram 75–90% de homens.

SexoEpisódios%Idade médiaMediana idadeÓbitosMédia dias
Masculino19280,3%79,383 anos1812,5
Feminino4719,7%74,180 anos510,2

3.2 Idade

A ATTRwt é uma doença do envelhecimento extremo: 61% dos episódios ocorreram em doentes com 80 ou mais anos:

  • 80–84 anos: 20,9%
  • 85–89 anos: 29,3% (grupo mais frequente)
  • 90+ anos: 11,3%

Os 9,6% de episódios em doentes com menos de 60 anos poderão corresponder a casos atípicos, erros de codificação, ou formas precoces não hereditárias.

Distribuição etária dos episódios de ATTRwt por sexo (E85.82, 2017–2024)

Fonte: BDMH/ACSS. Internamentos SNS 2017–2024. O grupo 85–89 anos é o mais frequente (29,3% do total).

4. Mortalidade Hospitalar

A mortalidade hospitalar global foi de 9,6% (23 óbitos em 239 episódios), variando marcadamente ao longo dos anos:

  • Anos iniciais (2017–2019): 0% — números muito reduzidos e provavelmente casos menos graves
  • 2020: 10,5% (coincidência com pandemia)
  • 2021: 3,1%
  • 2022–2023: 8,1%
  • 2024: 16,9% — valor mais elevado, possivelmente reflectindo crescente acesso ao diagnóstico em fases mais avançadas da doença

Mortalidade por grupo etário

Grupo etárioEpisódiosÓbitosTx. Mortalidade
< 60 anos23<58,7%
60–69 anos23<58,7%
70–74 anos21<514,3%
75–79 anos25<54,0%
80–84 anos50<58,0%
85–89 anos70811,4%
90+ anos27<511,1%

Tipo de admissão e mortalidade

A diferença de mortalidade entre admissão urgente e programada é dramática:

  • Urgente (82% dos casos): mortalidade de 11,7%, duração média 13,0 dias
  • Programada (18%): mortalidade de 0%, duração média 7,7 dias

Este padrão revela que a doença é maioritariamente diagnosticada ou descompensada em contexto de urgência — com doentes que chegam ao hospital em insuficiência cardíaca aguda, pneumonia ou outra complicação grave, e não em seguimento programado. É um sinal claro de diagnóstico tardio.

Mortalidade hospitalar anual por ATTRwt (E85.82) — taxa e óbitos (2019–2024)

2017 e 2018 excluídos (n<5 óbitos, taxas instáveis). Barras verdes: volume de episódios. Linha vermelha: taxa de mortalidade (%). Fonte: BDMH/ACSS.

5. Manifestações Clínicas e Comorbilidades

As comorbilidades Elixhauser e os diagnósticos co-registados nos episódios com E8582 definem com precisão o fenótipo clínico da ATTRwt:

5.1 Tríade cardinal da ATTRwt confirmada nos dados

1. Insuficiência cardíaca (ICC): presente em 69,5% dos episódios — a manifestação dominante. Inclui IC sistólica agudizada (17,6%), IC diastólica agudizada (13,8%) e IC não especificada (16,7%).

2. Fibrilhação auricular (FA): presente em ~38% dos episódios (I4821 + I4891 + I480), consistente com a infiltração amiloide do sistema de condução. Presença de pacemaker em 13% dos episódios — evidência de bloqueios de condução prévios.

3. Doença renal crónica: em 31,8% dos episódios (insuficiência renal Elixhauser), com insuficiência renal aguda em 15,9% — frequente em doentes com ICC descompensada.

5.2 Associação com estenose aórtica

A estenose aórtica não reumática (I350) aparece em 9,2% dos episódios — associação classicamente descrita na ATTRwt e com implicações diagnósticas e terapêuticas importantes (os doentes candidatos a TAVI devem ser rastreados para ATTRwt).

5.3 Hiperplasia benigna da próstata

N400 (hiperplasia benigna da próstata) em 8,4% dos episódios — manifestação extracardíaca da ATTRwt bem documentada, com depósito de amiloide na próstata, e potencial marcador de diagnóstico precoce.

5.4 Derrame pleural e hipoxemia

Derrame pleural (J90) em 6,7% e hipoxemia (R0902) em 6,7% — manifestações da congestão pulmonar em ICC avançada.

Comorbilidades Elixhauser mais frequentes nos episódios de ATTRwt (E85.82)

Comorbilidades Elixhauser (Quan 2005), identificadas em qualquer posição d1–d10. % calculada sobre 239 episódios de internamento.

6. Causas de Internamento — O que motiva a hospitalização?

Em 87,9% dos episódios (210/239), o código E8582 aparece como diagnóstico secundário — o doente é internado por outra causa aguda, e a ATTRwt é registada como comorbilidade de fundo. Os diagnósticos principais mais frequentes revelam as vias de acesso hospitalares desta doença:

  1. Descompensação de ICC — I130 (8,1%), I5023 (6,2%), I5033 (4,8%), I509 (1,9%): internamentos por descompensação aguda de insuficiência cardíaca em doentes com ATTRwt conhecida.
  2. Estenose aórtica — I350 (3,3%): candidatos a avaliação para TAVI com ATTRwt co-diagnosticada.
  3. Infecções urinárias — N390, N10, N3000 (6,7%): complicações infecciosas nos idosos frágeis.
  4. Pneumonia — J189 (1,9%), com mortalidade de 50% — internamentos de muito alto risco.
  5. COVID-19 — U071 (1,9%), mortalidade 25%.
  6. AVC embólico — I63411 + I63412 (2,8%): complicação tromboembólica da FA associada à ATTRwt.
  7. Bloqueio auriculoventricular completo — I442 (1,4%): para implantação de pacemaker.

Este padrão confirma que a maioria dos doentes não é internada especificamente por ATTRwt, mas por complicações decorrentes da doença — ICC, arritmias, infecções — sem que a causa de base seja sistematicamente rastreada.

Principais diagnósticos de internamento quando ATTRwt (E85.82) é diagnóstico secundário (top 15)
Código ICD-10DescriçãoN.º episódios% (sobre 210 diag. 2.º)ÓbitosTx. Mort. (%)
I130Doença cardíaca e renal hipertensiva com IC178,1<55,9
I5023IC sistólica crónica agudizada136,2<57,7
I110Doença cardíaca hipertensiva com IC104,8<520
I5033IC diastólica crónica agudizada104,8<510
I350Estenose aórtica não reumática73,300
N179Insuficiência renal aguda52,400
I425Cardiomiopatia restritiva52,4<520
N10Pielonefrite aguda52,4<520
U071COVID-19<51,9<525
J189Pneumonia, organismo NE<51,9<550
I509IC não especificada<51,900
I442Bloqueio AV completo<51,400
I63412AVC embólico — ACM esquerda<51,400
I63411AVC embólico — ACM direita<51,400
N390Infecção trato urinário<51,900

Episódios em que E8582 aparece nas posições d2–d10. NE = não especificado; ACM = artéria cerebral média. Células '<5' suprimidas por n<5.

7. Duração do Internamento e Complexidade

A ATTRwt gera internamentos mais longos do que as outras formas de amiloidose:

IndicadorATTRwt (E8582)hATTR (E851)AL (E8581)
Média dias12,18,96,5
Mediana dias7
P7514 dias
P9027 dias
P9542 dias
Internamentos ≥14 dias25,9%
Internamentos ≥30 dias8,4%

O DEQ médio de 0,957 (próximo da média geral de 1,0) indica que estes episódios têm uma complexidade clínica próxima da média do sistema, apesar da gravidade da doença — possivelmente porque a maioria dos episódios não tem o GDH directamente associado à ATTRwt, mas aos diagnósticos principais de ICC ou outras complicações.

8. Procedimentos Terapêuticos e Diagnósticos

Nos 239 episódios de internamento, identificaram-se os seguintes procedimentos:

ProcedimentoN.º episódiosÓbitosNotas
Cateterismo cardíaco49 (20,5%)<5Avaliação hemodinâmica da cardiomiopatia restritiva
CDI (desfibrilhador)11 (4,6%)0Prevenção morte súbita por arritmia
Diálise7 (2,9%)<5Nefropatia amiloide / síndrome cardiorrenal
Ventilação mecânica<5 (0,4%)<5Descompensação respiratória grave
Pacemaker<5 (0,4%)0Bloqueio de condução

O cateterismo cardíaco em 20,5% dos episódios é notável: indica que estes doentes são frequentemente submetidos a avaliação invasiva da hemodinâmica cardíaca — parte do workup diagnóstico da cardiomiopatia restritiva — confirmando que a ATTRwt é diagnosticada e investigada activamente nos centros com maior experiência.

9. Reinternamentos — Padrão de Doença Crónica Progressiva

Os dados de seguimento (121 episódios com seguimento possível, excluindo sentinelas) revelam uma taxa de reinternamento extraordinariamente elevada:

PeríodoN.º reinternamentosTaxa
30 dias4033,1%
90 dias6957,0%
1 ano10586,8%

Esta taxa de 86,8% de reinternamento num ano significa que quase 9 em cada 10 doentes com ATTRwt internados são reinternados no espaço de 12 meses. Este padrão reflecte:

  1. A natureza crónica e progressiva da ICC amiloide, com descompensações repetidas
  2. A elevada fragilidade desta população de idosos octogenários
  3. A falta de terapêutica modificadora da doença na maioria dos doentes (tafamidis ainda com acesso limitado no SNS no período analisado)
  4. A ausência de gestão integrada de doença crónica adaptada a esta patologia
Taxa de reinternamento em doentes com ATTRwt (E85.82) por período

Base: 121 episódios com seguimento possível (n_ficticio_utente válido, não-sentinela, com episódio subsequente identificável). Reinternamento em qualquer serviço do SNS.

10. Distribuição Geográfica

Por Distrito de Residência

O Porto e Lisboa concentram o maior número de casos, o que reflecte tanto a maior população como a localização dos centros de referência com capacidade de diagnóstico de ATTRwt.

É importante notar que, ao contrário da hATTR (com cluster inequívoco no Norte), a ATTRwt distribui-se de forma mais uniforme pelo território — sendo uma doença do envelhecimento sem predisposição genética regional.

Por Hospital

Apenas 5 centros concentram 73% de todos os episódios com E8582, evidenciando uma forte centralização do diagnóstico:

  1. ULS São João (Porto): 44 episódios — maior centro
  2. ULS Lisboa Ocidental (Hospital de Santa Cruz): 40 — polo Lisboa, com programa de TAVI
  3. ULS Coimbra: 31
  4. ULS Santo António (Porto): 22
  5. ULS São José (Lisboa): 12

A ULS de Lisboa Ocidental (Hospital de Santa Cruz) é particularmente relevante: tem experiência em TAVI e programa de cintigrafia cardíaca, o que explica a detecção de ATTRwt em doentes avaliados para valvulopatia aórtica.

Distribuição por hospital — Episódios de ATTRwt (E85.82), 2017–2024
HospitalEpisódiosDiag. PrincipalDoentes únicosIdade médiaÓbitosTx. Mort. (%)Média dias% Urgência
ULS de São João (Porto)4473681,9<54,58,481,8
ULS de Lisboa Ocidental40<53280,8512,514,970
ULS de Coimbra3152275,4516,114,374,2
ULS de Santo António (Porto)22<52171008,872,7
ULS de São José (Lisboa)120<568,6<58,316,983,3
ULS da Arrábida110876,9<518,210,8100
ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro7<56860011,7100
ULS do Tâmega e Sousa605840010,7100
ULS do Algarve50586,60012,2100
ULS de Viseu Dão-Lafões50579,6<5208,4100
ULS de Entre Douro e Vouga50<581008,880
ULS da Região de Aveiro50582,8<52011,6100

Hospitais com ≥5 episódios. Nomes reflectem estrutura ULS 2025. Células '<5' suprimidas. Tx. Mort. e média dias com n pequeno devem ser interpretados com cautela.

Distribuição por distrito de residência — Episódios de ATTRwt (E85.82)
DistritoEpisódiosDoentes únicosIdade médiaÓbitosTx. Mort. (%)
Porto635481,2<54,8
Lisboa624077,2711,3
Setúbal181575,7<511,1
Aveiro171377,2<511,8
Coimbra161276,9<512,5
Viseu131179,700
Castelo Branco10773<510
Braga101073,100
Leiria8780,9<537,5
Vila Real768600
Faro5586,600

Distritos com n<5 suprimidos. A concentração em Porto e Lisboa reflecte tanto população como proximidade a centros de diagnóstico.

11. Comparação com Outras Formas de Amiloidose

A tabela seguinte coloca a ATTRwt em perspectiva face às outras duas formas principais de amiloidose com codificação ICD-10 específica na BDMH — a hATTR (PAF hereditária, E851) e a amiloidose AL (E8581):

Comparação de perfis clínicos entre subtipos de amiloidose — Internamento SNS (2017–2024)
CaracterísticaATTRwt (E8582)hATTR (E851)AL (E8581)
N.º episódios23927291273
Doentes únicos1881225344
Idade média (anos)78,253,269,6
% Masculino80,3%56,4%29,9%
Mortalidade hospitalar9,6%6,4%6,2%
Média dias internamento12,18,96,5
% Admissão urgente82,0%56,3%28,4%
DEQ médio (complexidade)0,9570,9070,693
Principal comorbilidadeICC (69,5%)Doença hepáticaLinfoma / tumor

A ATTRwt distingue-se pela idade muito superior, predomínio masculino marcado, elevada taxa de urgência e internamentos mais longos. DEQ: desvio esperado APR-DRG v31 (1,0 = média do sistema).

Perfil comparativo entre subtipos de amiloidose — Indicadores seleccionados

Fonte: BDMH/ACSS 2017–2024, internamentos SNS. ATTRwt tem a maior idade, maior taxa de urgência e maior mortalidade dos três subtipos.

12. Subdiagnóstico — Estimativa da Magnitude

A comparação entre os números observados na BDMH e as estimativas epidemiológicas internacionais permite avaliar a dimensão do subdiagnóstico da ATTRwt em Portugal:

Dados demográficos portugueses (2024):

  • Populaçao ≥75 anos: ~1,1 milhões
  • Populaçao ≥80 anos: ~650.000
  • Doentes com ICFEp (FE ≥50%) estimados: ~150.000–200.000

Estimativa de prevalência ATTRwt (literatura):

  • 13–17% dos doentes com ICFEp acima dos 75 anos têm ATTRwt
  • Esto implica ~20.000–30.000 doentes potenciais em Portugal

Observado na BDMH (2024): 71 episódios de internamento, 61 doentes únicos

Gap de diagnóstico estimado: >99% dos casos potenciais não têm diagnóstico codificado hospitalar.

Causas do subdiagnóstico

  1. Sobreposição com ICFEp não investigada: A maioria dos idosos com ATTRwt é diagnosticada com "insuficiência cardíaca" ou "cardiomiopatia restritiva" sem workup etiológico.
  2. Acesso limitado a cintigrafia 99mTc-DPD: O exame de eleição para diagnóstico não invasivo não está universalmente disponível.
  3. Baixa suspeição clínica em Medicina Interna e Urgência: A ATTRwt é considerada rara quando na realidade é comum nos idosos.
  4. Ausência de rastreio sistemático em populações de risco: Doentes com ICFEp, estenose aórtica para TAVI ou síndrome do canal cárpico bilateral deveriam ser sistematicamente rastreados.
  5. Codificação hospitalar inespecífica: Muitos casos estão provavelmente codificados como E854 (amiloidose limitada a órgãos, 1.715 episódios com idade média 75,9 anos) ou E859 (NE).

13. Conclusões e Implicações

O que os dados confirmam

  • A ATTRwt existe e está a ser crescentemente diagnosticada em Portugal: +20× de episódios entre 2017 e 2024
  • O perfil clínico é exactamente o esperado: homens octogenários com ICC, FA, doença renal e estenose aórtica
  • A doença é muito mais grave do que os números sugerem: mortalidade de 16,9% em 2024, taxa de reinternamento a 1 ano de 86,8%
  • Existe uma concentração extrema do diagnóstico em 5 centros hospitalares
  • A maioria dos internamentos (82%) ocorre por urgência, sugerindo diagnóstico tardio em doença avançada

Implicações para a saúde pública e política de saúde

  1. Rastreio sistemático de ATTRwt em ICFEp nos ≥75 anos, em candidatos a TAVI e em doentes com síndrome do canal cárpico bilateral
  2. Expansão do acesso a cintigrafia 99mTc-DPD fora dos grandes centros
  3. Protocolo de codificação claro para E8582 nos hospitais SNS (actualmente ausente em muitos centros)
  4. Avaliação urgente do acesso ao tafamidis no SNS: se a doença é diagnosticada em fase avançada (internamento de urgência), o benefício terapêutico é menor
  5. Criação de registo nacional de ATTRwt para monitorizar a cascata diagnóstica e o acesso ao tratamento

Metodologia

Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS — episódios hospitalares nos hospitais do SNS português, 2017–2024.

Código ICD utilizado: ICD-10-CM E8582 (Wild-type transthyretin-related (ATTR) amyloidosis), em qualquer das posições d1–d10.

Tipo de episódio: Internamentos (tipo_port_apr31 = 'Int') na análise principal; episódios ambulatórios (Amb) referenciados separadamente. A série inicia em 2017 porque o código E8582 não existia em ICD-9-CM.

Exclusões de IDs sentinela: Aplicadas na análise de reinternamentos (n_ficticio_utente NOT IN sentinel_patient_ids).

Doentes únicos: Contagem de n_ficticio_utente distinto; linkage <1% indeterminado após 2017.

Reinternamentos: Calculados sobre pares de episódios consecutivos do mesmo utente (qualquer internamento subsequente após a alta); base de 121 episódios com seguimento disponível.

Comorbilidades: Elixhauser (Quan 2005), d1–d10, hierarquia aplicada.

Comparação entre subtipos: E8582 vs E851 (hATTR) vs E8581 (AL), todos em internamento SNS 2017–2024.

Supressão de células: Células com n<5 apresentadas como '<5' em conformidade com as normas de privacidade.

Limitações: (1) Série curta (8 anos) com volumes reduzidos — taxas instáveis nos anos iniciais; (2) Subdiagnóstico marcado impede análise de incidência real; (3) Não é possível distinguir na BDMH se o diagnóstico foi feito por cintigrafia DPD, biopsia ou critérios clínicos; (4) Informação sobre terapêutica farmacológica (tafamidis, etc.) não disponível na BDMH; (5) Dados de ambulatório muito incompletos para esta patologia (n=35 em todo o período).

Data de análise: Junho de 2025.

Reprodutibilidade: consultas SQL utilizadas (5)

Série anual E8582 por tipo de produção

SELECT ano, tipo_port_apr31, COUNT(*) AS n_episodios, SUM(CASE WHEN d1='E8582' THEN 1 ELSE 0 END) AS diag_principal, COUNT(DISTINCT n_ficticio_utente) AS doentes_unicos, SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END) AS obitos, ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),1) AS tx_mortalidade, ROUND(AVG(CASE WHEN dias_int>=0 THEN dias_int END),1) AS media_dias, ROUND(AVG(idade),1) AS idade_media, ROUND(AVG(deq_apr31),3) AS deq_medio FROM episodes WHERE (d1='E8582' OR d2='E8582' OR d3='E8582' OR d4='E8582' OR d5='E8582' OR d6='E8582' OR d7='E8582' OR d8='E8582' OR d9='E8582' OR d10='E8582') GROUP BY ano, tipo_port_apr31 ORDER BY ano, tipo_port_apr31

Distribuição por sexo E8582 internamento

SELECT CASE sexo WHEN 1 THEN 'Masculino' WHEN 2 THEN 'Feminino' ELSE 'Outro' END AS sexo_label, COUNT(*) AS n_episodios, ROUND(100.0*COUNT(*)/SUM(COUNT(*)) OVER(),1) AS pct, ROUND(AVG(idade),1) AS idade_media, PERCENTILE_CONT(0.5) WITHIN GROUP (ORDER BY idade) AS mediana_idade, SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END) AS obitos, ROUND(AVG(CASE WHEN dias_int>=0 THEN dias_int END),1) AS media_dias FROM episodes WHERE tipo_port_apr31='Int' AND (d1='E8582' OR d2='E8582' OR d3='E8582' OR d4='E8582' OR d5='E8582' OR d6='E8582' OR d7='E8582' OR d8='E8582' OR d9='E8582' OR d10='E8582') GROUP BY sexo ORDER BY sexo

Comorbilidades Elixhauser nos episódios E8582

WITH amil_eps AS (SELECT n_ficticio_utente, hospital, data_entrada, icd_versao, dsp FROM episodes WHERE tipo_port_apr31='Int' AND (d1='E8582' OR d2='E8582' OR d3='E8582' OR d4='E8582' OR d5='E8582' OR d6='E8582' OR d7='E8582' OR d8='E8582' OR d9='E8582' OR d10='E8582')) SELECT c.comorbidade, MIN(c.descricao_pt) AS descricao_pt, COUNT(DISTINCT (a.n_ficticio_utente, a.hospital, a.data_entrada)) AS n_episodios FROM amil_eps a JOIN diagnoses d ON d.n_ficticio_utente=a.n_ficticio_utente AND d.data_entrada=a.data_entrada AND d.hospital=a.hospital JOIN comorbidades c ON c.icd_versao=d.icd_versao AND c.codigo=d.codigo GROUP BY c.comorbidade ORDER BY n_episodios DESC

Reinternamentos 30/90/365 dias ATTRwt

WITH attrwt_eps AS (SELECT n_ficticio_utente, hospital, data_entrada, data_saida, dsp FROM episodes WHERE tipo_port_apr31='Int' AND n_ficticio_utente IS NOT NULL AND n_ficticio_utente NOT IN (SELECT n_ficticio_utente FROM sentinel_patient_ids) AND (d1='E8582' OR d2='E8582' OR d3='E8582' OR d4='E8582' OR d5='E8582' OR d6='E8582' OR d7='E8582' OR d8='E8582' OR d9='E8582' OR d10='E8582')), next_ep AS (SELECT a.n_ficticio_utente, a.data_entrada, a.data_saida, MIN(b.data_entrada) AS proxima_entrada FROM attrwt_eps a JOIN episodes b ON b.n_ficticio_utente=a.n_ficticio_utente AND b.data_entrada>a.data_saida AND b.tipo_port_apr31='Int' AND b.n_ficticio_utente NOT IN (SELECT n_ficticio_utente FROM sentinel_patient_ids) GROUP BY a.n_ficticio_utente, a.data_entrada, a.data_saida) SELECT COUNT(*) AS episodios_com_seguimento, SUM(CASE WHEN DATE_DIFF('day',data_saida,proxima_entrada)<=30 THEN 1 ELSE 0 END) AS reint_30d, SUM(CASE WHEN DATE_DIFF('day',data_saida,proxima_entrada)<=90 THEN 1 ELSE 0 END) AS reint_90d, SUM(CASE WHEN DATE_DIFF('day',data_saida,proxima_entrada)<=365 THEN 1 ELSE 0 END) AS reint_365d FROM next_ep

Comparação perfis clínicos ATTRwt vs hATTR vs AL

SELECT subtipo, n_episodios, doentes_unicos, idade_media, pct_masculino, tx_mortalidade, media_dias, pct_urgente, deq_medio FROM (SELECT 'ATTRwt (E8582)' AS subtipo, COUNT(*) AS n_episodios, COUNT(DISTINCT n_ficticio_utente) AS doentes_unicos, ROUND(AVG(idade),1) AS idade_media, ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN sexo=1 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),1) AS pct_masculino, ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),1) AS tx_mortalidade, ROUND(AVG(CASE WHEN dias_int>=0 THEN dias_int END),1) AS media_dias, ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN adm_tip=2 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),1) AS pct_urgente, ROUND(AVG(deq_apr31),3) AS deq_medio FROM episodes WHERE tipo_port_apr31='Int' AND (d1='E8582' OR d2='E8582' OR d3='E8582' OR d4='E8582' OR d5='E8582' OR d6='E8582' OR d7='E8582' OR d8='E8582' OR d9='E8582' OR d10='E8582') UNION ALL SELECT 'hATTR (E851)', COUNT(*), COUNT(DISTINCT n_ficticio_utente), ROUND(AVG(idade),1), ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN sexo=1 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),1), ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),1), ROUND(AVG(CASE WHEN dias_int>=0 THEN dias_int END),1), ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN adm_tip=2 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),1), ROUND(AVG(deq_apr31),3) FROM episodes WHERE tipo_port_apr31='Int' AND (d1='E851' OR d2='E851' OR d3='E851' OR d4='E851' OR d5='E851' OR d6='E851' OR d7='E851' OR d8='E851' OR d9='E851' OR d10='E851') UNION ALL SELECT 'AL (E8581)', COUNT(*), COUNT(DISTINCT n_ficticio_utente), ROUND(AVG(idade),1), ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN sexo=1 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),1), ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN dsp=20 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),1), ROUND(AVG(CASE WHEN dias_int>=0 THEN dias_int END),1), ROUND(100.0*SUM(CASE WHEN adm_tip=2 THEN 1 ELSE 0 END)/COUNT(*),1), ROUND(AVG(deq_apr31),3) FROM episodes WHERE tipo_port_apr31='Int' AND (d1='E8581' OR d2='E8581' OR d3='E8581' OR d4='E8581' OR d5='E8581' OR d6='E8581' OR d7='E8581' OR d8='E8581' OR d9='E8581' OR d10='E8581')) t ORDER BY subtipo

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