Cardiomiopatia Amiloidótica em Portugal — Análise Epidemiológica, Clínica, Hospitalar e Económica (2000–2024)
Entre 2000 e 2024, registaram-se 22.944 episódios de internamento hospitalar com diagnóstico de amiloidose nos hospitais do SNS português, com uma tendência de crescimento acentuado e sustentado — a taxa bruta por 100.000 habitantes triplicou de 5,0 (2000) para 15,6 (2024), e a taxa nos maiores de 65 anos passou de 5,1 para 46,7 por 100.000. A mortalidade hospitalar global foi de 9,0%, afectando de forma desproporcionada os grupos mais idosos e os doentes com maior carga de comorbilidades. O distrito do Porto, seguido de Braga e Coimbra, concentra os maiores volumes absolutos, reflectindo o papel histórico do Norte como zona endémica da amiloidose hereditária por transtirretina (hATTR).
Contexto e Enquadramento
A amiloidose cardíaca — ou cardiomiopatia amiloidótica — é uma doença de depósito sistémico de proteínas fibrilares insolúveis no miocárdio, resultando em cardiomiopatia restritiva progressiva. Em Portugal, a doença assume particular relevância por duas razões: a existência de um cluster endémico de amiloidose hereditária por transtirretina (hATTR-V30M, anteriormente designada Polineuropatia Amiloidótica Familiar ou PAF), com epicentro histórico nos distritos do Porto e Braga; e o crescente reconhecimento global da amiloidose por transtirretina de tipo selvagem (ATTRwt), que afecta predominantemente idosos e é hoje considerada subdiagnosticada à escala mundial.
Este relatório analisa todos os episódios de internamento hospitalar com diagnóstico de amiloidose registados na Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH/ACSS) entre 2000 e 2024, cobrindo o universo de hospitais do SNS (N = 22.944 episódios de internamento). A análise inclui epidemiologia, mortalidade, distribuição geográfica, comorbilidades, procedimentos, custos e padrões temporais.
1. Definição da População de Estudo e Códigos ICD Utilizados
Foram incluídos todos os episódios de internamento hospitalar (tipo_port_apr31 = 'Int') que apresentassem, em qualquer das 10 posições de diagnóstico (d1–d10), pelo menos um dos seguintes códigos:
ICD-9-CM (episódios até 2016)
| Código | Descrição |
|---|---|
| 2773 | Amiloidose, não especificada |
| 27730 | Amiloidose, não especificada (subcódigo) |
| 27731 | Neuropatia amiloidótica hereditária |
| 27739 | Amiloidose não classificável em outra parte |
ICD-10-CM (episódios desde 2016/2017)
| Código | Descrição |
|---|---|
| E850 | Amiloidose heredofamiliar não-neuropática |
| E851 | Amiloidose heredofamiliar neuropática (hATTR) |
| E852 | Amiloidose heredofamiliar, sem outra especificação |
| E853 | Amiloidose sistémica secundária |
| E854 | Amiloidose limitada a órgãos |
| E858 | Outra amiloidose |
| E8581 | Amiloidose AL (cadeia leve) |
| E8582 | ATTRwt — amiloidose por transtirretina de tipo selvagem |
| E8589 | Outras amiloidoses |
| E859 | Amiloidose, sem outra especificação |
Nota ICD: A cardiomiopatia amiloidótica não possui, em nenhuma das versões ICD usadas na BDMH, um código específico de "cardiomiopatia amiloidótica". O código I43 (cardiomiopatia em doenças classificadas noutras partes) e I425 (cardiomiopatia restritiva) são inespecíficos e apenas capturam uma fracção muito pequena dos casos. A estratégia de extracção adoptada — todos os episódios com código de amiloidose em qualquer posição — é a abordagem padrão para esta condição e permite identificar tanto os internamentos motivados directamente pela doença (diagnóstico principal) como aqueles em que a amiloidose é comorbilidade registada.
2. Evolução Temporal (2000–2024)
A série temporal revela um crescimento robusto e sustentado do número de internamentos por amiloidose em Portugal, com três fases distintas:
- 2000–2009 (fase inicial): Volume relativamente estável entre 518 e 835 episódios/ano, com crescimento moderado (taxa bruta 5,0–7,9/100.000 hab.).
- 2010–2016 (fase de consolidação): Estabilização com crescimento progressivo (729–898 episódios/ano; taxa 6,9–8,7/100.000). Esta fase coincide com o arranque do programa nacional de tratamento da PAF e com a crescente disponibilidade de terapêutica específica (tafamidis, patisiran).
- 2017–2024 (fase de aceleração): Crescimento marcado a partir de 2017, com mais do dobro dos episódios face aos anos anteriores. Em 2021 regista-se um pico de 1.569 episódios (+43% face a 2020), parcialmente atribuível ao aumento do diagnóstico de ATTRwt e à maior codificação hospitalar dos subtipos específicos. Em 2024, o volume é de 1.678 episódios, representando uma taxa de 15,6/100.000 hab.
Barras azuis: total de episódios. Linha vermelha: episódios com amiloidose como diagnóstico principal. Fonte: BDMH/ACSS, internamentos SNS 2000–2024.
Linha azul: taxa total (toda a população). Linha laranja tracejada: taxa nos ≥65 anos. Denominadores: INE/dim_populacao. Taxas brutas (não ajustadas por idade).
2.1 Série Anual Completa (2000–2024)
A tabela seguinte apresenta a série anual completa com todos os indicadores fundamentais, incluindo taxas brutas por 100.000 habitantes.
| Ano | Episódios | Diag. Principal | Doentes únicos | Óbitos | Tx. Mort. (%) | Média dias int. | Taxa/100k hab. | Taxa ≥65 anos/100k |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2000 | 518 | 146 | 45 | 37 | 7,1 | 11,1 | 5,01 | 5,09 |
| 2001 | 573 | 148 | 137 | 43 | 7,5 | 10,7 | 5,51 | 6,21 |
| 2002 | 592 | 167 | 188 | 47 | 7,9 | 11 | 5,67 | 5,66 |
| 2003 | 561 | 134 | 194 | 52 | 9,3 | 9,8 | 5,36 | 4,9 |
| 2004 | 638 | 157 | 271 | 53 | 8,3 | 11,2 | 6,08 | 7,1 |
| 2005 | 630 | 125 | 317 | 54 | 8,6 | 11,9 | 5,99 | 6,58 |
| 2006 | 720 | 154 | 398 | 69 | 9,6 | 11,2 | 6,84 | 8,5 |
| 2007 | 709 | 138 | 393 | 46 | 6,5 | 11,5 | 6,72 | 7,86 |
| 2008 | 766 | 167 | 471 | 66 | 8,6 | 10,3 | 7,25 | 7,59 |
| 2009 | 835 | 160 | 509 | 44 | 5,3 | 9,1 | 7,9 | 6,63 |
| 2010 | 729 | 134 | 467 | 45 | 6,2 | 9,7 | 6,9 | 7,08 |
| 2011 | 747 | 134 | 494 | 52 | 7 | 9,4 | 7,07 | 10,03 |
| 2012 | 808 | 132 | 532 | 61 | 7,5 | 10,4 | 7,69 | 13,18 |
| 2013 | 809 | 123 | 542 | 71 | 8,8 | 10,1 | 7,75 | 12,17 |
| 2014 | 839 | 145 | 553 | 77 | 9,2 | 10,1 | 8,07 | 14,21 |
| 2015 | 837 | 117 | 599 | 67 | 8 | 10,5 | 8,07 | 15,1 |
| 2016 | 898 | 173 | 596 | 75 | 8,4 | 10,5 | 8,68 | 15,59 |
| 2017 | 1078 | 163 | 758 | 92 | 8,5 | 11,7 | 10,43 | 21,22 |
| 2018 | 1094 | 217 | 765 | 116 | 10,6 | 10,9 | 10,59 | 21,91 |
| 2019 | 1151 | 202 | 809 | 120 | 10,4 | 11,8 | 11,09 | 25,06 |
| 2020 | 1096 | 174 | 753 | 134 | 12,2 | 11,9 | 10,54 | 26,24 |
| 2021 | 1569 | 208 | 924 | 144 | 9,2 | 8,8 | 15,06 | 38,88 |
| 2022 | 1538 | 213 | 970 | 167 | 10,9 | 10,1 | 14,62 | 42,65 |
| 2023 | 1531 | 241 | 1027 | 167 | 10,9 | 10,4 | 14,39 | 41,22 |
| 2024 | 1678 | 326 | 1064 | 169 | 10,1 | 10 | 15,61 | 46,65 |
Doentes únicos: contagem de n_ficticio_utente distinto por ano (linkage <1% indeterminado após 2017; antes de 2006, até 26% de episódios não identificados). Taxas brutas (denominadores INE).
3. Distribuição por Subtipos de Amiloidose
A transição para ICD-10 (a partir de 2017) permitiu uma codificação mais granular dos subtipos de amiloidose. A análise dos subtipos revela:
- hATTR (E851 — Amiloidose heredofamiliar neuropática): 1.469 episódios em ICD-10, com idade média de 51 anos e mortalidade hospitalar de 3,7% — o perfil típico da PAF portuguesa, com diagnóstico numa fase relativamente jovem e seguimento programado em centros de referência.
- E854 (Amiloidose limitada a órgãos): 1.715 episódios, com idade média de 75,9 anos e mortalidade de 13,4%, sugerindo que muitos destes correspondem a ATTRwt cardíaca.
- E8581 (Amiloidose AL — cadeia leve): 1.092 episódios em ICD-10, com mortalidade hospitalar de 4,3%.
- E8582 (ATTRwt — wild-type): apenas 274 episódios totais (ICD-9 + ICD-10), reflectindo o subdiagnóstico histórico desta entidade; a sua codificação aumentou de 0 em 2017 para 47 em 2024.
A grande proporção de episódios codificados de forma inespecífica (ICD-9: 2773 NE) limita a análise por subtipo para o período 2000–2016.
| Ano | hATTR (E851) | ATTRwt (E8582) | AL (E8581) | Órgão-limitada (E854) | NE (E859) | Total (ICD-10) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2017 | 383 | <5 | 33 | 178 | 135 | 1078 |
| 2018 | 323 | <5 | 48 | 175 | 179 | 1094 |
| 2019 | 308 | 8 | 65 | 238 | 129 | 1151 |
| 2020 | 245 | 14 | 67 | 245 | 80 | 1096 |
| 2021 | 253 | 20 | 224 | 352 | 214 | 1569 |
| 2022 | 207 | 23 | 239 | 396 | 110 | 1538 |
| 2023 | 208 | 41 | 218 | 413 | 145 | 1531 |
| 2024 | 153 | 47 | 282 | 502 | 159 | 1678 |
Em 2017–2018 os episódios de ICD-10 incluem também os que transitaram para ICD-10 a partir de 2016. A coluna 'Total (ICD-10)' inclui todos os subtipos E85x.
Fonte: BDMH/ACSS. Apenas episódios com codificação ICD-10. A categoria 'NE/Outros' inclui E852, E853, E858, E8589 e E859.
4. Distribuição Etária
A amiloidose apresenta um perfil etário bimodal em Portugal, reflectindo a coexistência de dois fenótipos predominantes:
- A hATTR (PAF), que afecta tipicamente doentes mais jovens (30–60 anos), dominando nos distritos do Norte;
- A ATTRwt e AL, que afectam predominantemente idosos (≥70 anos), com impacto crescente à medida que melhora o diagnóstico.
A mortalidade hospitalar aumenta progressivamente com a idade, de 2,3% no grupo <40 anos para 18,9% nos ≥80 anos, reflectindo tanto a maior gravidade da doença nestes grupos como a maior carga de comorbilidades.
| Grupo Etário | Episódios | % do Total | Óbitos | Tx. Mortalidade (%) | Média dias int. |
|---|---|---|---|---|---|
| 0–39 anos | 4311 | 18,8 | 101 | 2,3 | 8,8 |
| 40–49 anos | 4022 | 17,5 | 204 | 5,1 | 8,3 |
| 50–59 anos | 3371 | 14,7 | 274 | 8,1 | 10,5 |
| 60–69 anos | 3630 | 15,8 | 350 | 9,6 | 11,5 |
| 70–79 anos | 4277 | 18,6 | 508 | 11,9 | 11,3 |
| 80+ anos | 3333 | 14,5 | 631 | 18,9 | 13,2 |
O elevado peso dos grupos <50 anos reflecte a hATTR (PAF) com diagnóstico em idade jovem. O crescimento dos grupos ≥65 anos nas últimas décadas reflecte a crescente detecção de ATTRwt.
Fonte: BDMH/ACSS. Episódios de internamento SNS 2000–2024.
5. Distribuição por Sexo
O predomínio masculino é ligeiro mas consistente: 52,6% dos episódios correspondem a homens, com uma mortalidade hospitalar de 9,4% vs. 8,6% nas mulheres. A idade média é idêntica em ambos os sexos (58,4 anos). A razão homem:mulher foi de 1,11:1 no total do período, mas aumentou para valores superiores a 1,2:1 nos anos mais recentes (2016–2024), reflectindo o maior reconhecimento da ATTRwt, que é predominantemente masculina.
A duração média de internamento foi ligeiramente superior nos homens (10,8 vs. 10,1 dias).
Até 2009 as mulheres eram ligeiramente predominantes (reflexo da maior proporção feminina na PAF). A partir de 2010, a inversão reflecte o crescimento da ATTRwt (predominantemente masculina).
6. Mortalidade Hospitalar
A mortalidade hospitalar global foi de 9,0% (2.068 óbitos em 22.944 episódios). A taxa de mortalidade não apresentou uma tendência linear clara ao longo do período, oscilando entre 5,3% (2009) e 12,2% (2020). O ano de 2020 registou a mortalidade mais elevada, possivelmente influenciada pela pandemia COVID-19 e pela selecção de casos mais graves para internamento.
A mortalidade foi significativamente diferente segundo:
- Posição do diagnóstico: os episódios com amiloidose como diagnóstico principal tiveram mortalidade mais baixa do que os com diagnóstico secundário (reflexo de que o diagnóstico secundário surge frequentemente em doentes mais graves por outra causa).
- Tipo de admissão: admissão urgente 13,4% vs. admissão programada 2,8% (diferença de 10,6 pontos percentuais).
- Faixa etária: de 2,3% nos <40 anos a 18,9% nos ≥80 anos.
Destino de Alta
- Domicílio: 84,8% dos episódios
- Falecido: 9,0%
- Transferência para outra instituição: 3,5%
- Cuidados continuados: 1,4%
Mortalidade intra-hospitalar (dsp=20). O aumento da mortalidade nos anos recentes é parcialmente explicado pelo envelhecimento da coorte de doentes (crescente peso da ATTRwt).
7. Distribuição Geográfica
Padrão por Distrito de Residência
O padrão geográfico da amiloidose em Portugal é inequívoco: o Norte e Centro interior apresentam as taxas mais elevadas, com o distrito de Bragança a liderar com 22,9 internamentos por 100.000 habitantes por ano — mais do dobro da média nacional. Este cluster corresponde ao foco histórico da hATTR-V30M (PAF), que tem o seu epicentro nos concelhos de Barcelos, Vila do Conde e Póvoa de Varzim (distrito do Porto), com extensões para Braga, Bragança, Coimbra e Viseu.
O Sul do país (Alentejo e Algarve) apresenta taxas muito inferiores, embora o Algarve tenha a taxa de mortalidade mais elevada (17,8%), possivelmente reflectindo doentes com diagnóstico tardio.
Nota: Os mapas geográficos não são produzidos automaticamente neste relatório; a tabela abaixo fornece os dados para produção de mapas coropletos.
| Distrito | Episódios | Óbitos | Tx. Mort. (%) | Pop. média anual | Taxa acum./100k | Taxa anual/100k |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Bragança | 766 | 14 | 1,8 | 134 053 | 571,4 | 22,86 |
| Coimbra | 1658 | 119 | 7,2 | 426 168 | 389 | 15,56 |
| Braga | 3104 | 215 | 6,9 | 845 781 | 367 | 14,68 |
| Porto | 6181 | 507 | 8,2 | 1 807 513 | 342 | 13,68 |
| Guarda | 457 | 41 | 9 | 158 725 | 287,9 | 11,52 |
| Castelo Branco | 529 | 38 | 7,2 | 192 083 | 275,4 | 11,02 |
| Viseu | 813 | 76 | 9,3 | 371 913 | 218,6 | 8,74 |
| Vila Real | 400 | 33 | 8,3 | 202 487 | 197,5 | 7,9 |
| Aveiro | 1334 | 137 | 10,3 | 712 359 | 187,3 | 7,49 |
| Viana do Castelo | 429 | 47 | 11 | 241 240 | 177,8 | 7,11 |
| Leiria | 824 | 89 | 10,8 | 466 249 | 176,7 | 7,07 |
| Lisboa | 3897 | 431 | 11,1 | 2 243 766 | 173,7 | 6,95 |
| Santarém | 700 | 84 | 12 | 445 083 | 157,3 | 6,29 |
| Setúbal | 1174 | 139 | 11,8 | 849 656 | 138,2 | 5,53 |
| Faro | 320 | 57 | 17,8 | 445 733 | 71,8 | 2,87 |
| Portalegre | 80 | 10 | 12,5 | 115 424 | 69,3 | 2,77 |
| Évora | 93 | 11 | 11,8 | 163 266 | 57 | 2,28 |
| Beja | 64 | 9 | 14,1 | 151 865 | 42,1 | 1,69 |
Taxas brutas (não ajustadas por idade). Taxa acumulada = total episódios 2000–2024 / pop. média anual × 100.000. Taxa anual = taxa acumulada / 25 anos. Excluem-se residências desconhecidas (99) e ilhas (populações não disponíveis ao nível distrital).
8. Hospitais com Maior Experiência em Amiloidose
Os três maiores centros de referência são a ULS de Santo António (Porto, 4.048 episódios — o principal centro de tratamento da PAF em Portugal), a ULS de Coimbra (2.750 episódios) e a ULS de São José (Lisboa, 2.256 episódios). Em conjunto, estes três centros concentram 39,6% de todos os internamentos por amiloidose no país.
A ULS do Algarve apresenta a mortalidade mais elevada entre os centros com volume significativo (22,6%), possívelmente reflexo de menor especialização e diagnóstico mais tardio. A ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro apresenta uma duração de internamento muito curta (2,7 dias de média), sugerindo que muitos episódios correspondem a pacemakers ou procedimentos de curta duração em doentes seguidos noutros centros.
| Hospital | Episódios | Diag. Principal | Óbitos | Tx. Mort. (%) | Média dias int. |
|---|---|---|---|---|---|
| ULS de Santo António (Porto) | 4048 | 780 | 233 | 5,8 | 9,2 |
| ULS de Coimbra | 2750 | 552 | 177 | 6,4 | 10,2 |
| ULS de São José (Lisboa) | 2256 | 505 | 134 | 5,9 | 12,2 |
| ULS de Santa Maria (Lisboa) | 1101 | 214 | 134 | 12,2 | 12 |
| ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro | 1092 | 129 | 37 | 3,4 | 2,7 |
| ULS de São João (Porto) | 1085 | 185 | 112 | 10,3 | 12,4 |
| ULS de Braga | 865 | 125 | 102 | 11,8 | 9,7 |
| ULS de Lisboa Ocidental | 648 | 110 | 82 | 12,7 | 13,3 |
| ULS de Matosinhos | 507 | 68 | 52 | 10,3 | 11,9 |
| ULS de Gaia / Espinho | 477 | 185 | 52 | 10,9 | 8,6 |
| ULS de Viseu Dão-Lafões | 468 | 99 | 57 | 12,2 | 11,1 |
| ULS da Póvoa de Varzim / Vila do Conde | 402 | 32 | 42 | 10,4 | 8,6 |
| ULS de Amadora / Sintra | 322 | 57 | 44 | 13,7 | 16,5 |
| ULS de Almada / Seixal | 316 | 71 | 44 | 13,9 | 12,7 |
| ULS do Algarve | 239 | 50 | 54 | 22,6 | 20,4 |
| ULS da Lezíria | 235 | 23 | 36 | 15,3 | 11,8 |
| ULS do Tâmega e Sousa | 228 | 48 | 23 | 10,1 | 16,4 |
| ULS do Alto Minho | 217 | 27 | 32 | 14,7 | 12 |
| ULS de Entre Douro e Vouga | 213 | 18 | 30 | 14,1 | 9,3 |
| ULS da Cova da Beira | 213 | 62 | 16 | 7,5 | 11,1 |
Nomes de hospitais reflectem a estrutura organizacional de 2025 (fusões ULS aplicadas retroactivamente). Tx. Mort. = mortalidade intra-hospitalar.
9. Comorbilidades Associadas
A análise das comorbilidades Elixhauser nos episódios de amiloidose revela uma elevada carga de multimorbilidade, com destaque para as comorbilidades cardiovasculares e renais — clinicamente congruentes com as manifestações sistémicas da doença.
Top 10 comorbilidades mais frequentes (Elixhauser):
- Arritmias cardíacas (38,5% dos episódios) — incluindo FA, bloqueios e disfunção sinusal; directamente relacionadas com a infiltração amiloidótica do sistema de condução.
- Doença hepática (31,3%) — reflecte tanto o envolvimento hepático directo (na amiloidose AL) como o transplante hepático (na hATTR/PAF).
- Insuficiência renal (30,4%) — consequência do depósito glomerular de amiloide; preditor de mau prognóstico.
- Insuficiência cardíaca congestiva (27,3%) — manifestação cardinal da cardiomiopatia amiloidótica.
- Hipertensão não complicada (21,3%)
- Hipertensão complicada (17,4%)
- Distúrbios hidroelectrolíticos (15,6%)
- Diabetes não complicada (13,5%)
- Outras doenças neurológicas (12,8%) — neuropatia periférica na hATTR.
- Diabetes complicada (12,5%)
| Comorbilidade | N.º episódios com comorbilidade | Mortalidade com comorbilidade (%) |
|---|---|---|
| Arritmias cardíacas | 8824 | 7,2 |
| Doença hepática | 7187 | 6,2 |
| Insuficiência renal | 6965 | 8,3 |
| Insuficiência cardíaca congestiva | 6265 | 10,8 |
| Hipertensão não complicada | 4878 | 6,9 |
| Hipertensão complicada | 3997 | 10,9 |
| Distúrbios hidroelectrolíticos | 3588 | 10,7 |
| Diabetes não complicada | 3091 | 6,8 |
| Outras doenças neurológicas | 2936 | 7,3 |
| Diabetes complicada | 2859 | 6,6 |
| Doença pulmonar crónica | 2851 | 7,3 |
| Doença valvular | 2437 | 7,2 |
| Tumor sólido sem metástases | 2317 | 6 |
| Linfoma | 2257 | 8,8 |
| Depressão | 2218 | 5,7 |
Comorbilidades Elixhauser (Quan 2005), identificadas em qualquer posição diagnóstica d1–d10. Um episódio pode ter múltiplas comorbilidades.
10. Multimorbilidade
Quase 44% dos episódios de amiloidose foram registados em doentes com 3 ou mais comorbilidades (Elixhauser). A relação entre carga de comorbilidades e mortalidade é clara e progressiva: a mortalidade triplica de 3,8% (sem comorbilidades) para 12,0% (3 ou mais comorbilidades). Da mesma forma, a duração média de internamento quase duplica (7,1 vs. 11,6 dias).
| N.º comorbilidades | Episódios | % do total | Óbitos | Tx. mortalidade (%) | Média dias int. |
|---|---|---|---|---|---|
| 0 (sem comorbilidades) | 2503 | 10,9 | 95 | 3,8 | 7,1 |
| 1 comorbilidade | 5094 | 22,2 | 293 | 5,8 | 9,2 |
| 2 comorbilidades | 5254 | 22,9 | 477 | 9,1 | 11,4 |
| 3 ou mais comorbilidades | 10 052 | 43,9 | 1203 | 12 | 11,6 |
Comorbilidades Elixhauser (hierarquia aplicada: complicada supera não complicada, metastática supera sólido sem metástases).
11. Procedimentos e Tratamentos
A análise dos procedimentos mais relevantes no contexto da amiloidose revela:
- Diálise: 1.880 episódios (8,2% do total) — consequência da nefropatia amiloidótica, com mortalidade de 8,4%.
- Cateterismo cardíaco: 1.746 episódios (7,6%) — para avaliação hemodinâmica da cardiomiopatia restritiva; mortalidade de 13,2%.
- Pacemaker/CDI: 477 episódios (2,1%) — implantação de dispositivos para manejo de bloqueios e arritmias; mortalidade muito baixa (2,1%), reflectindo procedimentos programados.
- Ventilação mecânica: 255 episódios (1,1%), com mortalidade de 32,9% — marcador de descompensação crítica.
- Transplante cardíaco: volume insuficiente para análise segura (<5 episódios identificados com critérios actuais).
A baixa taxa de ventilação mecânica relativamente aos óbitos sugere que muitas mortes ocorrem sem recurso a cuidados intensivos com suporte ventilatório, o que poderá reflectir a natureza progressiva e paliativa da doença em fase avançada.
Reinternamentos
- Reinternamento a 30 dias: 28,6% dos episódios com seguimento possível — uma taxa muito elevada que reflecte a natureza crónica e progressiva da doença.
- Reinternamento a 90 dias: 44,6% — quase metade dos doentes é reinternado nos 3 meses seguintes.
| Procedimento | Episódios | Óbitos | Tx. mortalidade (%) |
|---|---|---|---|
| Diálise (hemodiálise / diálise peritoneal) | 1880 | 158 | 8,4 |
| Cateterismo cardíaco | 1746 | 230 | 13,2 |
| Pacemaker / CDI | 477 | 10 | 2,1 |
| Ventilação mecânica invasiva | 255 | 84 | 32,9 |
Identificação por prefixos ICD-9 e ICD-10 nas posições p1–p5. Transplante cardíaco: <5 casos identificados pela codificação actual.
12. Duração do Internamento e Complexidade
A duração média global de internamento foi de 10,4 dias (mediana variável entre 4 e 7 dias consoante o ano). A mediana é sistematicamente inferior à média, reflectindo uma distribuição assimétrica à direita com uma minoria de internamentos muito prolongados.
- Percentil 90: 22–30 dias de internamento (consoante o ano), indicando que 10% dos episódios duram mais de 3 semanas.
- Evolução temporal: a duração média manteve-se relativamente estável ao longo dos 25 anos (9–12 dias), sem uma tendência de encurtamento clara — diferente do que se observa noutras patologias cardíacas, onde houve redução assinalável.
O índice de complexidade médio (DEQ — desvio esperado de qualidade/custo relativo do GDH APR-31) foi de 0,90, sem tendência de aumento significativo ao longo do período, sugerindo que o crescimento do volume de episódios não foi acompanhado por aumento equivalente na complexidade codificada — possivelmente porque muitos episódios recentes correspondem a doentes mais jovens e menos complexos (hATTR em seguimento regular) ou a admissões de curta duração para procedimentos específicos.
Tipo de Admissão
- Urgência: 58,4% dos episódios, com mortalidade de 13,4%
- Programado: 41,6% dos episódios, com mortalidade de apenas 2,8%
Esta distribuição revela que uma parte substancial dos doentes com amiloidose chega ao hospital em contexto de urgência — sugerindo diagnóstico tardio ou descompensação aguda, e não apenas seguimento programado.
13. Análise por Períodos Quinquenais
A comparação entre os cinco períodos quinquenais permite apreender a evolução estrutural da doença ao longo das duas décadas e meia:
| Período | Episódios | Doentes únicos | Óbitos | Tx. Mort. (%) | Média dias int. | Idade média | DEQ médio | Admissão urgente (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 2000–2004 | 2882 | 645 | 232 | 8 | 10,8 | 47,1 | 0,913 | 56,3 |
| 2005–2009 | 3660 | 1425 | 279 | 7,6 | 10,7 | 47,6 | 0,935 | 52,7 |
| 2010–2014 | 3932 | 1751 | 306 | 7,8 | 10 | 54 | 0,907 | 53,4 |
| 2015–2019 | 5058 | 2608 | 470 | 9,3 | 11,1 | 60,6 | 0,896 | 60,9 |
| 2020–2024 | 7412 | 3739 | 781 | 10,5 | 10,1 | 69 | 0,862 | 62,9 |
O aumento da idade média de 47 (2000–2004) para 69 anos (2020–2024) reflecte a transição do perfil hATTR (PAF, mais jovem) para um predomínio crescente de ATTRwt e AL (mais idosos). O crescimento da admissão urgente sugere progressão da doença nos utentes mais idosos.
14. Principais Causas de Internamento quando Amiloidose é Diagnóstico Secundário
Quando a amiloidose é registada como diagnóstico secundário (19.880 episódios, 86,7% do total), os diagnósticos principais mais frequentes que motivaram o internamento foram:
- Doença renal crónica terminal (N186): 992 episódios — os doentes fazem diálise regular e a amiloidose é comorbilidade.
- Complicação de fígado transplantado (99682): 492 episódios — doentes pós-transplante hepático por PAF (hATTR).
- Infecção do tracto urinário (5990): 289 episódios.
- Pneumonia (486/J189): 527 episódios (270+257), com mortalidade de 22–23% — internamentos de alto risco.
- Disfunção do nó sinusal (42781): 266 episódios — implantação de pacemaker.
- Insuficiência cardíaca (I509/4280): 447 episódios — descompensação cardíaca aguda.
Este padrão confirma que a amiloidose gera múltiplas vias de internamento: renal (diálise), cardíaca (insuficiência, arritmias), infecciosa (complicações de imunossupressão pós-transplante) e neurológica.
15. Custos e Complexidade Económica
A BDMH não disponibiliza valores de custo directo por episódio. A estimativa de impacto económico pode ser aproximada através do peso relativo dos GDH (APR-DRG), do número de episódios e dos dias de internamento.
Estimativa de custo relativo (proxy):
- DEQ médio global: 0,90 (ligeiramente abaixo da média de 1,0 do sistema)
- Com aproximadamente 22.944 episódios ao longo de 25 anos, e uma média de 10,4 dias de internamento por episódio, o peso total é de ~239.000 dias de internamento
- Nos últimos 5 anos (2020–2024), os 7.412 episódios representam ~75.000 dias de internamento
Evolução dos custos: O crescimento do número de episódios (+224% de 2000 para 2024) é o principal motor do aumento de custos, dado que o DEQ médio se manteve relativamente estável. O período 2020–2024 representa 32,3% de todos os episódios dos 25 anos, consolidando o crescimento exponencial da carga hospitalar desta doença.
Nota: A entrada de novos fármacos específicos para a ATTRwt (tafamidis, acoramidis) e para a hATTR (patisiran, inotersen, vutrisiran, eplontersen) a partir de 2019–2020 representa um custo farmacológico ambulatório não captado pela BDMH, que pode superar o custo do internamento em doentes seguidos em consulta externa.
16. Questões de Investigação — Respostas Sumárias
| Questão | Resposta |
|---|---|
| Quantos internamentos ocorreram? | 22.944 episódios (2000–2024) |
| A incidência hospitalar aumentou? | Sim: +212% na taxa bruta por 100.000 hab. |
| O aumento resulta de prevalência ou diagnóstico? | Ambos: reconhecimento da ATTRwt + expansão terapêutica hATTR + envelhecimento |
| Grupos etários mais afectados? | hATTR: 40–60 anos; ATTRwt/AL: ≥70 anos; distribuição bimodal |
| Diferenças por sexo? | Ligeiro predomínio masculino (52,6%); razão M:F crescente nos anos recentes |
| Mortalidade hospitalar? | 9,0% global; 18,9% nos ≥80 anos; 13,4% nas admissões urgentes |
| A mortalidade diminuiu? | Não claramente; tendência de aumento ligeiro no período mais recente |
| Principais comorbilidades? | Arritmias (38,5%), doença hepática (31,3%), insuficiência renal (30,4%), ICC (27,3%) |
| Impacto da multimorbilidade? | Mortalidade triplica: 3,8% (sem) → 12,0% (≥3 comorbilidades) |
| Hospitais com mais experiência? | ULS Santo António (Porto), ULS Coimbra, ULS São José (Lisboa) |
| Diferenças regionais significativas? | Sim: Norte e Centro Interior com taxas até 10× superiores ao Sul |
| Existem clusters geográficos? | Sim: Porto, Braga, Bragança, Coimbra — cluster hATTR histórico |
| Custo para o SNS? | Estimado em ~239.000 dias de internamento em 25 anos; crescimento acelerado |
| Peso dos cuidados intensivos? | Ventilação mecânica em 1,1% dos episódios; mortalidade 32,9% |
| Sinais de subdiagnóstico? | Sim: taxas muito baixas no Sul e ATTRwt com apenas 274 episódios codificados |
| Reinternamentos elevados? | Sim: 28,6% a 30 dias, 44,6% a 90 dias |
Metodologia
Fonte de dados: Base de Dados de Morbilidade Hospitalar (BDMH), ACSS — episódios de internamento hospitalar nos hospitais do SNS português, 2000–2024.
Critério de inclusão: Todos os episódios de internamento (tipo_port_apr31 = 'Int') com pelo menos um código de amiloidose em qualquer das 10 posições de diagnóstico (d1–d10):
- ICD-9-CM (até 2016): códigos 2773, 27730, 27731, 27739
- ICD-10-CM/PCS (a partir de 2016/2017): códigos E850–E859, E8581, E8582, E8589
Critérios de exclusão: Episódios ambulatórios e de cirurgia de ambulatório (tipo_port_apr31 ≠ 'Int'); episódios com residência desconhecida (código 99) na análise geográfica.
Captação da doença: A cardiomiopatia amiloidótica não tem código ICD específico isolado; a estratégia adoptada (todos os códigos E85x / 2773x em qualquer posição) identifica o universo mais amplo possível, incluindo hATTR, ATTRwt, AL e outras formas. Esta abordagem inclui episódios de doentes com amiloidose internados por outras causas (diagnóstico secundário, 86,7% do total).
Eras ICD: ~5,6% dos episódios de 2016 já usam ICD-10. A view 'icd_versao' por episódio foi respeitada em todas as pesquisas.
Comorbilidades: Índice de Elixhauser (Quan 2005), aplicado aos diagnósticos d1–d10 de cada episódio; hierarquia de complicação aplicada.
Populações: Estimativas anuais INE (dim_populacao), nível nacional e distrital; faixas etárias disponíveis: 0–14, 15–24, 25–64, 65+ e total. Taxas brutas (não padronizadas por idade), excepto quando indicado.
Doentes únicos: Contagem de n_ficticio_utente distinto; sentinelas excluídos. Linkage limitado antes de 2006 (até 26% de episódios sem identificação).
Quebras de série: 2007 (entrada de episódios ambulatórios); 2013 (alteração da definição de internamento); 2020 (pandemia COVID-19). Todas as análises filtram tipo_port_apr31='Int' para mitigar os efeitos de 2007 e 2013.
Custos: A BDMH não disponibiliza custos directos por episódio; os valores DEQ (desvio esperado APR-DRG v31) são utilizados como proxy de complexidade relativa.
Reinternamentos: Calculados sobre episódios com n_ficticio_utente válido e não-sentinela; a disponibilidade do identificador pseudonimizado é limitada no período 2000–2005.
Data de análise: Junho de 2025.